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UOL Debate: coronavírus não é gripezinha e atinge jovens com gravidade

Do VivaBem, em São Paulo

27/03/2020 18h20

Nesta sexta-feira (27), aconteceu a primeira edição do UOL Debate, uma série especial de programas com transmissão ao vivo para discutir a pandemia do coronavírus e sua ampla gama de consequências sobre nossas vidas. "A classe médica reage ao coronavírus" foi o tema de estreia. O programa foi mediado pela jornalista Cristiane Segatto, profissional especializada em saúde e colunista de VivaBem.

As falas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foram repercutidas pelos especialistas participantes. Questionados sobre se já é hora de fazer apenas o isolamento vertical, os médicos discordaram da proposta e reforçaram a gravidade da doença, não só para os idosos, mas também entre os jovens.

"Nas últimas duas semanas, acho que vi pelo menos 20 a 30 casos, no HC [Hospital das Clínicas de São Paulo]. Com certeza não é uma gripezinha, a colocação do presidente foi, no mínimo, irresponsável e negligente. Tenho visto indivíduos na faixa etária dos 20 aos 40 anos, inclusive, intubados. Existe gravidade. O sistema público já está sobrecarregado. A doença é muito grave também para jovens", explicou Igor Marinho, infectologista do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e coordenador médico do hospital AACD.

"Não sabemos sobre o vírus, por que ele poupa crianças, por exemplo, mas tem gente com 30 anos falecendo", lembrou Maisa Kairalla, presidente da Comissão de Imunização da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).

Isolamento vertical

Sobre a possibilidade de diminuir o isolamento da população e deixar apenas o grupo de risco —idosos e pessoas com diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e imunodeprimidas — em casa, o chamado isolamento parcial ou vertical, os médicos concordam que ainda não é a hora e que as características do país não o permitem.

"Temos uma dificuldade em fazer diagnósticos, não existe a possibilidade de fazer isolamento vertical se você não sabe quem está infectado ou não. A nossa infraestrutura é diferente da Europa e do Japão", afirmou Marinho.

Kairalla concorda e acrescenta: "Não é uma doença sozinha, a gente tem um número enorme de pessoas que pararam o tratamento [de outras doenças], várias cirurgias foram canceladas, grandes hospitais pararam. Lembrando que idosos nessa época de inverno internam mais, tem a dengue, várias situações que não pararam por conta do coronavírus".

Roberto Kalil Filho, cardiologista e diretor clínico do Incor (Instituto do Coração) da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e colunista de VivaBem, explica que precisa haver um achatamento da curva de contágio no país justamente por não ter respirador e leitos de UTI (unidade de terapia intensiva) para todos.

Alexandre Kalache, gerontólogo que dirigiu o programa de envelhecimento da OMS (Organização Mundial da Saúde) durante mais de uma década e atual presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, estava na Europa há duas semanas e foi pego de surpresa pela pandemia. "Vi uma disciplina muito grande, de imediato a população foi para casa, as ruas ficaram completamente vazias. Quando a gente vê um presidente da República dizendo que a economia que não pode parar... A economia de Milão também não podia parar e olha o preço que pagaram", contou.

"Vacina em drive-thru é para a classe média"

"Será que essa campanha não foi precipitada?", questiona Kalache sobre a campanha vacinal contra a gripe, que começou na segunda-feira (23) focada na população idosa e nos profissionais de saúde.

"Drive-thru para quem? Para a classe média?", questionou o especialista referindo-se ao sistema que foi adotado por muitas prefeituras para vacinar as pessoas dentro de seus carros. O gerontólogo, referência internacional quando o assunto é envelhecimento e longevidade, explica que muitos idosos não têm como chamar um Uber ou um táxi para usar o drive-thru da vacina, "O sistema de saúde público está precarizado e há um desleixo da política pública com os idosos". Ele chegou a citar que está prestes a acontecer um "genocídio" de idosos.

"Aqui no Rio de Janeiro estamos vendo milhares de idosos que se aglomeraram para tomar vacina. Não é para proteger os velhinhos, mas, sim, o nosso sistema de saúde. Os EUA são incapazes de ter um sistema de saúde universal. Nós tínhamos e agora está sendo desmantelado. Em que posto de saúde vou me vacinar se fecharam o posto da Rocinha?", exemplifica.

Pandemia x pobreza

Os especialistas foram perguntados sobre como conduzir e lidar com a epidemia nas comunidades carentes Brasil afora. As recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde) e do Ministério da Saúde falam em quarto isolado para pessoas doentes e lavagem frequente de mãos, no entanto, grande parte das favelas do país não tem sequer saneamento básico necessário para ter água encanada.

"Nós temos um barril de pólvora. Eu não sei o que vai acontecer. Quando você combina essa população na miséria com um SUS precarizado você pode ter um colapso imenso. Inequidade faz mal para todo mundo", disse Kalache.

Sistema público de saúde pública

"Acusam sempre os pobres de trazerem doenças, dessa vez foi culpa do rico", brincou Kalache. Os primeiros casos de covid-19 reportados no Brasil foram em hospitais privados de pessoas que chegaram de viagens à Europa, no entanto, a doença já chegou ao sistema público de saúde.

"No HC existe esse alerta desde janeiro: colocar médicos mais jovens na linha de frente. Infelizmente já estamos tendo baixas", contou Kalil. "Nós temos bons recursos, mas não são infinitos. Se há explosão de pacientes com insuficiência respiratória, não vai ter respirador para a população doente toda. É finito o número de leitos de UTI e isso é um problema".

"Eu sou um médico jovem que está no front, a minha carga de trabalho, por exemplo, aumentou pelo menos 3 vezes, viramos uma sociedade monotemática", disse Marinho.

"Brasil peca muito no financiamento de pesquisa"

Sobre o financiamento da pesquisa e ciência no Brasil, Marinho, infectologista do HC, pontuou que esse é o momento de as autoridades pensarem em soluções.

"Sempre tivemos dificuldades em relação a verbas públicas, o nível técnico do profissional é alto, mas não tem reconhecimento ou espaço. Não se cria um tratamento em dois meses, precisa ser testado. O Brasil peca muito nisso. A ciência vai continuar trabalhando como sempre fez, apesar das crises. Esse é o momento de valorizar a ciência e saber que a resposta está aí".

"Não se investe da noite para o dia. As bolsas estão sendo cortadas, estamos vivendo um governo que não respeita a ciência. Conseguimos decifrar o DNA do vírus porque bolsistas que já tinham parado de receber foram trabalhar de graça, 48 horas sem parar. Como podemos pensar que esse país vai ter futuro? Como vamos propor sair tratando? Expectativa de aula mágica. Vamos curar às cegas sem saber se o que está sendo proposto tem base científica ou não", disse Kalache.

Vacina e esperança no futuro

O UOL Debate também fez uma pergunta de um internauta, que levantou a dúvida sobre a erradicação do vírus em três semanas.

"Ninguém erradica um vírus. A necessidade de pesquisar uma vacina é o melhor a se fazer depois do isolamento. Não existe perspectiva de erradicar. Erradicamos varíola com vacina, mas não conseguimos erradicar o sarampo. Só vamos poder nos proteger lá no futuro se houver vacina, e isso ainda está longe de acontecer", explicou o gerontólogo.

Mas Kalache reconhece que, no meio do medo e da incerteza, há esperança. "Espero que nasça uma sociedade mais coesa, menos desigual... Vai ter valido a pena. Temos que vencer o hedonismo, valorizar a experiência de quem já viveu mais tempo e protegê-las", finalizou.

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