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Como T-Cross virou SUV mais vendido, mas deve sofrer com prazo para PCD

T-Cross Sense, versão PCD do carro da VW, foi responsável por garantir a liderança - Divulgação
T-Cross Sense, versão PCD do carro da VW, foi responsável por garantir a liderança Imagem: Divulgação
Rafaela Borges

Rafaela Borges é jornalista automotiva desde 2003, com passagens por Carsale e Estadão. Escreve sobre o mercado de veículos, supercarros, viagens sobre rodas e tecnologia.

Colunista do UOL

03/03/2020 04h00

As vendas para pessoas com deficiência, ou PCD, têm sido uma boa arma para as montadoras. E, como previsto, o lançamento da versão Sense, voltada a esse cliente, colocou o Volkswagen T-Cross na primeira posição do segmento de SUVs em fevereiro, primeiro mês cheio de vendas.

Só que, junto com esta notícia, veio aquela que pode derrubar a participação de mercado do SUV nos próximos meses, na comparação com fevereiro. Depois de uma pequena paralisação no processo de produção, os pedidos para o T-Cross Sense voltaram a ser aceitos. Mas a Volkswagen orienta os concessionários a darem ao cliente prazo de até 180 dias para a entrega.

São nada menos que seis meses. Dificilmente o consumidor que tem direito a isenções concedidas ao cliente PCD vai aguardar um prazo tão longo pelo SUV compacto. Até porque há outras boas opções na concorrência destinadas a esse público, e com espera máxima de 30 dias.

Da lista dos cinco SUVs compactos mais vendidos do Brasil, esse é o período de espera para o Hyundai Creta e o Nissan Kicks, de acordo com suas respectivas montadoras.

A versão PCD do Renegade pode levar menos tempo, segundo informações da Jeep. É pouco mais que o de trânsito entre a fábrica - em Goiana (PE) e a concessionária. Esse transporte pode levar de dois dias, no caso de Recife, até dez, para cidades mais distantes.

Já o Honda HR-V não tem versão específica para o público PCD. Essas configurações precisam ter tabela até R$ 70 mil para que o cliente receba do governo toda a isenção possível, incluindo ICMS e IPI.

Participação do PCD nas vendas do T-Cross

Janeiro foi o primeiro mês de vendas do T-Cross Sense, mas não um mês cheio. Foram vendidas 380 exemplares da versão, segundo levantamento da Jato Dynamics.

Cruzando esses dados com os de emplacamentos, fornecidos pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), essa configuração representou 11,4% das vendas do SUV no mês passado, um número baixo comparado ao dos concorrentes.

No primeiro bimestre, a versão Direct S foi responsável por 35% das vendas do Kicks, de acordo com a Nissan. No caso do Renegade, a participação foi de 30%. Essas configurações são as mais vendidas de suas respectivas linhas, assim como ocorre com o Creta.

A Hyundai não divulga a participação da versão Attitude 1.6 automática (a para o público PCD) nas vendas da gama. Mas, em janeiro, em cruzamento entre dados da Jato Dynamics e da Fenabrave, ela superou os 40%.

No caso do T-Cross, os dados de fevereiro já estão disponíveis. A Jato informa que foram vendidas 2.033 unidades da versão Sense. Como o total de emplacamentos do carro foi de 5.517 exemplares, segundo a Fenabrave, a participação da configuração PCD totalizou 36,8%, superando às registradas nas linhas Kicks e Renegade.

A versão Sense foi a mais vendida da linha. Além disso, foi a responsável pelo salto de três posições do T-Cross no ranking de SUVs compactos entre janeiro e fevereiro. No primeiro mês do ano, o carro havia sido o quarto mais emplacado, atrás de Renegade, Kicks e Creta.

Sense com espera longa vai derrubar T-Cross?

A tendência é que em março, se tiver queda em relação a fevereiro, o T-Cross não sofra tanto. Afinal, ainda há unidades da versão Sense já encomendadas para entrega.

Mas, a partir deste mês, o prazo de seis meses para o cliente colocar as mãos na versão do carro com isenção de imposto tende a levar parte dos interessados à desistência. E, com isso, à consequente queda na participação de mercado do modelo da VW, em relação a fevereiro.

Esse reflexo de fuga será sentido com mais força no mês abril. Afinal, só o cliente que faz muita questão de um produto específico vai aguardar a previsão de 180 dias para ter o carro, em vez esperar só um mês para ter um dos principais concorrentes - e também modelos de menor volume, como os Renault Duster e Captur e o Citroën C4 Cactus.

Para alguns produtos específicos, há quem aguarde. O Toyota Corolla é o principal exemplo. Mas será que o T-Cross, com menos de um ano de mercado, já ganhou toda essa moral? É o que veremos em março e, principalmente, abril.

O fenômeno de queda, porém, não deve durar muito. "A demanda pelo T-Cross Sense foi muito grande, e a Volks não estava preparada, porque depende de uma cadeia de fornecedores", opina o diretor da consultoria ADK Automotive, Paulo Roberto Garbossa. "Para a marca, é preciso passar ao mercado um prazo longo, para não criar expectativas."

Porém, para Garbossa, em dois meses a tendência é que a marca já tenha conseguido fazer seus ajustes, e essa espera assustadora já esteja bem mais baixa, próxima aos 30 dias da concorrência.

Por que suspender entregas

A demanda pelas versões PCD cresceu muito de 2018 em diante. A razão é o acesso à informação. Mais pessoas descobriram ter direito ao benefício. Isso acabou levando muitas montadoras a terem de ajustar suas linhas de produção.

Entre o fim de 2018 e início de 2019, Nissan e Hyundai paralisaram a fabricação de Kicks Direct S e Creta Attitude automático. Não houve, no entanto, grandes prejuízos à participação de mercado dos modelos. Ao menos, não durante um longo período.

A diferença é que, quando as vendas dessas versões voltaram, o período de espera por elas não era tão longo quanto o divulgado para o Volkswagen T-Cross.

De acordo com a Hyundai, na fábrica de Piracicaba (SP) há um limite pré-estabelecido de mix de produção, levando em conta todas as versões. Sempre que esse limite é atingido, há suspensão da fabricação da versão PCD, para que o carro não tenha longa espera e não comprometa o calendário de programação da produção.

Ajustes na produção, por causa de fornecedores, são a principal razão para a paralisação da produção de versões PCD. No entanto, também há a lucratividade. Não é a marca que oferece as isenções de IPVA e IPI, que acabam reduzindo o preço dessas opções para menos de R$ 60 mil - o T-Cross Sense sai por cerca de R$ 58 mil com os benefícios.

Ainda assim, as versões específicas para PCD trazem às montadoras margem de lucro mais baixa que as demais. Para chegar à fórmula dos R$ 70 mil, é preciso tirar muito conteúdo, mas o câmbio automático é obrigatório.

Além disso, existem itens que são muito importantes para o consumidor de SUVs. Ar-condicionado, direção hidráulica, vidros e travas elétricas não podem deixar de ser oferecidos. A central multimídia, cada vez mais importante, é um grande diferencial do carro PCD que tem.

Em nota, a Volkswagen informou que "o T-Cross Sense tem tido excelente aceitação do público PCD e vai gerar um impacto positivo nas vendas do modelo, com volume incremental em relação às versões convencionais. Por isso, a empresa está aceitando novos pedidos para o T-Cross Sense, após ajustar a produção à alta demanda pelo modelo no mercado brasileiro. O prazo estimado de entrega para o cliente é de no máximo 180 dias. A Volkswagen trabalha para aumentar o ritmo de produção e reduzir o prazo máximo de espera".