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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ela largou o marido machista e recomeçou a vida aos 70 anos

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Imagem: iStock

Colunista do UOL

10/11/2022 06h00

Quando Lúcia acionou a equipe para marcar uma consulta, eu e a enfermeira já sabíamos do que se tratava. No final de semana anterior, ela e a filha Ana buscaram a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) por conta de um mal-estar gerado por um aumento inexplicado da pressão.

Inexplicado para quem não conhecia Lúcia. Para mim era até previsível.

Lúcia era uma mulher ativa e cheia de saúde. Não usava um remédio sequer. Os exames estavam sempre bons e a pressão, como ela gostava de brincar, era como a de uma criança. Exceto quando algo lhe tirava do eixo e esse algo já era velho conhecido. Lúcia marcou consulta bem no finalzinho da tarde.

"Não queria ninguém comigo. Só assim pra eu conseguir ter um tempo só pra mim."

Veio sem o marido, sem a filha, sem ninguém. Era uma cena rara já que sua vida nos últimos 10 anos se resumia a cuidar do marido que vinha ficando cada vez mais dependente e da casa enorme que lhe dava um trabalho do cão!

"Eu não me importo de cuidar dele, doutora. Você me conhece há tanto tempo. Sabe que faço tudo com dedicação. Ele é um ser humano. Eu faço por uma questão de humanidade, sabe?"

Eu sabia. Era por humanidade, mas era também por uma pressão familiar e social imensa. Aldair, seu marido, era um "homem difícil", como vivia a repetir. Eu, como sua médica, já havia ouvido Lúcia falar assim uma dezena de vezes.

Tecnicamente, Aldair era só mais um homem machista e violento. Daqueles que se suporta pela obrigação imposta por laços familiares tóxicos e muita repressão religiosa.

"Mas me conte, Lúcia! O que aconteceu no sábado que te fez parar na UPA?"

"Eu estava com uma amiga conversando na varanda e ele começou a me chamar insistentemente. A cada 5 minutos chegava da porta e perguntava se eu ia demorar pois estava precisando de mim. Fui ficando tão desconcertada na frente da minha amiga que pedi licença a ela e disse que precisaria encerrar a nossa conversa."

Lúcia estava revivendo uma dor imensa e chorou.

"Me desculpe, doutora, essa história acabou comigo. Me senti tão humilhada, tão tolhida, tão esmagada por essa prisão. Eu queria conversar tanta coisa com ela. Passamos meses sem encontrar. Queria ouvir as histórias da viagem que ela fez, queria contar como estava a vida e não pude porque eu sou uma prisioneira."

Eram tantas constatações duras de se fazer que o choro virou tonteira, mal-estar, náusea e pressão alta novamente. Reviver aquela dor fez o corpo reagir como naquele fatídico dia. Mas Lúcia queria falar:

"E você sabe o porquê daquela insistência para que eu entrasse? Ele queria que eu esquentasse a janta para ele. Sábado à noite. Nem no sábado à noite eu tenho folga. Entra semana, sai semana e minha vida é limpar a casa que ele faz questão de sujar. Parece até que não quer que eu tenha nenhum segundo de paz."

Naquele sábado, como fazia sempre, Lúcia acatou as ordens. Calou-se, preparou a comida, entregou ao marido e em seguida se deitou. Desta vez, porém, o corpo falou por ela. Angústia, choro, peito abafado e sensação de falta de ar. Ela ligou para a filha que veio para socorrê-la e ainda teve de ouvir do pai que aquilo era manha de quem não queria fazer sua obrigação.

Na UPA, a pressão que nunca subia estava 17 por 8. A cabeça doía e o choro apressava a respiração. Um médico conhecido a recebeu com gentileza, pediu alguns exames e diante de resultados normais sugeriu que as emoções pudessem ter provocado as sensações tão sofridas.

"É duro, sabe, doutora", disse Lúcia enquanto dobrava um lenço de tecido branco. "Às vezes me desespero pensando que sou obrigada a aguentar isso para o resto da minha vida? ou da vida dele."

"Quem está te obrigando?", perguntei como quem quer entender.

"Ah, doutora, tenho 70 anos. Já tenho até bisneto."

Fiquei em silêncio aguardando o que viria.

"Não tenho mais tempo para tomar uma decisão dessas."

"Que decisão?" Questionei como se não soubesse o que pensava.

E Lúcia sorriu com o canto dos lábios.

"Eu acho que quem tem 70 anos não tem tempo a perder. Devia estar com pressa."

E, enfim, Lúcia sorriu.

"Você não tem juízo, doutora?", Lúcia perguntou sorrindo.

"Juízo eu tenho."

Esse encontro aconteceu há 6 anos. Meses depois, Lúcia veio me contar que fez as contas:

"Os exames mostraram que meu coração está ótimo. Não tomo nenhum remédio. Sou cheia de energia. Se eu viver até os 100 anos, não quero passar 30 anos assim."

Lúcia foi-se embora. Mudou de casa, deixou o marido de quase 80 anos e muitas toneladas de arrogância e machismo para trás.

Hoje, Lúcia passa horas na varanda a conversar com suas amigas longamente e sem ser interrompida. A pressão parece estar ótima. Não era para menos!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL