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Butantan implementa projeto de testes em massa contra Covid-19 em favelas

Movimentação na favela São Remo, região do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo, SP - André Lucas\UOL
Movimentação na favela São Remo, região do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo, SP Imagem: André Lucas\UOL

Janaina Garcia

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

26/06/2020 04h00

"As pessoas deveriam se conscientizar e saber que essa doença não é brincadeira. Deveriam cuidar do próximo e adotar também o autocuidado. Celebrar qualquer reabertura da cidade, a essa altura, por exemplo, é colocar em risco a própria vida e a dos outros".

O desabafo é do educador físico Elielson Tenório Sobrinho, 37, funcionário de um hospital para dependentes químicos em São Paulo e morador, "desde sempre", da favela São Remo, na zona oeste da cidade. Sem chance de adotar o isolamento social durante a pandemia de coronavírus - o trabalho não permitiu —, Sobrinho diz ver com um misto de indignação e frustração o movimento cada vez mais crescente na comunidade onde nasceu e vive, mesmo que, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), países como o Brasil não tenham sequer atingido o pico de contaminação.

Esta semana, o educador físico descobriu que a doença estava mais perto do que podia presumir: o pai de 67 anos e a filha mais velha, de 10, foram confirmados com o coronavírus em testes rápidos aplicados por um grupo de trabalho do Instituto Butantan.

A aplicação dos testes na São Remo, realizada ao longo desta semana, integra um projeto-piloto do instituto por ações do tipo, em caráter massivo, em populações vulneráveis de outras comunidades da capital e do Estado.

Ao todo, serão aplicados 1.600 testes na São Remo, onde vivem, atualmente, cerca de 3 mil famílias - sete vezes menos que as 21 mil de Paraisópolis (zona sul), por exemplo.

Foi justamente a população em menor escala que norteou a implantação do projeto-piloto na comunidade, explica o diretor do Instituto Butantan, o hematologista Dimas Covas.

Praticamente colada à Cidade Universitária da USP, a São Remo acabou escolhida também pela facilidade de delimitação geográfica, segundo Covas. "Como é um projeto-piloto, o ideal é agir em um lugar mais controlado, até por questões logísticas. Com isso, testamos vários instrumentos em relação à Covid: além da aplicação dos testes rápidos de detecção, também vamos dar orientação, cadastramento e identificação de pessoas com vulnerabilidades para estabelecer um modelo de atuação em outras comunidades", disse.

Para o trabalho na São Remo, o instituto se valeu de um cadastro de pessoas em situação de vulnerabilidade social - de indivíduos com deficiência a idosos, por exemplo - constante em um mapa da Secretaria de Desenvolvimento Social, que tem o cadastro dessas populações. Em uma amostragem entre os cerca de 7 mil moradores, os testes são aplicados na UBS (Unidade Básica de Saúde) local e em outros pontos da comunidade.

Viela na favela São Remo, zona oeste de São Paulo - André Lucas\UOL - André Lucas\UOL
Viela na favela São Remo, zona oeste de São Paulo
Imagem: André Lucas\UOL

"Sabemos que, em uma epidemia, a população com renda de até três salários mínimos, sobretudo idosos, é a mais afetada - e idosos com renda inferior a isso são os que mais morrem. Essa é a importância de fazer ações nas regiões periféricas e de ser efetivo nisso", destacou o diretor.

Conforme Covas, a testagem de moradores serve como apoio e também motivador de uma rede de atividades mais amplas e voltadas à mitigação de riscos, graças, especialmente, à adesão de coletivos, clubes e associações locais. Integrantes desses organismos são orientados e treinados pelas equipes do Butantan a localizar e identificar casos positivos para a Covid-19, bem como sintomas e situações de risco à doença.

Não há, por ora, prazo para adoção de ações de massa, do tipo, em outras comunidades vulneráveis da cidade ou do Estado.

Governo de SP quer testar 233,7 mil vulneráveis; na favela, coletivos se mobilizam

O projeto-piloto na São Remo faz parte da ampliação da testagem para Covid-19 anunciada semana passada pelo governo do Estado. Essa nova etapa prevê a realização de 233,7 mil exames a serem realizados, prioritariamente, em populações vulneráveis — dentre as quais, indígenas e idosos em abrigos, além de categorias do funcionalismo público como profissionais do sistema penitenciário.

No caso da família do educador físico Elielson, só o pai dele, inicialmente, havia sido diagnosticado com Covid-19. "Ele não tinha sintomas, mas fuma e já teve enfisema pulmonar. É importante testar para ter a certeza de que não se vai transmitir o vírus", defendeu.

Também nascido e criado na São Remo, o autônomo Ericsson Magnavita, 35, integra o coletivo "São Remo Contra o Covid-19". O grupo, que atua na arrecadação, coleta e distribuição de suprimentos a famílias locais mais afetadas pela pandemia, se reuniu semana passada com a equipe de Covas para o plano de ação executado nos últimos dias.

Magnavita contou que, entre os moradores, os jovens têm sido os mais resistentes a aderir a ações de prevenção à doença. "Fora isso, temos conversado também com os comerciantes da favela, já que, se eles não adotarem medidas contra aglomeração ou não exigirem máscara, por exemplo, podem tanto ser multados quanto ter as mercadorias contaminadas. O diálogo é necessário", destacou. "Mesmo porque, o ritmo na favela não é o mesmo do centro. Não tem isolamento social na favela", completou.

