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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Entenda as complicações neurológicas que podem aparecer depois da covid-19

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

06/04/2021 04h00

A fadiga que não vai embora, a dor muscular quebrando o corpo, a depressão, a falta de um sono restaurador, as dores de cabeça que lembram uma enxaqueca, a confusão mental, a dificuldade para encontrar a palavra certa ou até mesmo para se lembrar das coisas, sem contar a incapacidade de sentir cheiros ou de reconhecer direito os sabores — boa parte das queixas de quem, um dia, viveu a experiência da covid-19 tem um fundo neurológico. Ou, precisamente, sete dos dez problemas mais frequentes em pacientes acompanhados até 100 dias depois da doença.

O Sars-CoV 2 apronta das suas no cérebro e, de quebra, nos nervos periféricos. Se não causa dano diretamente, o que ele desencadeia no organismo — como os trombos microscópicos e outros fatores atrapalhando a chegada de oxigênio, a invasão de células imunológicas na massa cinzenta e a famosa tempestade de substâncias inflamatórias — completa o serviço.

As necrópsias de pacientes que infelizmente morreram por causa da infecção mostram as marcas de tudo isso acontecendo ao mesmo tempo. "E vale reparar que, no cérebro, o vírus infecta não apenas os neurônios, mas as células da glia", destacou o neurologista Jefferson Becker, professor da Escola de Medicina da PUC do Rio Grande do Sul, durante uma aula ao vivo, na semana passada, a qual ainda pode ser acessada por médicos e outros profissionais de saúde no CAAT, plataforma online dedicada à sua atualização científica.

O neurologista me lembra que alguns vírus conseguem mesmo se intrometer na área nobre do sistema nervoso central, geralmente usando duas rotas: ou o alcançam avançando por um nervo do corpo ou chegam nele pelo sangue.

"O vírus do herpes, assim como o novo coronavírus, pode entrar no cérebro pelo nervo olfatório e, uma vez nele, é capaz de provocar uma encefalite terrível que, se não for tratada, vai destruindo os lobos frontais e os temporais", exemplifica.

Ao menos, o vírus da covid-19 não chega a tanto. Quero dizer, casos de encefalite, convulsões e AVCs no período agudo da doença são raros. Mas que o Sars-CoV 2 pode causar comprometimentos neurológicos tardios, isso ele pode.

Além dos neurônios

A tal glia, afetada pelo novo cornavírus, era apontada como responsável exclusivamente por dar suporte aos neurônios cerebrais, formando uma rede de sustentação. Hoje se sabe que faz muito mais.

Os astrócitos, por exemplo, que são uma de suas células, ajudam a criar a chamada barreira hematoencefálica, escudo ao redor do cérebro com a função de impedir que toda e qualquer substância entre nele. Mas o que se vê na covid-19 é justamente a destruição de partes desse bloqueio, abrindo brechas para que o sistema nervoso central vire uma casa-da-mãe-Joana.

Há, ainda na glia, células que formam a mielina, a capa esbranquiçada e gordurosa dos neurônios, sem a qual eles mal e mal transmitem os seus sinais. Sem contar as microglias, que são quase uma defesa particular.

Por fim, o professor Becker me conta que os neurocientistas achavam que o cérebro não tinha sistema linfático para varrer suas toxinas e agora reconhecem que ele tem, sim. E é conhecido por sistema glinfático, porque envolve, de novo, a bendita glia.

Surge a especulação de que as dores de cabeça, pulsando ao redor das órbitas e atormentando 25% dos pacientes depois da infecção — incluindo aqueles que até então nunca tinham sofrido de uma única crise de enxaqueca na vida —, teriam a ver com um sistema glinfático que não estaria drenando direito aquilo que precisaria ir embora.

O mesmo se fala da profunda fadiga relatada por quase 70% das pessoas que tiveram a covid-19 — ela seria mais uma consequência de uma suposta disfunção do sistema glinfático. "Mas isso tudo, fique claro, é apenas uma teoria", lembra o professor.

O neurologista faz uma comparação com o futebol. "Eu diria que os neurônios são o Pelé, enquanto as células da glia são os outros jogadores. Mas aí é que está: sem o time completo, fica difícil fazer qualquer jogada", diz. Logo, entenda: a covid-19 prejudicaria a equipe cerebral inteira.

