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Especialistas: características do Brasil não permitem o isolamento vertical

Do UOL, em São Paulo

27/03/2020 17h29Atualizada em 27/03/2020 21h08

O chamado isolamento vertical pode ser eficiente para controlar o contágio do novo coronavírus enquanto mantém a economia ativa no Brasil? Para especialistas, não é possível apostar na possibilidade com tantas garantias.

No UOL Debate de hoje (27), de tema "A classe médica reage ao Coronavírus", o médico Igor Marinho, infectologista do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e coordenador médico do hospital AACD, viu algumas questões que podem atrapalhar a possibilidade. Entre elas, questões estruturais do Brasil e a falta de testes no país.

"A minha opinião pessoal é que esse tipo de prática muito provavelmente não pode dar certo. Temos dificuldades de testes de diagnóstico com biologia molecular ou sorologia. Não existe possibilidade de isolamento vertical se não sabemos quem está doente ou não", explicou Marinho, alertando para a resistência de parte da população para o isolamento horizontal.

"Nossa população se mostrou resistente a medidas de isolamento", disse. "São necessárias medidas como isolamento horizontal. Todas as pessoas, com sintomas ou não, devem estar isoladas. Isso diminui o contágio e conseguimos controlar a doença."

Segundo o médico, mesmo frente ao impacto econômico, o grande desafio da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, é o grande nível de contágio e a consequente sobrecarga hospitalar.

"O problema que a gente enxerga no mundo é a capacidade da doença em sobrecarregar o sistema de saúde, não apenas relacionado à assistência, mas por outras causas não relacionadas ao covid. É uma doença que pode afetar grandes populações", disse.

"Alguns especialistas, médicos e não médicos, começam a falar sobre como pode ser negativo uma pandemia parar o funcionamento de todo o comércio. Qual é a grande preocupação? Houve outros momentos econômicos preocupantes para a humanidade, como o crash da Bolsa de 1929, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. De algum modo, a economia conseguiu continuar. Durante uma guerra, o material bélico e o transporte se tornam muito pujantes. Na situação que temos atualmente, tudo isso se cancela", ponderou.

Por sua vez, a médica Maisa Kairalla, presidente da Comissão de Imunização da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, foi ainda mais enfática.

"O isolamento horizontal é o mais eficaz. É muito difícil mudar a cultura agora, mas abrandar. Essa é a melhor medida no momento", explicou.

O médico Alexandre Kalache, gerontólogo que dirigiu o programa de envelhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) durante mais de uma década, reforçou que a desigualdade social no Brasil também dificulta o combate ao coronavírus.

"Nós dizemos 'lavem as mãos', mas nem sempre tem sabão. 'Vai pro quarto isolado', mas aqui no Brasil todo mundo mora junto. Combina esse cenário com saúde precarizada, é um colapso onde não há liderança que possa dizer de forma muito clara o que fazer", criticou Kalache. "Espero que haja comoção social e não apenas sanitária. A inequidade faz mal para todo mundo, os Estados Unidos já estão pagando por isso".

Maisa Kairalla completou a fala de Kalache, lembrando que há políticas púbicas relevantes na área da saúde, mas que são difíceis de colocar em prática no cenário brasileiro.

"Não temos regra que funcione para o Brasil todo. Talvez nesse momento a gente precise ter varias receitas diferentes", defende. "Nos falta educação para tudo isso, tanto entre os governantes como entre a população."

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