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Julio Gomes


Morre na Espanha o cara que foi maior com o microfone do que com a chuteira

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

28/04/2020 17h21

Morreu na Espanha Michael Robinson.

Quem? A pergunta é justa.

Eu talvez eu estaria fazendo a mesma, não tivesse vivido cinco anos por lá. Michael Robinson, inglês de nascimento, atacante mediano, chegou a defender a seleção da Irlanda e era reserva do Liverpool campeão europeu em 1984. Passou por um monte de clubes e foi se aposentar no Osasuna, da cidade de Pamplona. Adotou a Espanha. E foi adotado por ela.

Desde 1990, Robinson, com seu espanhol propositadamente imperfeito, virou uma das principais vozes da TV do país. Por 30 anos, entrou na casa das pessoas para falar de futebol de uma forma como nunca vi ex-jogador algum falar. Um mestre das observações, das sutilezas, da informação sem prepotência, do conhecimento profundo do jogo e do ser humano. Um bom humor típico dos ingleses, com ironia fina e voz suave.

Não havia que não adorasse Michael Robinson na Espanha. Um raríssimo caso de ex-jogador que, com o microfone em mãos, se transformou em alguém maior do que era com a bola nos pés.

Quando cheguei à Espanha, não tinha ideia de quem se tratava. No mestrado que fiz lá, tivemos a oportunidade de ir ao estúdio do Canal Plus, na cidade de Trés Cantos, colada a Madrid, para ver a gravação de um programa chamado "El Día Después". Um programa que ia ao ar às segundas-feiras e foi o melhor que já vi até hoje sobre futebol.

"El Día Después" era uma obra de arte idealizada por Robinson, com roteiristas, repórteres, câmeras e editores perfeitamente voltados para contar as histórias que as transmissões de futebol não contam. Personagens nas arquibancadas ou até do lado de fora do estádio, reações de jogadores no banco, acompanhamento de um determinado protagonista no campo.

Abaixo, uma coletânea de reportagens sobre Gravesen. Lembram dele? Um dinamarquês aleatório que jogou no Real Madrid, na época de Luxemburgo, galácticos, brasileiros, enfim. A maioria dessas reportagens foram ao ar no "El Día Después".

O programa acabou (voltaria depois) e, ainda quando eu vivia por la, começou o "Informe Robinson", documentários sobre histórias do esporte - que na verdade era mais sobre histórias de vida, com o esporte como pano de fundo. Anos atrás, inspirado na emissora de mesmo nome francesa, o Canal Plus tinha um quadro de humor e sarcasmo em que personagens mundiais eram retratados como bonecos. Eram os "guiñoles".

O "guiñol" de Robinson era simplesmente o "apresentador" do programa. Neste link abaixo, ele "entrevista" Ronaldinho Gaúcho, quando o Barcelona estava às vésperas de ganhar a Liga de 2005.

Michael Robinson era, acima de tudo, um boa gente. Um cara que eu nunca vi, no ar, falando sobre seu passado como jogador. Ele não precisava do "eu estive lá" para explicar sobre futebol. O que ele tinha era uma sensibilidade que poucas pessoas têm.

Contava histórias como poucos. E é de histórias, afinal, que vivemos. Foi-se um grande.

Julio Gomes