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Frente ao coronavírus, médicos cobram mais investimentos em saúde no Brasil

Do UOL, em São Paulo

27/03/2020 18h18Atualizada em 27/03/2020 20h17

Especialistas concordam: a falta de investimentos em saúde pública no Brasil é um problema a mais na hora de combater a pandemia do novo coronavírus.

A questão foi trazida à tona hoje no UOL Debate com o tema "A classe médica reage ao coronavírus". E os especialistas reconheceram que, independentemente de orientação, os políticos ficaram devendo na questão ao longo dos anos.

"A gente recupera esse pensamento sobre 'quem é responsável por isso'. Realmente, acho que é um momento de autoridades e sociedade pensarem em soluções, que não são milagrosas, mas precisam de cuidados profissionais", disse Igor Marinho, infectologista do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e coordenador médico do hospital AACD.

"Sempre tivemos dificuldades em relação a verbas públicas. O nível técnico do profissional é alto, mas não tem reconhecimento ou espaço. Não se cria um tratamento em dois meses —precisa ser testado, o Brasil peca muito nisso. A ciência vai continuar trabalhando como sempre fez, apesar das crises. Esse é momento de valorizar a ciência e saber que a resposta está aí", acrescentou.

O ponto de vista foi o mesmo de Alexandre Kalache, gerontólogo que dirigiu o programa de envelhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) durante mais de uma década. O especialista ainda reforçou os problemas que a pesquisa enfrenta nas universidades federais do Brasil.

"Não se investe da noite para o dia. As bolsas (de pesquisas) estão sendo cortadas. Estamos vivendo um governo que não respeita a ciência. Conseguimos decifrar o DNA do coronavírus porque bolsistas que já tinham parado de receber foram trabalhar de graça, 48 horas sem parar", relatou. "Como podemos pensar que esse país vai ter futuro? Como vamos propor que vamos sair tratando?"

O impacto na classe médica

Roberto Kalil, cardiologista do Incor e colunista de VivaBem, afirmou no debate, em tom de alerta, que "os casos já estão chegando no setor público", que está "atendendo pessoas de classe alta e media alta". Neste momento, segundo ele, o grau de exigência sobre a classe médica é grande.

"Quando você vai para o setor público, já é uma dificuldade cuidar das pessoas da saúde. Todos, incluindo limpeza, que são tão importantes quanto os médicos. Tem primeiro que proteger os profissionais da saúde. No HC (Hospital das Clínicas), existe esse alerta desde janeiro. Colocar médicos mais jovens na linha de frente, mas é uma preocupação. Já estamos tendo baixa", afirmou.

Igor Marinho concordou e avisou sobre a possibilidade de uma sobrecarga no sistema de saúde pública.

"Sou um médico jovem que está no front, em hospitais privados e no das Clínicas. Do ponto de vista do sistema, existe a sobrecarga. Quando falamos em sistema público, é muito maior", disse.

"No HC, neste momento, contamos com doações de materiais e verba da sociedade civil. Do ponto de vista médico, não só (há) sobrecarga horária —a minha aumentou pelo menos três vezes. Viramos uma sociedade monotemática. É a característica psicológica desses profissionais. Não só por excesso de trabalho, mas também pelo risco do profissional, do familiar dele ou de uma comunidade", acrescentou, indo além.

"Não só como profissional de saúde, como familiar, amigo, colega. Eu preferi me afastar da família. O profissional ainda está longe desse apoio agora. É o técnico de enfermagem, o de coleta, o de limpeza, que às vezes nem sabe dos riscos e está lá tão disposto ou mais do que a gente para ajudar", concluiu.

Atenção aos jovens

Ainda segundo Igor Marinho, embora a letalidade seja maior em pacientes de idades mais avançadas, os jovens também precisam tomar cuidado. Não apenas por transmitirem o novo coronavírus, como também pelo risco de morte que correm.

Com certeza não é uma gripezinha —a colocação do presidente (Jair Bolsonaro) foi irresponsável e negligente, no mínimo. Conheço indivíduos jovens, na maioria assintomáticos. Mas tenho visto também da faixa etária dos 20 aos 30 e dos 30 aos 40 que precisavam de dispositivos para respirar e se manterem vivos" Igor Marinho, infectologista

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