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"Tirei as mamas por causa de tumor e tive outro câncer devido ao silicone"

Próteses de silicone aumentam o risco de linfoma anaplásico de grandes células, um tiro de câncer raro - iStock
Próteses de silicone aumentam o risco de linfoma anaplásico de grandes células, um tiro de câncer raro Imagem: iStock

Wivian Maranhão

Colaboração para o UOL VivaBem

07/04/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A microbiologista Helena Souza, 64 anos, removeu as duas mamas por causa do câncer
  • Ela implantou silicone e três anos depois descobriu um novo câncer provocado pela prótese
  • O linfoma anaplásico de grandes células é uma doença rara e seu índice de cura é bem alto
  • A seguir, Helena conta como enfrentou o problema

"Quando você tem um câncer --ainda mais nas duas mamas! -- e sai vitoriosa dessa batalha, acredita que nada mais vá te desestruturar. Minha trajetória começou em 2012, quando a partir de exames de rotina, detectei dois nódulos em cada seio.

O fato de o diagnóstico do câncer de mama ter sido feito precocemente e eu trabalhar na área da saúde e, portanto, entender que as chances de remissão eram bem promissoras, me ajudaram a encarar a remoção total das mamas até que com certa tranquilidade. Já saí da cirurgia com as duas próteses de silicone, fiquei 30 dias de licença e só. Nem sessão de quimio ou radioterapia precisei fazer. Foi lindo!

Três anos depois, porém, apareceu um novo caroço em uma das mamas. Pior do que ele crescer assustadoramente num período curto de tempo --era como seu eu tivesse duas mamas no lugar de uma --, foi a demora do diagnóstico. Fiz uma biopsia e o patologista não concluiu nada. Realizei e repeti muitos exames e os resultados não apontavam compatibilidade com qualquer tipo doença.

Foram dois meses de busca. Estava apavorada e angustiada quando uma das médicas da equipe que me acompanhava olhou novamente a minha ressonância magnética e levantou a possibilidade de ser um linfoma. Não deu outra: com esse novo direcionamento, parti para mais análises e a conclusão veio certeira.

Tratava-se do linfoma anaplásico de grandes células (ALCL), um tipo raro de câncer originado a partir de próteses de silicone. Um diagnóstico com pouquíssimos relatos médicos --nessa época, em 2015, falava-se em cerca de 70 casos no mundo. No Brasil, eu simplesmente era a segunda mulher com esse tipo de linfoma.

Dados do FDA mostram que 70% dos casos de linfoma anaplásico de grandes células ocorrem em mulheres que colocaram silicone por questões estéticas e 30% em pacientes pós-câncer de mama - iStock
Dados do FDA mostram que 70% dos casos de linfoma anaplásico de grandes células ocorrem em mulheres que colocaram silicone por questões estéticas e 30% em pacientes pós-câncer de mama
Imagem: iStock
O mais curioso era que o meu caso apresentava uma característica ainda mais incomum. Enquanto esse tipo de linfoma surge, na grande maioria das vezes, em próteses de silicone do tipo texturizadas, as minhas próteses eram do tipo lisa. O tumor, por sua vez, se alojou embaixo do músculo peitoral, configurando, dessa forma, um tipo de ALCL ainda mais raro.

Na cirurgia, uma boa parte do músculo teve de ser removido. As antigas próteses de silicone, por questões óbvias, foram substituídas por outras feitas com quase 100% de soro fisiológico. E como se tratava de uma situação nova, o tratamento incluiu ainda um ciclo de seis sessões de quimio como terapia de prevenção. Fiz a primeira na véspera de Natal.

Confesso que o segundo câncer foi bem tenso, pois tudo era novo para todo mundo

Mas isso já é passado. Hoje sou só agradecimento. Tomo regularmente uma medicação e, a cada seis meses, faço o controle para saber se realmente está tudo certo --tenho mais dois anos para, então, receber a alta e ser considerada curada."

Raio-X desse câncer raro

Descrito pela primeira vez como um relato de caso em 1997, o linfoma anaplásico de grandes células é um tipo muito raro de linfoma não-Hodgkin --conhecido como câncer do sistema imunológico -- que está associado aos implantes de silicone.

Em 2011, A FDA (Food and Drug Administration), dos EUA, publicou uma comunicação detalhando os riscos potenciais de desenvolvimento desse tipo de câncer para educar mulheres com implantes, o que provocou um maior interesse para esta doença rara. No início, se gerou muita confusão, porque o termo anaplásico está na maioria das vezes ligado a um câncer agressivo. E, de fato, existe um linfoma não-Hodkin de grandes células anaplásico realmente devastador, porém, não associado às próteses. Ou seja, uma outra doença, com nome muito parecido, mas com comportamento biológico, tratamento e prognóstico diferentes.

