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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vacinas não causam Aids, mas as falas do presidente, sim

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

29/10/2021 04h00

Na semana passada, durante sua live semanal, o presidente Jair Bolsonaro sugeriu em uma de suas falas que a vacinação contra a covid-19 poderia levar ao desenvolvimento da Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), doença causada pela infecção pelo HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), quando não diagnosticada nem tratada.

Do ponto de vista científico, posso até pensar que o presidente com essa fala poderia estar tentando fazer uma referência à preocupação existente no mundo da vacinologia em relação ao uso do Adenovírus 5 (Ad5) como vetor viral de vacinas.

Isso porque, em ensaios clínicos realizados no início dos anos 2000, duas vacinas experimentais que utilizavam o Ad5, ao invés de protegerem os participantes dos estudos contra o HIV, de maneira inesperada acabaram aumentando a incidência dessa infecção. Falei com detalhes sobre isso aqui em outubro de 2020.

No entanto, o alerta presidencial se faz descabido, pois não temos nenhuma vacina contra covid-19 aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ou sendo aplicada atualmente no Brasil que utiliza o Ad5. Além disso, os resultados publicados sobre eficácia e segurança no uso de vacinas que usam esse vetor viral, como a Sputnik V, não apontaram semelhante aumento nas infecções por HIV. Aliás, eles nem sequer fazem referência a esse evento adverso.

Agora, do ponto de vista epidemiológico, temos no Brasil em 2021 uma epidemia de HIV que continua crescendo de forma consistente, contando com mais de 41 mil novas infecções somente no último ano, segundo o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids de 2020 do Ministério da Saúde. Com casos crescendo entre os jovens com menos de 30 anos na última década, estamos bem longe de ter uma epidemia de HIV controlada no país.

O que deixa esse cenário ainda mais triste é o fato de que a infecção por HIV na atualidade é de fácil prevenção, diagnóstico e tratamento, sendo todas essas etapas do cuidado disponíveis gratuitamente no SUS (Sistema Único de Saúde). E ainda assim, somente em 2019, tivemos mais de 10 mil mortes evitáveis em decorrência da Aids.

Alguns dos principais fatores que afastam as pessoas do engajamento com a prevenção combinada, da rotina de testagem e do tratamento antirretroviral do HIV são o medo, a desinformação, o estigma e a discriminação ainda associados ao HIV/Aids. É a sorofobia que paralisa um cidadão nos momentos em que ele precisa agir para garantir sua saúde.

Falas do presidente como na sua última live, usando "Aids" para assustar quem se vacina contra a covid-19, quando sugeriu que as pessoas se infectam com o HIV por terem "comportamentos diferenciados" ou quando disse que as pessoas que vivem com HIV "são uma despesa para todos do país", apenas servem para impulsionar a sorofobia no senso comum brasileiro.

Dessa forma, posso concluir seguramente que vacinas contra a covid-19 não causam Aids, mas as falas do presidente, sim. E quanto antes entendermos que a sorofobia é o principal combustível da epidemia de HIV, mais cedo conseguiremos controlá-la.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL