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Por que dar festas na pandemia não é seguro, mesmo com convidados testados

A influenciadora Flay Leite reuniu 15 amigas para comemorar seu aniversário em Brasília e diz estarem seguras, pois todas estavam testadas - Reprodução/Instagram
A influenciadora Flay Leite reuniu 15 amigas para comemorar seu aniversário em Brasília e diz estarem seguras, pois todas estavam testadas Imagem: Reprodução/Instagram

Nathalie Ayres

Do VivaBem, em São Paulo

21/06/2020 11h02

Resumo da notícia

  • Influenciadoras se sentiram seguras para dar festas por que testaram os convidados antes, mas testes rápidos não são garantia nessas circunstâncias
  • Para se ter certeza de que o resultado não é falso negativo, é preciso fazer o teste entre sete e dez dias após apresentar os primeiros sintomas
  • Além disso, os testes costumam ser mais eficazes quando é o soro sanguíneo que é analisado, que precisa ser coletado em ambiente laboratorial
  • A eficácia dos testes também não é padronizada, e alguns podem não ser sensíveis o suficiente para detectar os anticorpos em quem tem sintomas leves

Este sábado (20) as blogueiras Fabianne Fonseca (conhecida como Fabi Raissa) e Flay Leite foram bastante criticadas nas redes sociais por darem festas de aniversário em plena pandemia de coronavírus (Sars-CoV-2). Em ambos os casos, as donas das festas pareciam seguras por estarem fazendo testes rápidos de coronavírus com as convidadas.

Fabianne viralizou após uma das convidadas (também influenciadora) fazer um story no Instagram com as duas enfermeiras testando quem chegava ao local e comemorando o resultado negativo de sua testagem. Já Flay se pronunciou, dizendo que suas amigas também estavam testadas.

Então tudo bem se reunir com amigos se todo mundo testar negativo para o novo coronavírus? Infelizmente não é bem assim, e o recomendado é que festas e reuniões de muitas pessoas não sejam feitas, mesmo que elas sejam testadas previamente. Entenda melhor por que isso traz uma falsa impressão de segurança:

Testes rápidos podem dar falso negativo se não forem feitos no tempo certo

Os testes rápidos vendidos em farmácia utilizam uma amostra de sangue da pessoa para detectar a presença de dois tipos de anticorpos: o IgM e o IgG. O primeiro é considerado um marcador para a fase aguda da doença e começa a ser produzido entre cinco e sete dias após a infecção pelo vírus. Já o segundo é um anticorpo mais específico que permanece circulando mesmo após o fim da fase aguda, indicando que a pessoa está —teoricamente — protegida de futuras infecções provocadas por aquele patógeno.

Por isso mesmo, o ideal é que a testagem seja feita a partir de sete dias após o aparecimento dos sintomas (como dores no corpo e tosse seca), mas há maior precisão no resultado se feito após o décimo dia. Se o exame for feito antes disso, a chance de dar negativo é grande, mesmo a pessoa estando contaminada. Outro ponto é que o teste também precisa ser feito por um profissional —mesmo não precisando de material de apoio para liberar o resultado, é importante que ele seja interpretado por um médico ou técnico da área de saúde.

Ou seja, se um dos convidados da festa contraiu o coronavírus há menos de 10 dias, ele pode ir a farmácia antes da reunião ou fazer o exame com as enfermeiras na porta da festa, apresentar um resultado negativo e ainda assim carregar o vírus e acabar contaminando as outras pessoas presentes. Vale lembrar que no casamento da irmã de Gabriela Pugliesi, o convidado que teria infectado os outros afirmou só ter apresentado sintomas da covid-19 na manhã seguinte à festa.

Qualidade dos testes também varia bastante

Outro motivo para os testes rápidos gerarem controvérsia entre os profissionais de saúde é que a eficácia varia bastante conforme o fabricante, portanto não dá para ter certeza sobre o resultado. "Não existe uma padronização na taxa de precisão desse produto, já que cada empresa apresenta seu método e estudos de comprovação e, por conta da situação de emergência que vivemos, não houve tempo hábil para fazer essa checagem de forma independente", explica o infectologista Celso Granato, diretor clínico da rede de laboratórios Fleury*.

Alguns desses testes podem não ter sensibilidade suficiente para dar positivo em pacientes com sintomas leves, por exemplo, já que eles produzem quantidade menor de anticorpos. Além do mais, muitos desses testes têm eficácia mais garantida quando feitos em ambiente laboratorial, em que o sangue é coletado a partir de uma veia e tem seu soro analisado —que é obtido após a centrifugação da amostra.

Pessoas jovens também devem se preocupar com a pandemia

Como idosos são o grupo de risco mais apontado, muitos jovens acham que não precisam se preocupar. No entanto, há uma série de casos de mortes de pessoas jovens e sem comorbidades, o que ainda espanta os cientistas. Além disso, mesmo que elas não apresentem sintomas ou a versão agravada do quadro, elas podem levar esse vírus para pessoas do grupo de risco com quem tenham contato.

Em entrevista à BBC, cientistas da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), apontaram que o distanciamento social fez com que o número de internações caísse em 14 estados brasileiros. Mas o Distrito Federal e outros seis estados —que ainda estão em zona de risco ou estão tomando medidas de flexibilização da quarentena — estão apresentando aumento nas hospitalizações pela covid-19. Por mais que sejam notícias melhores, elas mostram que ainda não é hora de reduzir totalmente as medidas de distanciamento.

* Fonte entrevistadas em matéria do dia 08/04/2020