A maneira como o linfoma anaplásico de grandes células se origina é bem singular. Sua formação depende de três fatores: a presença da prótese mamária (e as de silicone texturizadas são aquelas que levam a uma resposta inflamatória crônica mais intensa e contínua); uma contaminação bacteriana de baixo grau presente na prótese e a suscetibilidade genética. Portanto, não basta ter um único fator, é preciso ter os três. Segundo dados do FDA, dos casos ocorridos nos EUA, 70% aconteceram em mulheres que colocaram silicone por questões estéticas e 30% em pacientes pós-câncer de mama.

É importante entender que o ALCL é um tipo de linfoma e não é um câncer do tecido mamário. Quando os implantes mamários são colocados no corpo, eles são inseridos atrás do tecido mamário ou sob o músculo peitoral. Com o tempo, uma cicatriz fibrosa chamada cápsula se desenvolve ao redor do implante, separando-o do resto do seio. Em pacientes com implantes mamários, os casos relatados de linfoma anaplásico de grandes células foram geralmente encontrados adjacentes ao próprio implante e contidos dentro da cápsula fibrosa.

Quando a doença se desenvolve na cápsula, na maioria das vezes se manifesta na forma de seroma, que é um líquido em grande quantidade ao redor da prótese mamária, de aparecimento tardio, às vezes anos depois da cirurgia, e sem causa aparente. Mesmo depois de puncionado ou drenado, ele volta a se formar. Isto é o que deve chamar a atenção do médico e da paciente para este diagnóstico. Algumas vezes, pode se manifestar na forma de um nódulo palpável ou visualizado em exames de imagem. Esta segunda forma é mais agressiva.

#Jairo: autoexame não é mais recomendado para detectar câncer de mama?

VivaBem

Como é o tratamento

A maioria dos casos reportados na literatura sinaliza o aparecimento desse linfoma seis a oito anos após a colocação da prótese. A abordagem ideal de tratamento, segundo especialistas, envolve cirurgia quando o linfoma se apresenta na forma de seroma.

Mediante tumores mais agressivos, orienta-se cirurgia e quimioterapia --algumas vezes, com radioterapia também. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade do Texas (EUA) mostra que pacientes com excisão cirúrgica completa do implante e da capsula adjacente tiveram taxas de recorrência de apenas 4% em cinco anos, em comparação com 28% para radioterapia e 32% para quimioterapia.

A doença no Brasil e no mundo

Há pouco mais de 600 casos reportados no mundo. O relato destas ocorrências, contudo, tem aumentado, pois os médicos e as pacientes estão mais atentos a este problema hoje. Além disso, o número de mulheres com próteses de silicone é grande. No Brasil, segundo dados de 2016, da SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica do Brasil), são realizados quase 290 mil implantes por ano, o que corresponde a cerca 20% de todas as plásticas no país.

Apesar de não haver uma estatística oficial de ocorrência desse tipo de linfoma, a boa notícia, segundo os especialistas, é que os riscos são muito baixos e os índices de cura, felizmente, bem altos, acima de 90%. No melhor cenário, existe a chance de uma a cada três milhões de mulheres com próteses desenvolver a doença; no pior uma a cada 50 mil mulheres com próteses. Porém estes dados ainda são especulativos e é possível que o risco real esteja entre estes dois números.

Quem tem prótese não precisa se assustar

Os médicos alertam que as mulheres que implantaram silicone não devem entrar em pânico. Além do risco pequeno, a conduta de prevenção desse linfoma não é muito diferente daquela prescrita para as mulheres em geral. Ou seja, ultrassonografia mamária e mamografia uma vez ao ano, e ressonância magnética a cada dois anos.

Para as candidatas a cirurgias com próteses, porém, cabe aos profissionais da saúde o alerta antes do procedimento de que o silicone eleva um pouco o risco de desenvolver o câncer em comparação às mulheres que não têm implante.

Fontes: Cicero Urban, cirurgião oncológico e mastologista no Hospital Nossa Senhora das Graças, e coordenador do Curso de Medicina da Universidade Positivo, em Curitiba; Jayr Schmidt Filho, oncologista clinico da Onco-Hematologia do A.C. Camargo Cancer Center; Celso Massumoto, onco-hematologista, coordenador de transplante de medula óssea do Hospital Nove de Julho e membro da Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia).

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