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Blog da Lúcia Helena

Vitamina D e saúde do coração: será que precisamos de tanto suplemento?

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Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

22/10/2020 04h00

Quando a gente escuta tudo o que a vitamina D pode fazer pelo organismo, inclusive mandando o risco de doenças graves feito o câncer e a depressão para bem longe, costumo brincar que dá até vontade de pingar o suplemento diretamente no filtro de beber água e na xícara do café da manhã.

Não seria diferente depois de assistir à aula da geriatra Ana Beatriz di Tommaso durante a primeira edição do Diacordis, evento digital reunindo mais de 3,2 mil de seus colegas para interligar as novidades da endocrinologia com as últimas da cardiologia, colocando assim as glândulas e a saúde cardiovascular na mesma linha.

Médica do Ambulatório de Longevos da Universidade Federal de São Paulo, Ana Beatriz estava ali justamente para explicar por que o coração de quem tem níveis baixos de vitamina D no sangue parece sofrer mais.

"Desde 2016, 2017, surgem trabalhos científicos bem feitos, com um bom número de pessoas, mostrando basicamente que quem tem quantidades ideais de vitamina D no organismo corre menos risco de ser surpreendido por problemas cardiovasculares e, se por azar eles acontecem, essas pessoas têm maiores chances de ficarem bem depois dessa experiência", resume.

O próprio estudo de Framingham aponta nessa direção — se não o conhece, esse é um clássico da Medicina, que acompanha desde 1948 a quantas anda o coração de habitantes da cidade americana com o mesmo nome. O trabalho já está na terceira geração de participantes. Pois bem: segundo os dados do Framingham, ter menos do que 15 nanogramas de vitamina D por decilitro de sangue é sinal de encrenca. Ou melhor, sinal de que a ameaça de o coração lhe dar uma má surpresa nos próximos cinco anos é grande.

Esse achado, por sua vez, está completamente alinhado com um recente estudo do NIH americano (National Institutes of Health), afirmando que pouca vitamina D no corpo significaria uma tendência maior a problemas nas coronárias.

"Tudo isso é muito novo e estamos apenas começando a entender mais minuciosamente as ações da vitamina D pelo corpo", disse a médica em sua apresentação. Mas ela está longe de endossar a minha ideia maluca de usar suplemento na água de beber — nem de brincadeira! — só para garantir nossa dose do micronutriente, presente em alguns alimentos e que a nossa própria pele sintetiza ao tomar banho de sol.

"Devemos esperar alguns anos ainda para saber se, prescrevendo vitamina D a alguns pacientes, estaremos de fato prevenindo as doenças do coração", diz ela. "Até porque, quando eu encontro alguém com níveis adequados dessa substância na circulação, isso de cara tem alguns significados. Eu sei, por exemplo, que estou diante de um indivíduo que se alimenta melhor, que provavelmente faz mais atividade física ao ar livre e que, inclusive por causa desse exercício, consegue dormir direito."

Esses são três ingredientes — a dieta equilibrada, a atividade física e o sono — realmente capazes de afastar o risco de problemas o infarto. Ninguém discute. "E, nesse sentido, a vitamina D seria o que nós, médicos, chamamos de marcador", explica a geriatra.

Ou seja, se ela está ali em uma dosagem razoável, tudo indica que o paciente tem esse trio no seu dia a dia. Portanto, onde a doutora Ana Beatriz quer chegar: talvez não adiante engolir um comprimido e se dar por satisfeito, com o coração batendo de felicidade por se sentir protegido. Não bastaria o suplemento goela adentro sem toda uma mudança no estilo de vida. A vitamina seria o laço de um pacote completo.

Sabe aquela história do que vem primeiro, o biscoito que vende mais por estar fresquinho ou o biscoito que está sempre fresquinho por vender mais? Pois, aqui também, é um pouco isso. Ninguém pode afirmar se o que vem primeiro é a vitamina D em si ou os comportamentos saudáveis que levam o seu organismo a ter um aporte mais farto do nutriente.

Então, segure o ímpeto de ir até a farmácia mais próxima para comprar o suplemento. Segundo a doutora Ana Beatriz, ele nem é necessário para todo mundo. Aliás, nem sequer dosar a vitamina D no sangue é algo importante para qualquer um — embora essa seja uma das ondas nos consultórios quando você vai atrás de prevenção. Alerta de spoiler: o resultado do exame costuma ser baixo na maioria das pessoas, inclusive no ensolarado Brasil. E tem gente se preocupando demais com isso à toa.

Por que a vitamina protegeria o coração

Uma das razões por que surgem trabalhos a cada semana mostrando novas funções da vitamina D da cabeça aos pés é simples: existem receptores para a sua molécula em uma quantidade enorme de órgãos do corpo humano. Digamos que esses tecidos têm a fechadura onde a chave do nutriente se encaixa. Se, modo de dizer, ele abrirá uma porta capaz de nos levar a algum canto interessante é outra história que a ciência tenta compreender.

Em relação à saúde cardiovascular, porém, já se sabe que a vitamina D age no endotélio, a finíssima camada que reveste os vasos sanguíneos por dentro. "Ali, a presença da sua molécula diminui a inflamação", explica Ana Beatriz di Tommaso.

A vitamina D parece agir também diretamente no miocárdio, que seria o músculo cardíaco. "Quando você tem níveis adequados dela, há uma melhor remodelação, caso o coração sofra alguma agressão", diz a médica. Remodelação seria o conjunto de alterações para se recuperar do baque de um infarto, por exemplo. Ou seja, voltamos àquele papo: as chances de sair você se sair bem desse sufoco aumentam com a vitamina D.