A fraqueza e as dores musculares

As fibras dos músculos sofrem um bocado também. "Elas podem ser infectadas pelo próprio vírus", diz o professor Becker. "Ou, ainda, os músculos podem ser alvos indiretos de toxinas virais e de substâncias inflamatórias presentes organismo."

Por sorte, um terço dessas miopatias não manifestam sintomas. Os médicos só as descobrem por alterações em enzimas no sangue, as quais entregam que os músculos ainda padecem, à sua maneira, da covid. Já quando a musculatura resolve arder — e ninguém sabe ao certo por que uns ficam doloridos e outros, não — , o corpo é capaz de passar meses moído, como se tivesse sido atropelado pelo coronavírus.

Alguns estudos associam o aparecimento dessas miopatias a maiores dificuldades cognitivas após a doença. Mas pense: o elo talvez seja o simples fato de que ambas as condições poderiam ser resultado de muito tempo internado, com uma quantidade gigante de medicamentos fortes e dificuldade para respirar.

Chama a atenção, ainda, uma condição que agora se torna absurdamente comum, devido ao altíssimo número de gente com quadros graves e hospitalizada: a polineuropatia do doente crítico, uma desordem que acarreta em fraqueza extrema e generalizada, muitas vezes apresentando atrofias musculares. Trata-se, claro, de algo bem mais complicado.

"Ela tem a ver com o período prolongado na UTI e com a necessidade de ventilação mecânica", nota o neurologista. Daí que podemos prever uma multidão precisando passar por reabilitação — aliás, nem é mais previsão e, sim, dado de realidade.

Sinto muito: não podemos nos esquecer das lesões do plexo braquial, um emaranhado de cinco raízes nervosas na região da clavícula. Essas lesões infelizmente aparecem em até 40% dos sujeitos com a tal polineuropatia do doente crítico, deixando um braço fraco, quase sem movimento ou completamente solto e atrofiado.

"Antes, a gente só via isso em jovens, em geral homens, após acidentes de moto que faziam esses nervos se estirarem, às vezes ficando rasgados por dentro", recorda o professor. "A suspeita, agora, é que esse tipo de lesão esteja ocorrendo por causa da posição de bruços, na qual os pacientes com covid-19 internados na UTI precisam ficar", diz o neurologista. "Ela faria uma compressão nesses nervos."

Se for isso mesmo, isto é, o resultado de uma espécie de apertão constante no plexo braquial, a fraqueza do braço pode consequência de uma perda da capa de mielina nesses nervos. E essa capa talvez, se recomponha um dia. Tomara que a hipótese se confirme. "Ninguém sabe porque nunca se viu tanta gente de bruços em UTIs por tanto tempo para saber no que vai dar", afirma o professor.

Atenção, memória e cognição

Do mesmo modo, difícil saber se as queixas de dificuldade de fluência verbal, de foco e de memorização seriam causadas por danos neurológicos ou por toda ansiedade e depressão que parecem rondar quem teve quadros mais complicados de covid-19.

"O que se tem certeza é de que a região cerebral do hipocampo é particularmente afetada pelo vírus", conta o neurologista. "E, como o hipocampo é a sede da memória, isso leva à hipótese de que, passada a pandemia, teremos mais casos de doenças como o Alzheimer."

Só não dá para fazer esse tipo de afirmação como se fosse uma verdade absoluta. É apenas uma hipótese, vale reforçar. Até porque existem casos — como o de pessoas que eram dependentes de álcool e que se recuperam do problema — em que os cientistas observam uma regeneração de um hipocampo que andava até atrofiado. Teremos de esperar para ver no que vai dar isso também.

Nesse meio-tempo, o professor Becker descartaria qualquer medicação para ajudar pessoas que reclamam por não se lembrarem direito de tudo após a infecção pelo Sars-CoV 2. "A eficácia desses medicamentos para a memória sempre foi muito questionável", justifica em tom franco.

Já para os pacientes que se sentem menos focados, ele comenta que alguns especialistas vêm indicando, com algum sucesso, remédios consagrados para tratar o déficit de atenção.

Vale então procurar um neurologista ou neuropsicólogo? "Só se a falta de atenção ou os apagões na memória incomodarem demais", responde. "Afinal, há pouco o que fazer, a não ser talvez pedir uma ressonância para ver se não há danos aparentes", diz Becker. É tudo tão novo — e espantoso — que o jeito é aguardar para ver o que tem volta, usando a cabeça para se cuidar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL