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Julio Gomes


Polêmica na Espanha: É o fim do Ramón de Carranza

Estádio Ramón de Carranza, na cidade espanhola de Cádiz  - John Walton - PA Images via Getty Images
Estádio Ramón de Carranza, na cidade espanhola de Cádiz Imagem: John Walton - PA Images via Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

11/06/2020 14h10

Resumo da notícia

  • Prefeitura de Cádiz confirma que irá alterar o nome do estádio
  • Troféu Ramón de Carranza foi vencido por grandes times brasileiros
  • Robinho estreou com a camisa do Real Madrid no estádio de Cádiz

Quem sabe quem foi Ramón de Carranza? Pelo jeito, muita gente na Espanha havia esquecido. Mas não o atual prefeito de Cádiz, José María González Santos (conhecido como Kichi e figura ativa no tradicional Carnaval da cidade), eleito em 2015 e reeleito em 2019 pelo partido "Esquerda Anticapitalista". E ele decidiu que um militar que participou do golpe de Estado de 1936 e fez parte da Guerra Civil não merece ser homenageado.

O nome Ramón de Carranza traz lembranças para o Brasil. Muitos clubes importantes foram campeões do tradicional quadrangular de pré-temporada disputado anualmente no mês de agosto. E Robinho, em 2005, estreou com a camisa do Real Madrid jogando em Cádiz.

Carranza foi almirante da Armada e prefeito da cidade durante a Segunda República, nos anos 30, e se uniu às tropas de Franco quando estourou a guerra. Voltou a ser prefeito de Cádiz e morreu ainda antes do fim da guerra, em 1937. Assim, a prefeitura de Cádiz alterou o nome de uma avenida da cidade que levava seu nome, três anos atrás. E reforçou nesta semana que o estádio do Cádiz, atual líder da segunda divisão espanhola, não vai mais ter este nome.

A decisão gera polêmica, logicamente. O estádio foi inaugurado em 1955 e uma enquete (sem valor científico) indica que 70% dos torcedores preferem ou que não haja mudança de nome ou que mude somente para "Carranza". Em tempos de discurso político cada vez mais radicalizado, é possível encontrar comentários em notícias nos sites espanhóis chamando o prefeito Kichi de "comunista" - versões do nosso "vai para Cuba".

"Deixar o nome Carranza seria manter o nome histórico, obviamente. Não se pode separar Carranza de Ramón de Carranza e que ele significou para a cidade, seu papel de cúmplice no golpe de Estado e o sofrimento da população", argumenta Martín Vila, vereador empenhado em resgatar a memória democrática e uma das figuras que impulsiona a mudança de nome do estádio.

"Sou cadista e vou ao estádio desde pequeno. O Carranza faz parte da nossa identidade, mas, quando você descobre o que está por trás deste nome, sente repulsa. Fruto da nossa ignorância sobre o que aconteceu no passado, estamos legitimando o autor de uma barbárie", acrescenta.

robinho no carranza - Denis Doyle/Getty Images - Denis Doyle/Getty Images
Robinho em ação em 2005, em sua estreia pelo Real Madrid, no gramado do Carranza
Imagem: Denis Doyle/Getty Images

O nome do estádio é o mesmo do torneio de pré-temporada que acontece desde a inauguração, em 1955, sempre no mês de agosto. Nos tempos em que o futebol brasileiro era dividido em dois semestres (Brasileiro em um, Estaduais em outro), muitos clubes daqui jogaram o quadrangular. Hoje em dia, o calendário praticamente impede a presença de brasileiros no Ramón de Carranza (que, fatalmente, também passará a ter outro nome).

Os campeões foram: Palmeiras (69, 74, 75), Flamengo (79, 80), Vasco (87, 88, 89), Atlético-MG (90), São Paulo (92) e Corinthians (96).

O título são-paulino chamou muito a atenção, pela goleada de 4 a 0 sobre o Real Madrid na final - era o time de Telê, que seria bicampeão da Libertadores e mundial em 92/93. Mas percebam, pelas datas, que os brasileiros que levantaram o Ramón de Carranza eram verdadeiros esquadrões de nossa história. Zico, por exemplo, fez cinco gols em suas participações e é um dos artilheiros históricos do torneio.

O último a participar foi o Vasco, em 99. Neste século e com os pontos corridos implementados por aqui, os clubes brasileiros pararam de ir a Cádiz. Barcelona e Real Madrid, que eram presença constante, também deixaram de participar, pois passaram a realizar pré-temporada em outros continentes, para expandir a marca. Assim, o quadrangular perdeu prestígio. E agora vai perder o nome.

Não se sabe ainda como será decidido o novo nome, talvez com votação popular. Entre os candidatos, aparecem Manuel Santander (figura histórica do Carnaval e criador do hino do clube), Mágico González (ex-ídolo do Cádiz) e Michael Robinson (ex-jogador e comentarista inglês, radicado na Espanha, que se dizia fanático pelo clube e morreu neste ano).

A Guerra Civil Espanhola foi travada entre 1936 e 1939 e precedeu a Segunda Grande Guerra Mundial. Estavam frente a frente republicanos e nacionalistas, liderados pelo general Francisco Franco. Apoiados por Hitler, que já preparava o terreno para a expansão alemã, os nacionalistas venceram a guerra no início de 1939 e governaram a Espanha até à morte de Franco, em novembro de 1975, após quase quatro décadas de ditadura.

A ampliação da Lei da Memória Histórica, de 2007, permitiu que fossem reconhecidos e ampliados direitos e fossem estabelecidas medidas em favor dos que morreram, foram perseguidos ou sofreram violência durante a Guerra Civil e a ditadura. É baseado nisso que o nome Ramón de Carranza pode desaparecer da vida de Cádiz, uma pequena e simpática cidade no sul do país.

Julio Gomes