Comércio na favela São Remo, zona oeste de São Paulo - André Lucas\UOL - André Lucas\UOL
Comércio na favela São Remo, zona oeste de São Paulo
Imagem: André Lucas\UOL

Quando a pandemia parece ter afetado mais a comunidade da São Remo?

"Acredito que o povo aqui sentiu mais nas duas primeiras ações do governo do Estado para prorrogar a quarentena. Agora, com a flexibilização do fechamento do comércio em São Paulo, muitos moradores têm entendido que podem voltar a fazer de tudo -fora que são vários os que dizem que já pegaram o vírus, então, estariam imunizados. É muito arriscada essa forma de pensamento, daí a importância de o coletivo, a associação e outros organismos da favela orientarem", concluiu.

"Medo de pegar esse vírus e de não conseguir reagir"

Uma das moradoras a participar da testagem foi Erineuza Bezerra da Nóbrega, 51. Tanto ela quanto o marido, idoso que se recupera de um AVC (acidente vascular cerebral), deram negativo para o vírus.

"Eu tinha medo de pegar esse vírus e de não conseguir reagir. Tenho muito medo também pelos idosos da favela: uma vizinha minha trata um câncer, e há muitos outros com a saúde debilitada e que ficam mais expostos à doença", comentou.

Erineuza recebe Bolsa Família, com a qual ajuda a manter a casa de quatro cômodos em que vivem, além dela e do marido, três filhos de 9, 10 e 13 anos, além de seis netos. Ao todo, são oito filhos e 12 netos.

"A gente não consegue segurar essa criançada toda em casa. Eles dão um perdido na gente e vão para a rua, não tem o que fazer. Pelo menos, me sinto feliz com esse sinal de amor e paz para ajudar as pessoas que vem na forma de um teste", classificou.

Palmira Costa e a neta, na favela São Remo - André Lucas\UOL - André Lucas\UOL
Palmira Costa, 66, mora com a neta de 8 anos e mais quatro pessoas, na favela São Remo, região do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo
Imagem: André Lucas\UOL

Mãe de moradora testou positivo para Covid-19: "não rola isolamento social na favela"

Quem também passou pelo teste rápido para a Covid-19 na São Remo foi a família da motorista de transporte escolar Fernanda Maria Costa, 28. Ela contou que está desempregada desde o início da pandemia.

Na casa de Fernanda, os quatro moradores deram negativo para o vírus. Já na casa da mãe dela, onde vivem seis pessoas, duas deram positivo: a própria mãe, Palmira Costa, 66, e uma neta dela, de 8 anos. Dona Palmira vive há anos com a ajuda de um respirador caseiro, após complicações pulmonares advindas de décadas de cigarro.

"Minha mãe é dependente de oxigênio, sempre tive muita preocupação que essa doença não a atingisse. Ela ficou muito temerosa quando testou positivo, mas ao menos não desenvolveu os sintomas. É muito medo envolvido, sabe?", relata Fernanda, que tem bronquite asmática e mora a um quarteirão da mãe. "Quem resolve tudo para ela, em função do problema dela de saúde, sou eu. E acho justo, já que minha mãe criou seis filhos sozinha", constata.

Sobre o isolamento social na favela, a motorista afirma: "Não rola, moça. É muita gente, pouco espaço, e muita gente desempregada. O jeito é buscar cuidar, como dá, dos nossos."

Ações emergenciais são importantes, mas não resolvem "múltiplas desigualdades"

O coordenador da Rede Nossa São Paulo, Jorge Abrahão, lamentou que a testagem em massa de populações vulneráveis esteja ocorrendo neste momento da pandemia, ou seja, após mais de 100 dias desde a primeira confirmação, sem o achatamento da curva e mediante altas taxas de ocupação de leitos hospitalares. Só no território paulista já são mais de 13 mil óbitos e acima de 230 mil casos confirmados por Covid-19.

"Essa testagem deveria ter sido feita antes, e como política pública de massa, no Brasil inteiro. Isso contribuiria muito para o mapeamento da doença e a definição de medidas de contenção da expansão do vírus - foi o que permitiu que vários países europeus mapeassem os casos e tomassem decisões de isolamento, mas com fundamento de dados", avaliou.

Por outro lado, pondera o coordenador, "é importante fazer essa testagem, mesmo agora", já que "em um país como o Brasil, e com a disciplina com que temos tratado disso, não vamos resolver esse problema no curto prazo". "Eu diria que, mesmo atrasado, é louvável que o Butantan esteja fazendo isso - o que vai permitir que possamos construir um conhecimento nosso, mesmo que em São Paulo, capaz de contribuir para se formar referências em outros lugares do país".

Nessa quarta (24), a Rede Nossa São Paulo divulgou uma pesquisa mostrando que localidades com piores índices de qualidade de vida apresentam maior número de mortes por Covid-19. Bairros que apresentam mais mortes pela doença, por exemplo, têm um número três vezes maior de favelas em comparação com a média da cidade.

"Com a gravidade desse momento que vivemos, não se pode deixar de fazer ações emergenciais para evitar um número maior de mortes. O que não podemos é nos iludir que, com questões como essa, resolveremos problemas que deveríamos ter solucionado há mais tempo - o que se faz é mitigar. Investir pesadamente em lugares mais desiguais é necessário, assim como a cidade ter prioridades, pactos: as escolhas que fazemos pelo combate à covid têm que condicionar o investimento ao combate à múltipla desigualdade, esta, sim, a síntese de uma série de problemas."

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