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Estudantes se mobilizam para adiar Enem e suprir necessidades básicas

Thaís Nazaria da Silva Monteiro, 19, se inspira na mãe, Carla Maria, para buscar seu futuro - Arquivo Pessoal
Thaís Nazaria da Silva Monteiro, 19, se inspira na mãe, Carla Maria, para buscar seu futuro Imagem: Arquivo Pessoal

Camila da Silva

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

21/05/2020 04h00

A pressão feita por estudantes e diversas campanhas pelo adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), como a campanha Sem Aulas, Sem Enem, que conta com escolas estaduais, institutos federais e cursinhos comunitários, surtiu efeito. Um dia após o projeto ter sido aprovado pelo Senado, o Ministério da Educação (MEC) e Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) anunciaram o adiamento da prova por 30 a 60 dias. A decisão, no entanto, não agradou grupos que representam os mais de 100 mil estudantes envolvidos, ainda que represente a força do movimento.

"A gente sabe que isso já é fruto de uma mobilização histórica dos estudantes, que gerou 75 votos a favor e apenas 1 contra na sessão do senado. Mas essa proposta ainda não resolve o problema. O adiamento em no máximo 60 dias não resolve, se as escolas já estão paralisadas há mais de 60 dias e sem previsão de retorno. Estamos com uma curva de mortes pela pandemia que não para de subir...", explica Daniela Orofino, coordenadora do Nossas, rede de mobilizações sociais que integra o 'Sem Aula, Sem Enem', junto com UneAfro, Ubes, Afronte, Rede Emancipa dentre outras organizações estudantis.

A mobilização à qual ela se refere, incluiu forte pressão sobre políticos para que se manifestassem favoravelmente ao adiamento. Os estudantes se cadastravam no site, que disparava um email para todos os deputados federais do seu Estado.

Uma dessas alunas é Larissa Rosa Pereira, 18, moradora da região periférica do Pimentas, em Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Ela vê como grande vitória a notícia de adiamento, mas reforça o coro de que não é a saída ideal. "O projeto que foi aprovado pelo senado seria o modelo certo, pois ele não estabelece uma data, apenas define que o Enem vai acontecer após o ano letivo acabar". Ela espera que o projeto siga para a Câmara e seja aprovado.

Decisão é resultado da pressão dos estudantes

As campanhas criadas já somavam mais de 101 mil e-mails disparados, de acordo com o Nossas. As hashtags #AdiaEnem e #CongelaEnem tiveram, juntas no último mês, um alcance de 4 milhões de pessoas no Twitter, segundo levantamento feito pela reportagem de Ecoa. Só a #AdiaEnem teve mais de 269 mil publicações.

"Apesar da desesperança geral esses alunos estão conseguindo se mobilizar para lutar pelos seus direitos, mostra muito a força deles apesar desse momento caótico, para exigir uma coisa básica do governo. Os jovens querem, sim, estudar, mas negam as oportunidades de forma permanente", pontua Daniela.

Essa demanda é majoritariamente feminina e da região Norte e Nordeste. Cerca de 60% das campanhas foram criadas pelas meninas estudantes. O Instituto Dom Barreto no Piauí e o Instituto Federal do Pará são as escolas com maior pressão, são quase 4 mil estudantes engajados no pedido de adiamento.

Para muitos desses jovens, a mobilização ressalta um pedido de socorro. "Não tem como estudar, em casa não tem espaço. Moro com minha mãe e meu irmão, mas a casa não é grande. Não se tem o apoio do próprio governo para que você possa ter uma ajuda, algum tipo de acesso, por que tudo que tinha de acesso precisou ser desativado. A biblioteca perto da escola não existe mais, foi trancada. Internet aqui é muito ruim, por mais que a gente bote o sinal mais forte — cai muito por que é uma internet da comunidade, porque vive tendo operação policial, tiroteio e fora os materiais de estudo", pontua a estudante Thaís Nazaria da Silva Monteiro, 19, estudante do pré-vestibular comunitário Nicas-Jacarezinho no Rio de Janeiro.

Uma das turmas do pré-vestibular Nicas-Jacarezinho (RJ) - Arquivo Pessoal
Uma das turmas do pré-vestibular Nicas-Jacarezinho (RJ)
Imagem: Arquivo Pessoal

A pandemia tira tempo e afeta também a saúde mental dos vestibulandos. Para Thaís, por exemplo, a preocupação foi maior, pois sua mãe Carla Maria trabalha na área da saúde e foi diagnosticada com Covid-19 no início do ano, passou por tratamento e já voltou a trabalhar.

"Minha maior vontade é fazer com que a minha família tenha o mínimo de conforto algum dia, que eu possa batalhar pela minha mãe como ela batalhou por mim. Acho que é por isso que tenho continuado. Às vezes, fico muito ansiosa, tomo remédio, me acalmo, respiro e penso: minha mãe precisa que eu tenha forças para poder dar esse orgulho, ter esse acesso. Se ela conseguiu em meio a tudo, eu preciso conseguir. Meu sonho é ser a segunda da família a entrar na universidade, depois da minha mãe", conta.

Lutar por internet, espaço de estudo e material

O Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef) ressalta que a desigualdade de acesso a direitos básicos coloca os estudantes em condições ainda mais injustas e propôs, na semana passada, que o governo federal e as empresas de telefonia concedessem acesso gratuito de internet a famílias em condições de vulnerabilidade social.

Ainda que haja pacotes semanais de internet móvel, ao custo de no mínimo R$ 15, eles não suprem a demanda de um estudante em ensino a distância. Em São Paulo, os serviços de acesso à internet com 3G ficam entre R$29,99 e R$39,99 por mês. Esses planos, no entanto, só permitiriam o estudante assistir quatro aulas de uma hora cada no YouTube, já que a plataforma consome 1GB a cada 4h de conteúdo. O que demandaria mais recurso financeiro para acessar todas as aulas necessárias e baixar aplicativos.

Hoje, 40% dos alunos não possuem espaço adequado para estudo domiciliar e 70% dos lares de classes D e E estão afastadas do mundo virtual. Realidade ressaltada por alguns cursinhos comunitários que ainda estão conseguindo manter suas atividades pelo ensino a distância. Entre eles está o pré-vestibular Marielle Franco, no Rio de Janeiro, que agora tem apenas 20% de seus 100 estudantes conseguindo acompanhar as aulas virtuais.

Para Larissa, além do acesso à internet, manter uma rotina de estudos, com aulas pelo YouTube, está sendo um dos maiores desafios, além da defasagem no ensino dado em sala até o momento.

"Quando você não tem esse hábito [do estudo online] e tem que estudar tudo o que o ensino médio não passou, é complicado. Meu ensino médio foi uma grande montanha russa. No primeiro ano, eu não tinha aula de algumas matérias, no segundo era de outras e terceiro ano, outras. Sem contar aqueles professores que só entravam na sala e não ensinavam nada", conta.

Thaís aponta uma situação semelhante. Aproximando-se de seu terceiro Enem consecutivo, ela ficou três anos sem ter um calendário contínuo de estudo ao longo de sua trajetória no ensino médio e fundamental. "Passei pela greve de 2013 no meu sétimo ano, a de 2015 que pegou o primeiro ano inteiro e parte do segundo também. Se a gente não tem base de estudo em meio a um cenário comum da sociedade, que não tem pandemia e isolamento, imagina a gente ser colocado para estudar sozinho em casa, ter que se explicar matéria?".

As condições básicas tanto na casa do estudante, quanto na escola interferem no rendimento dos estudantes no Enem, segundo mostrou o estudo "Universo Escolar", da Fundação Getúlio Vargas (FGV/DAPP). Do total de instituições de ensino com resultados ruins em matemática, 62,4% não tinham acesso à rede pública de esgoto e 15% a água encanada. Delas, 58% não tinham laboratório de ciências.

Cuidado com o presente e o futuro

"Quando a gente pensa que políticas públicas estão criando condições desfavoráveis para a própria execução do Enem, a necropolítica existe no sentido de eliminar as possibilidades de novos fatores sociais, novas classes médias emergentes. A condição de existência dessa juventude está sendo suprimida, sendo retirado deles o futuro. É como se só existisse um tempo verbal: o presente. Eu trabalho, eu como, eu vivo. O futuro está sendo retirado do vocabulário da nossa juventude e da perspectiva de sonhos dela. O futuro está sendo suprimido, esmagado", diz o Prof. Dr. José Raimundo Santos, co-orientador da pós-graduação em Educação do Campo da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), pesquisador e produtor de estudos em sociologia política e sociologia da juventude e trajetórias das desigualdades no ensino superior.

