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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Onde está ômicron? Por que poderemos viver melhor sabendo essa resposta

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

02/12/2021 04h00

Em um cenário lotado de coronavírus, como achar justo aquele de que ninguém para de falar há uma semana?

Não deixa de ser um sonho lindo a ideia de fazer uma vigilância genômica, realizando exames de sequenciamento nas amostras de todo mundo que está infectado para, ao escrutinar o material genético do vírus, apontar quem tem ômicron e quem não tem. Até a gente cair na real e descobrir que, na prática, esse tipo de solução se torna um tanto inviável. Desespero, porém, é uma palavra com efeito de gás paralisante que precisamos, neste momento, riscar do vocabulário.

Até porque, feito o famoso Wally, criação do ilustrador britânico Martin Handford, ômicron também tem o seu "gorro" e uma "camisa com listras vermelhas" — que, no fundo, no fundo é o que os nossos olhos buscam para localizar o personagem nas páginas de seus livros.

Ômicron, no caso, jogou fora dois trios de letras entre as 30 mil que compõem o seu código genético. Simplesmente deletou essas seis letrinhas vizinhas, sem mais, nem menos. E esse espaço em branco acaba sendo uma marca típica que facilitará a sua localização entre nós, o que é pra lá de precioso nesta altura do jogo.

Afinal, saber onde está a nova variante nos dará a oportunidade de ganhar tempo para, em mais alguns lances da ciência, acuar de alguma maneira esse vírus. É disso que precisamos: de um pouco mais de tempo.

O sequenciamento genético

"É em um resultado anômalo do exame de PCR que precisamos ficar de olho", me deu a pista o virologista José Eduardo Levi, quando eu conversei com ele para o texto da coluna passada, que falava da chegada de ômicron. Mas o cientista já estava dentro de um avião que o levaria para Recife e logo veio a aeromoça cobrando o cinto afivelado e o fim do nosso papo.

Eu precisava entender essa história de um resultado diferente de PCR e voltei então a procurar Levi, que lidera a área de pesquisa e desenvolvimento da Dasa, rede de saúde integrada que reúne laboratórios de análises clínicas por todo o país. Lá, ele também conduz o Genov, um projeto de vigilância genômica.

"Vigilância genômica é algo caro e demorado", Levi explica. "Pense que estamos vivendo a melhor fase da pandemia e mesmo assim, ainda temos no Brasil 10 mil novos diagnósticos de covid-19 por dia, ou seja, são 300 mil casos por mês! Quem conseguiria sequenciar isso tudo? Ninguém."

Sequenciar os genes do Sars-CoV 2 para saber com qual cepa as pessoas infectadas estão é algo que deveria ser feito quando se percebe alguma coisa diferente no ar. Foi assim na África do Sul. Lá, os cientistas notaram que, nos arredores de Pretória, a capital administrativa do país, onde até então pingavam poucos diagnósticos de covid-19, de repente houve um salto. De uma semana para outra, aconteceram mais de 200 casos.

"Esse foi o alarme para fazerem o sequenciamento genético, querendo entender o que estava por trás. Daí, eles se depararam com essa aberração que é ômicron", diz Levi. Entendo por que chamar a nova cepa de aberração. A cada variante, o Sars-CoV 2 vinha apresentando quatro, cinco, seis mutações na proteína S. Ninguém imaginaria, até quinta-feira passada, esse vírus trazendo 32 novidades nos genes da proteína-chave que ele usa para entrar em nossas células.

Os 200 casos logo viraram mais de 2 mil só naquela região sul-africana. Foi feito então mais um sequenciamento. "Mas não de todos os pacientes. O programa de vigilância genômica deles, que sempre foi considerado exemplar, tem capacidade para sequenciar apenas umas 500 amostras por mês", conta Levi, para nos dar uma ideia.

Todos os indivíduos da segunda amostragem tinham sido infectados por ômicron, sim. Mas o curioso: em 95% dos casos, os exames encontraram o que os cientistas chamam de "S dropout", um pedaço da proteína S que, como o termo em inglês acusa, tinha caído fora. "E isso pode ser uma tremenda oportunidade", afirma Levi.

Um teste de PCR com um resultado positivo esquisito

Segundo o virologista, os testes de PCR, que continuam sendo o padrão-ouro para a gente descobrir se está ou se não está com a covid-19, usam determinados reagentes. Estes, por sua vez, focam em trechos diversos da fita com as informações genéticas do vírus.

Um desses reagentes — o da empresa americana Thermo Fisher —, por sorte tem três alvos diferentes. Aí é que está: um desses alvos seria bem no ponto que ômicron deletou. "Por isso, quando vamos ver o resultado, é como se o PCR acusasse positivo no primeiro alvo, positivo no segundo alvo também e, finalmente, negativo no terceiro", descreve Levi. O paciente, claro, nem fica sabendo do detalhe. Afinal, o positivo em dois dos três alvos já confirma que ele está com a covid-19.

