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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Congresso Mundial de Prevenção do HIV expõe atraso do programa brasileiro

Getty Images
Imagem: Getty Images
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

12/02/2021 04h00

Fora do Brasil, a Prevenção Combinada contra o HIV é um assunto que está sendo levado a sério. Para vocês terem uma ideia, existe até um Congresso Mundial de Prevenção do HIV.

O HIVR4P - Research for Prevention (que pode ser traduzido como HIV - Pesquisar para Prevenir) é uma conferência que acontece a cada 2 anos, reunindo os maiores pesquisadores do assunto para apresentarem e discutirem o que há de novo na ciência da prevenção do HIV.

Considero que esse é o mais importante de todos os congressos de HIV por ter seu foco naquela que, para mim, é a maior urgência em relação a essa epidemia: a redução dos ainda muito altos números de novos casos incidentes registrados todos os anos no mundo.

Em outubro de 2020, o HIVR4P que deveria acontecer na Cidade do Cabo, na África do Sul, foi adiado devido à pandemia de covid-19, acontecendo somente agora, de forma virtual. A edição desse ano provocou nos participantes um misto de ânimo e banho de água fria por trazer boas e más notícias.

Entre as boas, tivemos a divulgação dos dados detalhados do estudo HPTN 084, que comprovou a eficácia e segurança do uso da PrEP injetável de longa duração entre mulheres cisgênero, já comentado anteriormente aqui nessa coluna. Entre as mulheres, as injeções bimestrais de Cabotegravir conseguiram atingir uma proteção contra o HIV ainda maior do que entre os homens, e isso com uma frequência menor de dores no local da aplicação.

Essa alternativa se juntará, no cardápio de prevenção para mulheres cis, à camisinha, à PrEP com comprimidos e aos anéis vaginais impregnados com antirretrovirais, discutidos aqui na semana passada e agora recomendados pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Foram apresentados também os progressos no desenvolvimento da prevenção com o antirretroviral Islatravir na forma de comprimido tomado 1 vez por mês, para ser usado tanto na forma de Profilaxia Pós como Pré-Exposicão ao HIV (PEP e PrEP, respectivamente). E anunciado o início dos ensaios clínicos da PrEP com o antirretroviral Lenacapavir, aplicado por via subcutânea a cada 6 meses.

Foram atualizados também os dados sobre a expansão mundial da PrEP, que já conta globalmente com cerca de 1 milhão de usuários. O aumento do número de usuários foi significativamente maior na África, principalmente na África do Sul, Quênia e Zâmbia, que já somam mais de meio milhão de usuários. Outra região que está tendo sucesso na ampliação do acesso a essa estratégia de prevenção é a América do Norte, com quase 220 mil usuários.

O Brasil não está entre as boas notícias, com um programa de PrEP que ainda engatinha na maior parte do país, temos o acesso à estratégia concentrado em algumas regiões, como São Paulo. Em todo país, desde 2018, dos quase 30 mil usuários que iniciaram a PrEP pelo SUS, apenas cerca de 17 mil ainda se mantêm retidos ao acompanhamento e tomando os comprimidos da profilaxia.

Uma má notícia bastante discutida no congresso foi o efeito devastador que a pandemia de covid-19 poderá ter no controle do HIV caso haja descontinuidade na prestação do contínuo de cuidado de prevenção, diagnóstico e tratamento dessa infecção. Impacto esse que só será visualizado nos dados de incidência e mortalidade por Aids dos próximos anos.

Coloco também no grupo das notícias ruins os aguardados resultados do estudo AMP, que avaliou o uso de um anticorpo monoclonal anti-HIV chamado VRC01, administrado por via intravenosa a cada 2 meses, como forma de prevenção contra a infecção por HIV.

O estudo mostrou que o uso do VRC01 não protege contra o HIV devido à presença de cepas virais já resistentes ao anticorpo monoclonal. Mas sugere que o uso simultâneo de diferentes anticorpos monoclonais talvez possa garantir uma boa proteção contra todos os tipos de HIV. Novos estudos já estão em andamento utilizando outros anticorpos monoclonais, mais potentes e com esquemas de administração ainda mais cômodos, como por exemplo, semestrais.

Acompanhar as tendências e discussões que estão sendo feitas sobre a Prevenção Combinada do HIV no resto do mundo deixa claro que no Brasil ficamos para trás no enfrentamento do HIV. O país que há algumas décadas foi considerado uma referência nas abordagens contra esse vírus, está hoje parado no tempo, ainda insistindo que "é só usar a camisinha" que tudo vai ser resolver na prevenção. Se quisermos vencer o HIV, no Brasil precisamos nos atualizar e democratizar o acesso às novas tecnologias de prevenção. Aliás, "camisinha" foi a palavra menos pronunciada ao longo dos 4 dias de HIVR4P.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL