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Pandemia reduz busca por tratamento anti-HIV e grupo cria "delivery" em SC

Apesar de não haver cura para o HIV, os medicamentos antirretrovirais são capazes de controlar o vírus e deixar a carga viral indetectável - iStock
Apesar de não haver cura para o HIV, os medicamentos antirretrovirais são capazes de controlar o vírus e deixar a carga viral indetectável Imagem: iStock

Mariana Gonzalez

De Universa

25/09/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Em Florianópolis, ativistas LGBTs se organizaram para garantir que pessoas com HIV seguissem tendo acesso a medicamentos antirretrovirais
  • Nas primeiras semanas da pandemia, três pessoas deram um jeito de buscar a medicação na região central e distribuir na casa dos pacientes
  • Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, 200 pessoas deixaram de retirar seus remédios ao longo de seis meses de pandemia

A pandemia de coronavírus deixou pelo menos 73 países em risco de escassez de remédios para tratar pessoas com HIV. O Brasil não está nesta lista, mas, por aqui, quem depende dos ARVs (antirretrovirais) também enfrentou problemas para seguir o tratamento. De acordo com o Ministério da Saúde, devido à sobrecarga dos serviços em função da pandemia, houve uma redução de 17% no número de pessoas que iniciaram a terapia antirretroviral, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

A Universa, Claudia Velásquez, diretora do Unaids (programa internacional da ONU voltado ao combate à Aids) no Brasil, disse que "com certeza" há impacto na resposta ao HIV, mas que ainda não é possível cravar o tamanho dessa interferência na saúde das pessoas que vivem com o vírus.

Em Florianópolis, quando os ônibus pararam de circular no início da pandemia e parte das clínicas que distribuía os insumos fechou as portas, pacientes chegaram a passar semanas sem medicação diária e coube a um grupo de ativistas criar um sistema para fazer a entrega dos insumos aos que moram mais longe.

Fabrício Bogas Gastaldi, presidente da ONG Acontece | Arte e Política LGBT+, conta que, durante cerca de três semanas, ele e ativistas do Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids) e da RNP+ se organizaram para levar as receitas dos pacientes até a Policlínica Centro, na região central, e voltar distribuindo os remédios de casa em casa. Essa força-tarefa consome generosa parcela de tempo, além dos gastos com transporte.

"Em Florianópolis, tudo é muito longe. As medicações são distribuídas em quatro lugares pela cidade toda, mas quando veio a pandemia, duas fecharam. As pessoas que moram mais ao sul e mais ao norte tinham que vir para o centro buscar remédio. Mas isso pode representar quase 40 quilômetros de distância. E não tinha ônibus [nos primeiros meses de pandemia, o governo de SC determinou a suspensão do transporte público para conter a disseminação da Covid-19]", lembra. "Então começamos registrar as pessoas que não conseguiam buscar medicação e a gente dava um jeito de buscar."

Apesar de não haver cura para o HIV, os medicamentos antirretrovirais são capazes de controlar o vírus até deixar a carga viral indetectável no sangue.

Fabrício conta que com o nome e alguns poucos dados em mãos é possível retirar a medicação pelo paciente. Depois de três semanas, no entanto, o sistema se mostrou inviável. E nasceu a parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, que dura até hoje.

"Era muita gente, tudo muito longe. Conversamos com a Secretaria, abrimos uma planilha compartilhada com eles e, ali, cadastramos as pessoas que nos procuram e agora a prefeitura leva o remédio até a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) mais perto delas", explica o ativista.

Mesmo depois que o poder público entrou na força-tarefa, no entanto, o caminho do remédio até o paciente ainda depende muito do grupo. Cabe a Fabrício e outras duas pessoas receber pedidos de remédio pelo WhatsApp, em seus telefones pessoais, a qualquer hora do dia, e inserir os nomes na planilha.

"Foi feita uma campanha de divulgação, disponibilizamos nossos números. A gente faz o preenchimento da planilha, colocando lá nome completo, CPF, data que entrou em contato, a unidade em que costumava retirar os remédios, endereço. O profissional da farmácia da policlínica [unidade na região central onde há medicamentos] acessa a tabela, checa se a receita está em dia, separa o medicamento e, duas vezes por semana, um carro da secretaria leva até posto de saúde mais próximo."

Ele conta que sua vida parou, e ele se dedica a causa 24 horas por dia. "De uns dias para cá, deu uma diminuída, está voltando ao normal. Mas quando nossos números chegam até os pacientes, eles entram em contato meia-noite, 6h, o dia todo, porque estão desesperados sem medicação", conta.

Ativistas do Acontece e do GAPA distribuem cestas básicas a pessoas LGBTs em situação vulnerável durante a pandemia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ativistas do Acontece e do GAPA distribuem cestas básicas a pessoas LGBTs em situação vulnerável durante a pandemia
Imagem: Arquivo pessoal

Até quarta-feira, o sistema contava com 400 pessoas cadastradas só na capital catarinense, mas Fabrício conta que foi procurado por pessoas de municípios vizinhos, como Palhoça, Santo Amaro e Santa Bárbara Imperatriz. "Nesses casos, fomos atrás da prefeitura ou da secretaria dessas cidades e conseguimos que alguém se responsabilizasse por fazer a medicação chegar aos pacientes."

Mesmo assim, das mais de 400 pessoas cadastradas, pelo menos 50 chegaram a passar muito tempo sem tomar os ARVs, seja porque a receita não estava em dia e demorou para ser regularizada, seja por que não conhecia a possibilidade de acionar as ONGs. Há casos de pessoas que passaram três semanas sem tratamento.

A dificuldade é maior ainda para quem vive na região metropolitana, mas faz tratamento em Florianópolis: Fabrício conta que algumas puderam arcar com o Uber de uma cidade para outra, já que o transporte intermunicipal também foi interrompido, mas que há casos de pessoas que fizeram o trajeto a pé, durante três horas, para buscar o remédio.

Outro lado

À Universa, a prefeitura de Florianópolis confirmou que a distribuição de medicamentos das policlínicas Norte e Sul, que passam por reforma, foram realocados para as policlínicas Centro e Continente, que ficam em regiões distantes da cidade.

A prefeitura disse que a capital catarinense não sofreu desabastecimento de ARVs, mas que cerca de 200 pessoas deixaram de retirar a medicação desde o começo da pandemia de coronavírus. "O número de pessoas que deixa de fazer o tratamento para HIV não é indicativo unicamente da pandemia do novo coronavírus. Outros fatores como vergonha, medo e outros estigmas pessoais e sociais também são motivos para o abandono", escreveu o órgão, em nota enviada à reportagem.

Por fim, a gestão municipal confirma que recebeu relatos de pessoas com dificuldade de buscar os medicamentos e que trabalha em parceria com ONGs para distribuir os insumos. A prefeitura confirma que, até o momento, fez com que os remédios chegassem a 398 pessoas.

A Policlínica Centro é um dos dois únicos pontos da capital catarinense onde os medicamentos são distrubuídos - Reprodução/Google Maps - Reprodução/Google Maps
A Policlínica Centro é um dos dois únicos pontos da capital catarinense onde os medicamentos são distrubuídos
Imagem: Reprodução/Google Maps

Desde o início da pandemia de coronavírus, o ministério demonstra preocupação com o curso do tratamento para doenças como diabetes, câncer e deficiências motoras. Mas coube à OMS (Organização Mundial da Saúde) e à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) alertar especialmente sobre os pacientes com HIV.

Uma pesquisa realizada em julho pelo UNAIDS mostra que, aqui no Brasil, 98,8% das pessoas que fazem tratamento com ARVs continuava usando a medicação, principalmente graças a uma medida que estendeu a receita dos pacientes por mais alguns meses. No entanto, 62,7% das 800 pessoas que responderam à pesquisa tiveram algum serviço de saúde remarcado ou cancelado por conta da pandemia.

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