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Rico Vasconcelos

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Prevenção do HIV entre mulheres cis agora vai ganhar a atenção que merece

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Imagem: iStock
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

05/02/2021 04h00

"As mulheres só se preocupam com a gravidez e não estão nem aí para o HIV."

Essa é a frase que eu mais ouço quando o assunto é HIV entre mulheres cisgênero.

Quem tem seu primeiro contato com os dados epidemiológicos da epidemia de HIV no Brasil, até fica com vontade de acreditar que a tal despreocupação feminina faria sentido, mas é nos detalhes que percebemos o real tamanho dessa questão para a saúde pública brasileira.

Para o senso comum, HIV é coisa de homens gays e pessoas transexuais. De fato, enquanto no Brasil a prevalência dessa infecção nesses dois grupos está em torno de 20 a 30%, entre mulheres cisgênero ela não chega nem a 1%.

Além disso, segundo o Boletim Epidemiológico de HIV de 2020 publicado pelo Ministério da Saúde, na última década a taxa de detecção de casos de Aids vem diminuindo na população feminina em todas as faixas etárias. Já entre os homens, no mesmo período, cresceu rapidamente para os menores de 30 anos e, de forma mais devagar, para os maiores de 60 anos de idade.

A percepção equivocada de que a epidemia de HIV não deve ser uma preocupação para as mulheres cis esconde, no entanto, o fato de que, desde 1980 até 2020, cerca de 350 mil casos de mulheres com Aids foram notificados ao Ministério da Saúde, das quais mais de 100 mil morreram em decorrência dessa infecção.

Mulheres cis são sim um grupo que merece atenção no controle do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Inclusive, em algumas regiões do mundo, como na África Subsaariana, elas já são o grupo populacional com a maior concentração de casos.

Os fatores regionais que vulnerabilizam a população feminina ao HIV são, em grande parte das vezes, sociais e culturais, tais como a violência, as relações de poder e a desigualdade entre os gêneros. Esses fatores agem como obstáculos para que as mulheres tenham acesso a uma saúde sexual e reprodutiva de qualidade, e as impedem por exemplo de negociar com seus parceiros a utilização de insumos de prevenção tão básicos como a camisinha.

Até mesmo a profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP), que é um sucesso entre os homens cisgênero gays e tem obtido resultados excelentes no controle dessa epidemia, parece não interessar às mulheres cis, com exceção daquelas que vivem relacionamentos sorodiferentes.

Por esse motivo, nos últimos anos a medicina se debruçou sobre a pesquisa de novas formas de prevenção contra o HIV especificamente para a população feminina e tem chegado a resultados interessantes.

No início dessa semana, foram publicados na revista científica Lancet HIV os últimos resultados do estudo DREAM, que faz parte de uma série que avalia a PrEP na forma de anéis vaginais impregnados com um antirretroviral chamado Dapivirina.

No estudo, 941 mulheres cisgênero foram incluídas em 5 centros de pesquisa nos países africanos de Uganda e África do Sul, para serem acompanhadas periodicamente entre 2016 e 2019. Nas visitas de retorno, elas eram testadas para o HIV e recebiam novos anéis vaginais de PrEP, que deveriam ser trocados mensalmente.

Durante o acompanhamento, apenas 6 participantes tiveram eventos adversos que foram associados ao anel de Dapivirina, nenhum deles considerado grave. Quando comparadas com o grupo de controle, que tinha usado anéis com placebo em estudos anteriores, verificou-se que o anel com antirretroviral reduziu em 62% a ocorrência de infecções por HIV.

Os próximos passos dessa linha de pesquisa serão testar anéis vaginais que podem ser trocados a cada 3 meses e que contenham também anticoncepcionais.

O desenvolvimento de pesquisas científicas para a prevenção de mulheres cis é uma forma de dar importância para esse assunto. A existência de métodos de prevenção que não interferem na vida sexual e nem dependem de mudanças comportamentais delas ou dos seus parceiros aumenta as chances de serem utilizados com boa adesão.

A prevenção combinada está se diversificando também para as mulheres cis. Essa é a única forma de protegê-las da epidemia de HIV/Aids enquanto as questões estruturais, como o machismo, são enfrentadas.