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Os entregadores do fim do mundo

Entregadores protestam na avenida Paulista, em São Paulo, contra pagamentos baixos e falta de equipamento de proteção - Reprodução
Entregadores protestam na avenida Paulista, em São Paulo, contra pagamentos baixos e falta de equipamento de proteção Imagem: Reprodução
Milo Araújo

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

20/04/2020 04h00

Dentro do contexto do isolamento social, estamos todas e todos tentando adaptar nossas vidas como podemos. Quem pode trabalhar de casa e quem precisa estar circulando. Quem está dentro e quem está fora não são pessoas desconectadas, e se tem uma coisa que o coronavírus veio para mostrar é que somos todos conectados de alguma forma (algumas formas saudáveis, outras formas bastante exploratórias). Muita gente em São Paulo não faz a menor ideia de como cozinhar, e nem quer aprender. Tudo bem, ninguém é obrigado a saber/querer cozinhar a própria comida, não é este o mérito dessa questão.

Vimos nestas últimas semanas o crescimento do engajamento das pessoas em plataformas como iFood, Uber Eats, Rappi, etc. Porém, não aconteceu aumento na taxa repassada aos entregadores. Entregadores de bicicleta, moto e carros estão se arriscando diariamente para entregar comida e outros itens. É digno de nota que o epicentro dos pedidos são bairros como Higienópolis, Santa Cecília, Bela Vista etc. Em resumo, áreas centrais e muito nobres de São Paulo.

Precisamos começar a nos responsabilizar pelas nossas atitudes urgentemente. Não dá mais para dizer que a gente não sabe que marca X usa mão-de-obra escrava na sua produção, ou que a empresa de carne Y não trabalha com altos graus de crueldade no abate de animais. Podemos optar por seguir fazendo este tipo de consumo, mas é necessário minimamente admitir a nossa parcela de culpa ao criar demandas que fazem esse tipo de negócio seguir na ativa. E pasmem: a questão dos entregadores em São Paulo não é diferente. Lidando apenas com uma tela, parecemos esquecer que não é o iFood que nos entrega a comida, e sim os entregadores. Inclusive, essa mesma empresa faz muita questão de explicitar em seus termos de adesão que ela não tem absolutamente nada a ver com os entregadores que carregam o seu nome nas suas costas. Não existe nenhum vínculo empregatício. Os trabalhadores são completamente negligenciados em praticamente em todas as suas necessidades. É um nível de exploração completamente inaceitável no século 21.

Abaixo você poderá assistir um dos protestos destes trabalhadores contra estas empresas exploradoras. Os depoimentos são muito genuínos.

Os consumidores precisam começar a pressionar estas empresas a se voltarem para seus colaboradores. Se estas corporações se colocam apenas como "meras mediadores" do processo de entrega, podemos então retirá-las dessa equação. Vamos sair da comodidade do pedido na ponta do dedo. Se for necessário fazer um pedido de entrega a domicílio, procure ciclistas e motociclistas autônomos ou peguem o zap das pessoas que em algum momento fez alguma entrega para vocês e anote para usar no futuro. Ligue no restaurante de seu desejo e combine com eles e com o entregador de forma direta. Não precisamos alimentar sanguessugas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.