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"Tive câncer de mama aos 22 anos e usei maconha para aliviar o tratamento"

A luta de jovens como Michelle contra o câncer é menos comum e as mulheres são mais propensas a ter a doença a partir dos 50 anos - Arquivo pessoal
A luta de jovens como Michelle contra o câncer é menos comum e as mulheres são mais propensas a ter a doença a partir dos 50 anos Imagem: Arquivo pessoal

Aline Tavares

Colaboração para o UOL VivaBem

26/10/2018 04h00

O câncer de mama atinge quase 60 mil pessoas por ano e é o segundo tipo mais comum entre o sexo feminino --atrás apenas do de pele não melanoma. Mulheres a partir dos 50 anos são mais propensas a ter a doença. Apesar de ser menos comum e só representar 7% dos casos, as mais jovens também enfrentam o problema. 

Foi assim com a jornalista Michelle Kaloussieh, 24, que há dois anos descobriu um tumor nos seios. "Eu estava no último ano da faculdade, naquela correria de estágio, trabalho de conclusão de curso, e senti um caroço no meu peito direito. Como já tinha marcado exames de rotina, tentei não me preocupar tanto. Realizei um ultrassom e o laudo apontou que o meu nódulo era BI-RADS 4. Eu obviamente não entendi nada e fiquei bem assustada", relata. 

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A classificação BI-RADS 4 refere-se a uma lesão com suspeita de câncer, com um risco de pelo menos 20% de desenvolver a doença. A jornalista conta que sua ginecologista a acalmou, pois a probabilidade de ser benigno era grande, visto que sua mãe e sua avó já tinham histórico de nódulos assim na mama. 

Porém, como o caroço começou a crescer rapidamente, Michelle foi encaminhada para um mastologista, que sugeriu a realização de uma biópsia cirúrgica a fim de confirmar o diagnóstico.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
"Todo mundo estava me acalmando, porque eu estava com 22 anos, era saudável, não tinha histórico de câncer na família... Decidi esperar o ano acabar e marquei a cirurgia para janeiro --com os dias contados para a minha formatura, para dar tempo de me recuperar e poder me divertir", conta.

Uma semana após a operação, Michelle retornou ao consultório para tirar os pontos e saber o resultado da biópsia. Ela achou um pouco estranho porque, naquela vez, seu pai decidiu acompanhá-la também --geralmente ela ia apenas com a mãe. O médico a explicou que havia conversado antes com seus pais, pois a biópsia indicou que o nódulo era maligno. "Saber que o que eu tinha ali era um câncer foi o pior momento para mim. Pior do que todo o tratamento."

Ao mesmo tempo em que queria ser forte e falar que estava tudo bem, era muito difícil não me vitimizar e perguntar: 'Por que logo comigo, e com essa idade?'

"Usei maconha para ter apetite e aliviar impactos do tratamento"

Após o diagnóstico, Michelle consultou uma oncologista e realizou uma nova cirurgia para limpar a área afetada e verificar se alguma outra parte do corpo havia sido comprometida. Ela teve um bom prognóstico, pois não ocorreu nenhuma metástase --quando o câncer se espalha para outros lugares. 

Sua oncologista a explicou que, por conta da idade, ela ainda tinha chance de um câncer se manifestar caso alguma pequena célula tivesse escapado. Por isso, indicou um tratamento de prevenção, que durou seis meses e foi bem-sucedido. O tratamento incluiu dois tipos de quimioterapia e, no final, a radioterapia.

"Eu tinha acabado de me formar e não estava trabalhando. Fiquei quatro anos na faculdade, estudando e estagiando, na maior correria. Aí, de repente, passei a ser uma paciente oncológica. Minha vida mudou totalmente. Tive que contar o que estava passando para as pessoas que eu amo e ao mesmo tempo acalmá-las, porque ainda existe um estigma muito forte sobre o câncer".

