PUBLICIDADE

Topo

Rico Vasconcelos

O que o seu candidato pretende fazer com o HIV/Aids diz muito sobre ele

Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

02/10/2020 04h00

Aqui estamos nós, a apenas 6 semanas do primeiro turno das eleições de 2020 que vão eleger os próximos prefeitos e vereadores, mas ainda mergulhados em uma pandemia de coronavírus que parece não ter data para terminar.

Não está fácil colocar o foco nas eleições, mas quero com esse texto lembrar de um dos clichês mais sábios que existem para esse momento de campanha eleitoral: conheça as propostas dos seus candidatos.

O plano de um candidato para o enfrentamento do HIV/Aids é um bom termômetro para avaliar as suas reais intenções. Digo isso primeiro porque se trata de uma questão de saúde pública cujas soluções já são conhecidas (veja os lugares que estão vencendo a epidemia), mas também por ser um vírus que acomete de forma desproporcionalmente mais pesada os grupos marginalizados da sociedade, e não os donos do poder.

Dessa forma, os governantes que se empenham de verdade no enfrentamento dessa epidemia, certamente vão conseguir bons resultados, beneficiando uma parcela vulnerável da população que não terá muita coisa para dar como contrapartida. Governantes que se preocupam com a epidemia de HIV/Aids são aqueles que genuinamente se preocupam com o seu povo.

Acredito que nem todos saibam, mas as grandes políticas públicas de prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV/Aids são planejadas na esfera federal, pelo Ministério da Saúde. Aos estados e municípios cabe a tarefa de viabilizar a implementação dessas estratégias, adaptando-as se for preciso, levando em conta as peculiaridades de cada região.

As escolhas do ministério nesse sentido se baseiam em elementos mais técnicos, tais como custo-efetividade de uma intervenção e o seu potencial impacto no controle da epidemia. Já a implementação dessas ações em nível municipal vai depender do interesse dos gestores pelo assunto e da vontade política de colocá-las em prática.

Um bom exemplo disso é a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP), que foi adotada como uma política pública de prevenção dessa infecção no final de 2017, com a realização de uma série de capacitações para que todos os estados da federação pudessem realizar esse atendimento. Depois de 3 anos, o que vemos é uma distribuição da PrEP absolutamente desigual dentro do país.

Segundo dados do Ministério da Saúde, até o final de agosto de 2020, dos 23.967 usuários que iniciaram PrEP pelo SUS no país, 4 eram do Acre enquanto 11.409 de São Paulo. Essa diferença de mais de 2.850 vezes é muitíssimo maior do que a diferença do tamanho das populações dos dois estados, que é de cerca de 55 vezes.

Sendo a PrEP uma das mais potentes intervenções disponíveis para redução da incidência de HIV numa população, o resultado da disparidade na sua implementação não poderia ser outro. Entre 2017 e 2018, o número anual de novos casos de infecção por HIV, que até então mantinha a mesma proporção do número de habitantes dos dois estados, aumentou em 15% no Acre enquanto reduziu em 11% em São Paulo.

Os números do Boletim Epidemiológico de HIV/Aids nos mostram que a maior diferença entre os dois estados não está nos seus habitantes, mas nos seus governantes. Governantes esses que são eleitos justamente por esses habitantes.

Procurando ajudar os candidatos, o MOPAIDS (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids) criou uma cartilha com um programa mínimo de governo que atende às demandas mais importantes no enfrentamento do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Vale a pena dar uma lida.

Assim como os prefeitos, vereadores também têm um papel muito importante nesse trabalho, principalmente na criação de projetos de lei que ajudem no combate à já histórica exclusão social e discriminação das pessoas que vivem com HIV.

Independente da cidade em que você vive, a epidemia de HIV/Aids não é uma questão que já está resolvida, entretanto, com os recursos de prevenção e tratamento disponíveis agora, nunca tivemos um momento mais oportuno para mudar esse cenário e enfim reduzir o número de novos casos de HIV e de mortes por Aids. Cobre dos seus candidatos um posicionamento sobre esse assunto e entenda com quem eles de fato estão preocupados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL