Paulo Chaccur

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Reportagem

O perigoso avanço da hipertensão: o que podemos fazer para virar esse jogo?

Para grande parte das pessoas, ela chega de mansinho, sem dar qualquer sinal e, muitas vezes, leva anos para ser descoberta, até que provoque um evento sério, como um infarto do miocárdio ou AVC.

A hipertensão arterial ou pressão alta é uma doença silenciosa, perigosa e sem cura, que tem avançado de forma alarmante.

Segundo o Relatório Global sobre Hipertensão, divulgado pela OMS em setembro deste ano, a doença afeta um em cada três adultos no mundo. No Brasil, são cerca de 50,7 milhões de hipertensos na faixa entre 30 e 79 anos.

O cenário é ainda mais preocupante quando falamos de mortalidade: em dez anos, o aumento no número de mortes provocadas pela hipertensão no país foi de 72%, de acordo com os dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde (em 2011 foram 23.233; em 2021, os registros apontam 39.964 casos). E esses números podem ser ainda maiores, uma vez que levam em conta apenas o que está escrito na declaração de óbito.

Primeiro desafio: lidar com um mal silencioso

A fim de conter esse crescimento, é preciso vencer alguns desafios que envolvem a doença. Para começar, devemos ter consciência de que a pressão alta raramente provoca sintomas: estima-se que apenas 10% dos hipertensos apresentem sinais. Aspecto que acaba gerando o diagnóstico tardio e uma baixa adesão da população ao tratamento.

Para dimensionar a gravidade, o levantamento da ONU aponta que atualmente quase metade das pessoas com pressão alta em todo o mundo desconhece a sua condição.

Entre as consequências, os dados revelam que quatro em cada cinco pessoas que sofrem com a pressão alta não são tratadas corretamente. Assim, boa parte desses indivíduos só descobre o problema quando ocorre um evento de saúde grave, algumas vezes fatal.

Segundo desafio: esclarecer a gravidade da doença

Muitos pacientes não levam a pressão alta tão a sério como deveriam, ignorando seus efeitos devastadores. Em parte, isso se dá especialmente em decorrência da falta de sintomas e de um impacto imediato da hipertensão na saúde.

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Como o indivíduo diagnosticado não sente nada, não tem nenhum desconforto ou limitação, tende a negligenciar os cuidados, adiando ou mesmo não dando a devida urgência e importância a eles. É como se só conseguisse efetivamente dimensionar a doença com a chegada de suas complicações.

Os sucessivos aumentos registrados no número de casos também podem ser relacionados à falta de acesso a informação precisa e clara e aos serviços de saúde e medicamentos, o que aumenta a vulnerabilidade das pessoas a eventos provocados por uma pressão não controlada.

Terceiro desafio: mudanças permanentes no estilo de vida

Apesar da pressão alta ter forte relação com fatores genéticos e até com o envelhecimento, costumes e comportamentos mantidos ao longo da vida contribuem de maneira significativa para o surgimento ou a evolução da doença.

A hipertensão está associada assim a uma série de fatores de risco modificáveis, ou seja, que podem alterados. No entanto, eles precisam de atenção permanente.

O consumo excessivo de sal e uma má alimentação (baseada em alimentos processados ou ultraprocessados, ricos em açúcar, gorduras saturada e trans e com baixa ingestão de frutas e vegetais), o hábito de fumar (inclusive cigarro eletrônico) e de ingerir bebidas alcoólicas são atitudes que, aliadas à falta de exercícios físicos, potencializam os riscos da condição.

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Somado a eles, temos outros aspectos (inclusive presentes hoje na nossa sociedade como pontos de atenção) que também influenciam e elevam as chances do surgimento ou agravamento da hipertensão, como estresse, distúrbios do sono, sobrepeso e obesidade, quadros de pré-diabetes e diabetes.

O que caracteriza um quadro de pressão alta?

Resumidamente, trata-se de uma condição crônica caracterizada pelo aumento dos níveis da pressão sanguínea nas artérias —pressão máxima (sistólica/contração do coração) ou mínima (diastólica/relaxamento entre um batimento cardíaco e outro).

Uma pressão considerada normal tem máxima de 12 e mínima de 8 (120 x 80 mmHg).

Quadros de pré-hipertensão são definidos por uma pressão sistólica entre 130 e 139 mmHg e diastólica entre 85 e 89 mmHg.

O diagnóstico de hipertensão é dado quando os números chegam e permanecem em 14 por 9 ou mais (140 x 90 mm Hg).

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Consequências no organismo

Quando isso ocorre, o coração precisa trabalhar mais e realizar um esforço maior do que o habitual para bombear e distribuir o sangue pelo corpo, que passa então a circular com velocidade e força além das que seriam recomendáveis.

E aí, os danos são perigosos caso os níveis não sejam controlados. À medida que a pressão aumenta, crescem os riscos à saúde.

A hipertensão desencadeia, por exemplo, lesões na camada interna das artérias (o endotélio), o que pode levar à sua ruptura, induzindo a formação da doença obstrutiva das artérias coronárias e das artérias periféricas, responsáveis pelo infarto e AVC.

Entre as complicações, podemos destacar também:

  • hipertrofia do ventrículo esquerdo, quadro que pode evoluir para uma insuficiência cardíaca e arritmias;
  • dilatação da aorta, causando o aparecimento de aneurismas
  • isso sem falar das consequências em outros órgãos vitais, como os rins (provocando, por exemplo, a doença renal crônica e insuficiência renal)
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Quando há sintomas...

Os sinais geralmente se manifestam quando há um pico de pressão alta. Entre eles, estão: dores de cabeça frequentes e intensas, dores na nuca e no peito, tontura, falta de ar ou dificuldade para respirar, palpitações, fraqueza e cansaço repentino, náusea, vômito, visão embaçada ou outras alterações visuais, confusão, zumbido nos ouvidos, sangramento nasal e ritmo cardíaco anormal.

Você sabe qual é a sua pressão? Qual foi a última vez que mediu?

No caso da pressão arterial, é essencial ter em mente que precisamos monitorar os níveis com regularidade. Isso quer dizer, no mínimo, uma vez ao ano, e com um profissional de saúde. Embora as pessoas possam medir sua própria pressão usando dispositivos automatizados, um especialista irá avaliar individualmente os riscos e as condições associadas.

Para aqueles que já têm o diagnóstico de pré-hipertensão ou hipertensão, a frequência de aferições é diferente e varia de acordo com a necessidade de cada um, sendo estabelecida pelo médico que acompanha o caso.

Entretanto, para mudarmos o cenário atual é essencial que todos tenham conhecimento de seus níveis de pressão. Essa é a única maneira de descobrir a doença.

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E quanto mais cedo se identifica uma alteração leve, mais fácil fica fazer um tratamento eficiente e que proteja das complicações.

A recomendação é que a partir de 3 anos as crianças façam a medição da pressão arterial com regularidade nas consultas médicas.

Abaixo dessa idade, a pressão deve ser aferida quando existir predisposição ou houver suspeita. Filhos de pais hipertensos precisam ter cuidados redobrados.

Ações de prevenção, tratamento e cuidados

A hipertensão arterial não tem cura, entretanto, com o tratamento adequado pode ser controlada. Os cuidados, como vimos, passam pela adoção de hábitos saudáveis e, em alguns casos, pelo uso contínuo de medicamentos.

Sem proatividade, a doença vai continuar a apresentar números crescentes nos próximos anos. O relatório da ONU aponta que o aumento de pacientes efetivamente tratados poderia evitar 76 milhões de mortes, 120 milhões de AVCs, 79 milhões de ataques cardíacos e 17 milhões de casos de insuficiência cardíaca até 2050.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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