No entanto, até o surgimento de ômicron, os cientistas sabiam que esse resultado anômalo indicava a variante alfa, aquela que já foi chamada de britânica. Porque alfa tem a mesmíssima deleção encontrada na cepa de agora.

"Foi assim que o Reino Unido mapeou onde estava aquela variante, fazendo o sequenciamento apenas das amostras em que o PCR dava positivo em dois de três alvos", lembra Levi. Seria o pulo do gato para não sair sequenciando à toa.

No Brasil, o virologista informa que a Dasa é o único laboratório que usa esse reagente em larga escala. Nesta semana, a rede foi procurada por iniciativas de combate ao coronavírus, como a Todos Pela Saúde, para que inicie uma verdadeira caçada à variante ômicron.

Na busca da nova variante

Levi já pediu que fossem reexaminadas as mais de 38 mil amostras que chegaram aos laboratórios da rede para o teste de PCR no mês de novembro. "Não adiantaria olhar mais para trás", justifica.

Dessas, cerca de 1.700 tiveram resultado positivo e duas, especificamente, apresentaram o tal padrão anômalo. Uma delas era de um paciente contaminado com a variante alfa. "A outra tinha baixa carga viral e, quando é assim, como o sequenciamento é menos sensível do que o PCR, não dá para determinar", esclarece, sem acreditar que já teria sido ômicron.

Daqui em diante, o trabalho continuará nessa toada, fazendo o teste de PCR de amostras de todas as regiões do país com o tal reagente e deixando para sequenciar o genoma apenas daquelas com o resultado anômalo.

Os próximos passos

As amostras positivas serão encaminhadas também para o Instituto Adolfo Lutz, como prevê a lei, e a Vigilância Sanitária será informada. "Ela, então, deverá procurar as pessoas contaminadas por ômicron, orientando o seu isolamento", conta Levi.

Tão importante quanto isso será testar todos aqueles que tiveram contato com quem se infectou. E, sempre diante daquele resultado de PCR diferente, fazer o sequenciamento.

Ora, ômicron já está entre nós. Ingenuidade achar que fechar fronteiras impediria a sua aterrissagem em solo brasileiro. Assim como, encaremos, será missão impossível impedir que se espalhe.

Então, para que todo esse escarcéu para saber onde ômicron está? — talvez você se pergunte. "Para retardar sua disseminação", responde Levi.

Se a gente ganhar tempo...

Primeiro, é óbvio: ganhar tempo é conhecer a fundo ômicron e saber o que esperar dela, em vez de seguir chutando que os casos são leves, isso e mais aquilo.

É também mapear as áreas do país que estão em situação de maior fragilidade por taxas baixas de vacinação. O jeito será redobrar a vigilância nelas. Aliás, ganhar tempo deve ser sinônimo avançar com o programa de vacinação.

"Eventualmente, se os casos de covid-19 causados por ômicron explodirem em determinado município, será possível estudar uma terceira dose da vacina para a sua população", exemplifica Levi.

O tempo extra, segurando a onda de ômicron, servirá ainda para a gente entender, entre os infectados pela nova variante, quem tomou qual vacina — lembrando que o Brasil usou quatro tipos de imunizantes.

Respire fundo, ninguém está dizendo que as vacinas não funcionarão mais. Entenda o seguinte: a proteína S é formada por nada menos do que 1.273 aminoácidos. Só que seu organismo não forma anticorpos para cada um deles e, sim, para alguns que se agrupam no que os cientistas chamam de domínios imunodominantes.

Não se sabe quantos domínios desses o Sars-Cov 2 teria. Se por azar uma das mutações de ômicron ficar bem em um deles, os anticorpos continuarão se encaixando, mas não tão bem como antes, ocorrendo consequentemente uma pequena perda de eficácia. Portanto, saber qual vacina driblará melhor o percalço será bastante útil.

"Outro ponto importante será entender a relação entre essa cepa e a CoronaVac", diz Levi. E logo explica: "É plausível, por usar o Sars-CoV2 inteiro e inativado, que essa vacina possa dar bons resultados diante de uma variante que apresenta tantas mutações."

É esperar para ver. E tentando deter ômicron. A parte da ciência é localizar quem tem essa variante. E a nossa parte é avisar as pessoas e cumprir rigorosamente o isolamento nos casos de infecção, mesmo que assintomáticos.

Se fizermos isso, daremos prazo para que surjam vacinas de segunda geração — elas já estão quase aí e, quem sabe, sejam pan-corona, agindo contra várias cepas. Sem contar novíssimos antivirais orais contra o Sars-CoV 2. Quem, em sã consciência, não toparia se esforçar neste momento para a humanidade ganhar esse tempo?