A baixa imunidade é uma das principais consequências do tratamento contra a doença. Após a primeira sessão de quimioterapia, a jornalista desenvolveu faringite e ficou internada durante cinco dias.

Para prevenir infecções e outros problemas relacionados à imunidade, é essencial manter uma dieta saudável. Esse foi um dos maiores desafios para Michelle, pois a alimentação era dificultada pelos enjoos frequentes causados pela quimioterapia. "Ver as minhas comidas preferidas e passar mal era algo horrível. Eu sabia que precisava me alimentar, mas era muito difícil."

Como forma de ajudar a controlar o mal-estar e estimular seu apetite, ela revela que decidiu usar maconha medicinal e que a alternativa contribuiu muito para aliviar os efeitos colaterais do tratamento. "No início, fumava a erva, mas entendi que esse não é o melhor método e comprou um vaporizador para usá-la de modo menos nocivo."

Michelle já tinha lido muita coisa sobre o assunto e, quando perguntou à médica, a especialista disse que poderia tentar usar, mas como aliada e não substituta -- ou seja, ela deveria continuar tomando os remédios tradicionais.

Michelle não tem problema em falar sobre o assunto e muito menos se preocupa com o preconceito e a falta de diálogo que cerca o tema. 

Se a maconha é tratada como remédio ao redor do mundo, deve ser tratada aqui também. Vou continuar falando que ela me ajudou, porque ela ajudou muito

De acordo com a oncologista Andréa Gadelha, do Centro de Referência de Mama do A.C.Camargo Cancer Center, a maconha ativa receptores no sistema nervoso central e nas células do sistema imunológico, que têm a função de modular o humor, memória, apetite e sensação de dor.

"Os efeitos trazidos pelos derivados da cannabis têm sido relatados como parte de cuidados paliativos para alívio de dor e náuseas relacionados à quimioterapia, além de estimular o apetite. Porém, as evidências sobre a eficácia dessas substâncias ainda são muito limitadas, o que motiva a realização de novos estudos", esclarece.

O valor da experiência

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Michelle terminou o tratamento há um ano, em outubro de 2017. Ela diz que não consegue imaginar a sua vida sem essa trajetória e destaca as lições e as mudanças positivas que o câncer de mama a deixou.

"Vi muitas coisas boas, pessoas com as quais posso contar e muita gente se preocupando comigo genuinamente. E a minha percepção de mim mesma mudou: por exemplo, sempre usei cabelo comprido, e agora me descobri de cabelo curto. Pessoas que me conhecem e não sabem sobre o tratamento dizem que combina muito comigo --e sei que combina, porque me tornei essa pessoa."

Michelle relembra o momento em que decidiu compartilhar o que estava acontecendo nas redes sociais. Foi após a sua primeira sessão de quimioterapia, quando ficou internada em decorrência de uma faringite. Seu cabelo estava caindo muito e ela decidiu raspá-lo no próprio hospital.

"Estava deitada com o computador e comecei a escrever um texto. Sempre compartilhei as minhas felicidades, família e amigos, mas não fazia o menor sentido esconder uma coisa que eu ia passar por pelo menos seis meses. Tirei uma foto de cabelo raspado, postei com o texto e recebi muitas mensagens maravilhosas. Falar nas redes sociais traz um apoio forte e necessário".

A jornalista comenta que, em alguns momentos, teve dificuldade em demonstrar o que estava sentindo para seus amigos e sua família --e enfatiza que é muito importante ser forte e também aprender a sentir a tristeza.

Acredito que todas as pessoas possuem força, mas não tem como passar por uma coisa dessas sem chorar e sem sofrer. É difícil... Vi meu corpo definhar, minha sobrancelha e meus cílios caírem

"O que enfrentei só faz com que tenha ainda mais certeza e confiança da mulher que sou --e que eu já era antes de tudo isso", finaliza Michelle. 

Conheça quais são as principais causas, como tratar e prevenir o câncer de mama

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