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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Ômicron: alguns pingos nos 'is' sobre mutações, vacinas, viagens e festas

Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

30/11/2021 04h00

Não é hora de entrar em pânico e achar que aquele carimbo na carteirinha de vacinação não servirá para mais nada ou que voltaremos à estaca zero com a chegada de ômicron, a novíssima cepa do Sars-CoV 2 anunciada por cientistas sul-africanos no final da semana passada e que a OMS (Organização Mundial de Saúde) logo declarou ser uma variante de preocupação.

A razão para você sossegar por enquanto é simples: os primeiríssimos estudos misturando em tubos de ensaio o soro de pessoas vacinadas com amostras de ômicron para ver se os anticorpos induzidos pelos imunizantes conseguem neutralizá-lo começam apenas por estes dias.

E, até que cheguem a qualquer conclusão, dizer que as vacinas continuam funcionando ou não, que são mais ou menos eficazes do que antes, é pura imaginação. Chute.

No entanto, tão precipitado quanto o pessimismo, é acreditar que a pandemia é folha virada, planejar festão, sair sem máscara e, ao ouvir sobre a ameaça potencial de ômicron, para coroar, ficar repetindo com ares de cuca-fresca a história de que essa variante só causaria quadros leves de covid-19. Mais um chute — e este pode render um gol contra. Explico.

Essa informação, propagada depois do relato da doutora Angelique Coetzee, presidente da Associação Médica da África do Sul, é verdadeira. Mas talvez não valha para todo mundo.

Poucos repararam no seguinte: o grupo de pacientes atendidos por ela sentindo um extremo cansaço, que parece ser o sintoma principal da covid-19 causada por ômicron, era formado majoritariamente por universitários. Ali, o paciente mais velho não passava dos 40 anos. Ora, ora...

Pense: o Sars-CoV 2, qualquer que seja a sua cepa, não costuma levar jovens para a UTI com a mesma frequência com que deixa em apuros gente de meia-idade ou idosa, embora sempre existam exceções. Aliás, esse grupo tinha uns 30 infectados e, sendo um número tão tímido, nem as tais exceções ficariam evidentes.

"São quase dois anos de pandemia e as pessoas ainda não aprenderam a parar de alardear como fato consumado o que é incerto", lamenta o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor superintendente do Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, em São Paulo. Tem razão.

Pequeno ou grande, o poder de fogo de ômicron ainda será conhecido. Até lá, sem desespero, só nos resta ficar de olho no gato. E notar, com sabedoria, que ele subiu no telhado.

O que significaria ter tantas mutações

Nesta altura, você já sabe: a nova variante possui mais de 50 modificações em seu genoma em relação ao vírus original, aquele que surgiu na China, em 2019. E se dá ao luxo de concentrar 32 delas na famosa proteína spike, usada para infectar as células. Outras variantes de preocupação têm só quatro, cinco, seis mutações nessa mesma região da spike, se quer saber.

"Isso é muita coisa. Portanto, do ponto de vista molecular, ela é mesmo bem feiinha", avalia o virologista José Eduardo Levi, à frente da área de pesquisa e desenvolvimento da rede de saúde integrada Dasa. Mas há uma esperança: "Nem sempre um número maior de mutações torna um vírus mais agressivo. Às vezes, são tantas que uma acaba interferindo e atrapalhando a outra", ele conta. Tomara.

A grande preocupação é menos com a quantidade impressionante do que com a qualidade das alterações encontradas na nova cepa. "Ômicron pode causar um tremendo problema ao mundo porque traz em seu arcabouço uma seleção daquelas mutações e deleções que mais deram certo em variantes anteriores, somando todas elas de uma vez", explica o virologista Fernando Spilki, professor da Feevale, em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul.

Deleção é quando o vírus, em vez de simplesmente trocar uma das 30 mil letras de seu genoma de lugar, apaga um trechinho desse código genético já que, por algum motivo, ele estava atrapalhando o seu caminho, talvez por facilitar o seu reconhecimento pelos anticorpos. "Ômicron apresenta a mesma deleção que tornou as variantes alfa e gama mais virulentas", exemplifica Spilki.

E por aí vai. Coleciona tudo o que alfa, beta, gama e delta já tinham de melhor — melhor para o vírus, bem entendido — e ainda apresenta outras tantas mutações inéditas que a gente nem sabe onde vão dar. Seria possível arriscar um palpite? É o que pergunto a Spilki.

"Por algumas mutações que já foram muito bem estudadas em variantes anteriores, podemos deduzir que ômicron é mais transmissível", responde o virologista. Provavelmente, enquanto escrevo este texto, ela já colocou mais um alfinete marcando território no mapa-múndi.

Como surgiu uma variante extravagante assim?

Há duas hipóteses. "Uma é a do Sars-CoV 2 ter acelerado demais o seu processo de evolução, tornando-se agora capaz de gerar um número bem maior de mutações em um intervalo relativamente curto", diz Fernando Spilki. Esperamos que não.

"A outra, bastante plausível, é a de o vírus já estar acumulando essas mutações desde meados do ano passado, no ritmo de sempre, bem debaixo do nosso nariz.", completa. Ou seja, ele não ganhou todas essas mutações de um instante para o outro, mas aos poucos, quem sabe até em algum país com menor acesso ao diagnóstico. E a variante só acabou sendo flagrada na África do Sul porque lá existe uma das melhores vigilâncias genômicas do planeta.

"Quando viram os casos de covid-19 voltarem a subir de uma hora para outra na região de Pretória, os cientistas sul-africanos de cara fizeram o sequenciamento genético das amostras de quem estava infectado para descobrir qual vírus estaria por trás", conta José Eduardo Levi, da Dasa. Então, encontraram ômicron. Mais do que fechar aeroportos, imitá-los e fazer o sequenciamento genético sem perda de tempo também será fundamental por aqui.

Aviso aos viajantes

Que ninguém se iluda: fechar as fronteiras para meia-dúzia de países africanos está longe de ser solução. Qualquer pessoa que está na Europa pode carregar o ômicron na volta, por exemplo.

"Daí que, em vez disso, o ideal seria testar todo mundo que chega do exterior, por terra, por mar ou voando, inclusive aqueles não apresentam qualquer sintoma de doença, pois é bem possível que pessoas vacinadas permaneçam assintomáticas e, ainda assim, transmitam a variante", opina Fernando Spilki.

E isso, veja bem, não por ser ômicron. "As vacinas, até o momento, não são esterilizantes", frisa Luiz Vicente Rizzo. Isso significa que quem foi vacinado pega, sim, o vírus — ômicron, delta, gama, a letra grega ou a variante que for — e só não desenvolve a doença, o que já é bárbaro. Mas passa o abacaxi da infecção adiante.

O teste de PCR feito dias dias antes de o sujeito embarcar, lembra o imunologista do Einstein, não oferece segurança absoluta para ninguém. "Primeiro, porque existe uma janela, isto é, um intervalo em que a pessoa pode estar infectada e o exame não flagrar. Mas, principalmente, porque não podemos atestar a qualidade do teste que foi feito no país de origem." Fato.

E, esquecendo o Fla-Flu em que tudo se transforma nestes tempos de pandemia e pandemônio, o passaporte vacinal já deveria ser obrigatório de longa data. Ou, pode apostar, o verão brasileiro irá se tornar o destino favorito justamente de quem não se vacinou e que, por isso mesmo, não conseguiria aterrissar em outro canto. Vamos inventar o turismo viral.

"Sem exigir a vacina, abriremos a porteira para um monte de gente que não se cuida, no sentido de evitar a infecção", prevê Rizzo. "São pessoas que geralmente estão menos preocupadas com segurança, uso de máscara, aglomerações...", nota.

"É muito cedo para dar a volta olímpica"

Foi isso, por sinal, o que ouvi de Rizzo. "Nós, como médicos, temos preocupações diferentes das de gestores, governantes, economistas", me disse ele. "E, do ponto de vista da saúde, não chegou a hora ainda de tirar a máscara, que é chata mesmo, ou de pular Carnaval. E isso, fique claro, mesmo antes de ômicron."

Que hora será essa de flexibilizar as restrições? "Quando pelo menos 80% da população de todo o país estiver vacinada", fala, com segurança. "Para entender por quê, basta a gente olhar para o que está acontecendo na Europa, com taxas de vacinação girando em torno de 60%."

Embora a vacina não seja suficiente para barrar a pandemia, nunca é demais repetir que ela é a melhor arma que temos. "É o que está permitindo nossa volta às ruas, aos escritórios e devolvendo os jovens às salas de aula", enumera o médico.

Em vez de especular se ômicron seria ou não barrada por ela, quem ainda não a tomou ou não completou o esquema vacinal deve correr atrás da injeção.

Aliás, provavelmente, ômicron está se espalhando velozmente nos bolsões em que se encontram pessoas não vacinadas.— sejam aquelas que não tiveram acesso a imunizantes no continente africano e em outros cantos do planeta, sejam os antivax em países com doses dando sopa.

"É um direito individual não se vacinar. Mas é um dever com o coletivo, então, não expor os outros a um vírus capaz de matar 3% das pessoas não vacinadas ou fragilizadas que ele infecta. E o mesmo vale para frequentar festas com mais de dez pessoas no final de ano ou para deixar de usar de máscaras", pensa Rizzo. Não precisamos fazer algo porque foi liberado ou autorizado. A variante ômicron só sublinha uma reflexão, pessoal e intransferível, que já deveria existir antes dela.