O Enem é uma das principais ferramentas de acesso ao ensino superior no Brasil. Só no ano passado mais 5 milhões de estudantes se inscreveram para a prova — destes, 59,1% eram estudantes negros (pretos e pardos). A preocupação é que o perfil universitário continue sendo mais plural e democrático.

Um levantamento da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), divulgado em maio deste ano, mostrou que as mulheres são maioria e representam 54,6% das matrículas nas universidades federais. Além disso, quase dois terços dos universitários (64,7%) cursaram o ensino médio em escolas públicas, 54% são brancos e 51,2% dos alunos são negros ou pardos.

Com o acesso ao ensino superior, há a tendência de ascensão social. Há grande relação entre salários e escolaridade. Em média, o nível fundamental adiciona 38% ao rendimento por hora do trabalhador, o médio acrescenta 66%, e o superior agrega 243% em relação a um trabalhador sem instrução, segundo boletim feito pelo Banco Central (BC), em 2019.

Esse é um dos motivos para que muitos estudantes busquem o acesso ao ensino superior. José Raimundo pontua que é preciso compreender que existem diversas juventudes e que o período de quarentena vai impactá-los de diferentes formas.

"Temos nesses grupos, jovens que estão fazendo Enem pela segunda, terceira vez. Também estamos falando de emoções, de subjetividades, existe uma carga emocional muito grande, uma expectativa do sucesso, uma expectativa da ruptura. Existe uma cobrança muito grande nessa juventude do sucesso e do fracasso em relação a entrar na universidade", diz o professor.

Nesse contexto, eles têm de aguentar também a carga psicológica que envolve não só os estudos, mas a rotina alterada desses vestibulandos.

"Não dá para pensar que esse estudante está só com a prova na cabeça. Às vezes, o principal para ele naquele local [cursinho] seja poder socializar, encontrar semelhantes, criar laços de afetividade, se sentir seguro suficiente para ter uma motivação para levantar da cama e sair de casa. Às vezes a prova até se perde em nome desse trajeto que eles estão construindo. A educação não pode se esquecer de olhar para isso. A educação não tem ferramentas para trabalhar questões psicossociais?", questiona João Innecco, 26, educador no cursinho pré-vestibular Transformação que cuida do direito à educação para a população transexual, pela organização Ação Educativa.

Para parte da população trans, o cursinho simboliza o retorno aos estudos, a novas perspectivas de dignidade. Na universidade, representam apenas cerca de 0,1% do total de alunos de instituições federais de ensino superior. Programas de cotas para pessoas trans no ensino superior começaram só em 2018, com iniciativas da Universidade Federal do Sul da Bahia e da Universidade Federal da Bahia, segundo o Instituto Brasileiro Trans na Educação (IBTE).

No cursinho Transformação, as turmas são formadas por 20 alunos, que têm em torno de 20 a 30 anos. Em um cenário comum aos cursinhos populares, a evasão se torna uma característica, já que outras demandas urgentes, como trabalho, acabam suprimindo o horário de estudo dos vestibulandos.

Qual tempo que resta para estudar?

Antes da pandemia, o tempo de estudo também era uma demanda para a Thaís, no Rio de Janeiro. Ela se dividia entre o trabalho desde os 17 anos, a escola, os cuidados com o irmão, com a casa e o trajeto até em casa.

"No primeiro ano trabalhando e no terceiro ano, eu tentei fazer cursinho online, só que era impossível, chegava em casa 23h, às vezes 00h porque era muito trânsito. Mas a rotina que tinha antes era tranquila em comparação com a de hoje, parada em casa. É uma situação de constante desespero", disse a jovem.

A propaganda veiculada pelo MEC no começo de maio mexeu com quem acompanha de perto a realidade dos estudantes. "A vida não pode parar", diz o começo do vídeo intitulado "Enem 2020 está mantido!".

"Nessa hora, mesmo contra as estatísticas, mesmo já batalhando nesse grau de dificuldade, parece um recado do governo de 'olha, não é para você, nem tente'. Não é que não é o seu ano, é que não é para você. Vamos deixar esse acesso para quem estuda em escolas particulares, com acesso à internet, espaço de estudo, exatamente como aquela propaganda que o governo fez, deixando a maioria dos estudantes desestimulados. Parece uma provocação com a realidade do Brasil", comenta Daniela Orofino.

Uma maneira de cuidar dessas juventudes, segundo o professor José Raimundo, é olhar para os antepassados e pelo que já foi produzido pelos estudantes. "As informações sobre sucesso descaracterizam essa ideia de balbúrdia, de bagunça. É próprio da juventude construir através de modelos paradoxais. Se a gente não criasse novas formas de pensar, de estar no mundo, o mundo não seria o que ele é hoje. Essa agitação do jovem é produtora de conhecimento. Quando você vê o futuro, quando você consegue pensar a história, a ancestralidade, você consegue se firmar, porque você tem raízes para alcançar o mais alto ponto, disseminar sua existência para outros lugares".

Pensando em facilitar acesso a material de estudo, o pré-vestibular online Descomplica ampliou uma parceria com cursinhos pré-vestibulares comunitários, que já acontece há quatro anos, para que os estudantes possam acessar de forma gratuita o conteúdo da plataforma, com aulas, exercícios, correção de redação e monitoria. Possíveis novos parceiros interessados podem se inscrever nesse link.

"Por conta da pandemia, expandimos os acessos para grupos organizados, não exclusivamente cursos pré-vestibular. Associação de moradores, igrejas, terreiros, escolas estaduais — grêmios e diretoras entram em contato, e a gente dá bolsa para alunos de 3° ano. Estamos vendo com os conselheiros externos outras formas de ajudar. Não conseguimos levar internet para as regiões que precisam e não temos verba para dar celulares/tablets, por isso ficamos meio de mãos atadas", explica Flavia Maria Alvim que coordena o projeto.

Neste ano, são 123 cursos com 21.556 alunos. Entre as parcerias estão: a Casinha, que acolhe pessoas LGBTQIA+ no Rio de Janeiro, o Além das Grades, que atende presos em Pernambuco, a TransENEM, voltada a pessoas trans de Belo Horizonte.

Para quem está se preparando e não conta com o auxílio de um cursinho, há muitos professores que disponibilizam conteúdo para o Enem no Youtube e também outras plataformas que abriram suas aulas e materiais de forma gratuita. Além disso, vários estudantes estão se preparando e compartilhando nos "studygrams". Veja abaixo algumas iniciativas:

A plataforma conta com aulas de todas as matérias, exercícios, simulados e correção de redação. Nesse período de pandemia, o estudante pode criar uma conta gratuita e acessar os materiais (a correção de redação é paga, o pacote mais barato custa R$ 9,90).

Com aulas de matemática básica a avançada e muitos exercícios resolvidos, o canal do Prof. Ferretto também pode ser usado para estudar para outros vestibulares. Para quem tem interesse em se aprofundar, ou pode pagar, além do YouTube o professor conta com uma plataforma com preços que variam com o tempo de acesso. Um mês, por exemplo, custa R$ 40.

O prof. Paulo Jubilut e outros nove professores dão aulas nas áreas de Biologia, Física e Química. Além das aulas gratuitas, também possuem plataforma com aprofundamentos e materiais. O plano para um mês de acesso é de R$ 40.

Com aulas focadas em Linguagens, Humanas e Redação, o canal Se Liga Nessa História é produção dos professores Walter Solla e Ary Neto.

Conteúdo focado em Língua Portuguesa e Redação. Além do canal do YouTube com mais de 900 mil inscritos, possui plataforma com mais aulas e correção de redação.

Plataforma com banco de questões e avaliação do seu desempenho para o vestibular. Parte do material é disponibilizado de forma gratuita, e para mais acessos por mês é cobrado R$ 12,90.

Banco de temas e correção de redações para o Enem com relatório de diagnóstico de desempenho. Os planos custam a partir de R$12,90 por mês.

Instagram da bacharel em Letras na UFRJ, Maria Carolina Coelho. Disponibiliza conteúdos de contextualização para redação do Enem e atualizações mensais baseadas no noticiário que podem ser usadas na redação.

Com dicas de estudos e compartilhando sua rotina, a vestibulanda de medicina de 23 anos Renata Waléria estuda há alguns anos somente em plataformas virtuais para se preparar para o Enem.

Mãe e vestibulanda, Nathalia Almeida compartilha sua rotina e estratégias de estudos na caminhada para o vestibular.

A estudante, além da preparação para o Enem, também está no terceiro ano do Ensino Médio. Emily compartilha resumos de matérias e algumas dicas, como essa sobre como se adaptar ao EAD.

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