A geriatra lembra ainda que o micro-nutriente é fundamental para a imunidade inata, isto é, para a ação ligeira de células imunológicas que estão de sentinela na boca, no nariz, em todo o percurso das vias aéreas superiores, a fim de dar cabo de intrusos. O que isso tem a ver com o coração? Tudo. "Toda infecção respiratória provoca um aumento do estado inflamatório no organismo e isso não faz nada bem ao peito", justifica a doutora.

Finalmente, não há pingo de dúvida de que a vitamina D é essencial para a saúde de músculos e ossos. "Os dois vêm do mesmo tecido embrionário", conta a médica. É fácil entender a parceria: sem uma boa massa muscular, a pessoa não terá força para muito exercício. E, sem se exercitar, terminará com os ossos fragilizados. Pois saiba: osteoporose ou até mesmo a osteopenia, que o seu estágio anterior, colocam o seu coração em perigo. O cálcio perdido pelo esqueleto pode se depositar nos vasos. Seria o início de placas endurecidas ou ateromas.

Vai de sol ou de alimentação?

"O sol capaz de assegurar uma boa síntese de vitamina D na pele não é aquele do início da manhã, nem o do final da tarde, que ofereceria menos riscos à saúde", avisa a doutora Ana Beatriz. E nem adianta passar filtro, diz ela. Ao bloquear os raios UVB, o filtro também atrapalha a produção natural do nutriente. Impasse.

O jeito é contornar essa dificuldade à mesa. Consuma ovos, carnes, leite e seus derivados, além de pescados, especialmente aqueles que são ricos em ácidos-graxos ômega-3, como o salmão. Ainda assim é desafiador conseguir toda a vitamina D de que a gente precisa só por meio da dieta.

Portanto, a resposta mais segura seria: apostar tanto no sol nosso de cada dia quanto na boa alimentação. "Já fico feliz quando encontro pessoas com mais de 20 nanogramas de vitamina D por decilitro de sangue, mas o ideal mesmo seria superar os 30 nanogramas no mesmo volume", afirma Ana Beatriz. Pergunto: e quando não se chega lá?

Não é todo mundo que precisa dosar. Nem suplementar.

A vitamina D não é a solução para os problemas da humanidade. E, apesar de seus inúmeros benefícios, não é todo mundo que precisa sair do consultório médico para o laboratório de análises a fim de saber a sua dosagem, para justificar um eventual problema de saúde. Aliás, provavelmente essa dosagem estará baixa e então a tal vitamina será usada como pode expiatório.

Se não for nada assustador, como abaixo de 15 ou 10 nanogramas por decilitro, pode não ser caso de suplementação. "Ou, pelo menos, pode não ser caso do que seria chamado de dose de ataque — algo como dar comprimidos com 50.000 UI, ou unidades internacionais, de vitamina D para quem está à beira do nível ideal da substância. Infelizmente é o que a gente mais vê por aí."

A geriatra lamenta não só pelo risco de hipervitaminose — sim, a vitamina D pode se acumular na gordura do seu corpo e daí fazer mal —, mas porque, na sua opinião, esse dinheiro seria bem investido se ajudasse você a pagar uma academia, por exemplo. Ou se fosse consumido em alimentos saudáveis. É a tal história do estilo de vida que não se encontra à venda na farmácia.

Quem realmente precisa ficar de olho

Na opinião da médica, apenas determinados grupos precisam ficar ligados na dosagem de vitamina D. O primeiro deles, claro, é o das pessoas com osteoporose ou osteopenia e, ainda, o de quem perdeu massa muscular, sofrendo da chamada sarcopenia.

Também vale acompanhar a dosagem de vitamina D de quem vive sofrendo quedas. Por causa das fraturas que esses tombos originam? Nada disso.: "Existem receptores musculares para essa vitamina que melhoram o equilíbrio", informa a geriatra. Portanto, em casos assim a suplementação é capaz de evitar uma vida cheia de tropeços.

Gestantes entram na lista, o que faz total sentido: formar os ossos do bebê pode significar tirar do seu esqueleto materno o cálcio necessário ao filho. E é a vitamina D que vai ajudar — na gestante ou em qualquer um de nós — o mineral reposto a ir parar no endereço certo. Quero dizer, no osso.

A turma que faz dietas restritivas é outra para ficar no pé. "Se a gente reparar, nos países mais longevos, como a Itália, a Espanha ou a Suíça, ninguém lá faz tanta dieta lac-free", exemplifica Ana Beatriz. "Essa e outras restrições à mesa terão consequências catastróficas para o envelhecimento", prevê. E a falta de vitamina D causará parte delas.

Também é importante acompanhar pessoas vítimas da síndrome da fragilidade, condição de saúde conhecida há menos de vinte anos. "É aquele paciente que escorre pelas nossas mãos", descreve. "Vive cansado, mas os exames do coração parecem bons. Sente faltar o fôlego, mas os testes de capacidade respiratória não contam nada muito diferente. O sangue também parece ok, mas ele emagrece...".

Por trás disso está uma inflamação daquelas, que a vitamina D ajudaria a aliviar. "Envelhecer é sempre inflamar-se. Mas envelhecer mal ou ter a síndrome da fragilidade é se inflamar excessivamente", diferencia. E, ao que tudo indica, não vai demorar muito para essa lista de pessoas que precisam ficar ligadas na sua vitamina D incluir quem tem problemas no coração.

Se for realmente o caso de suplementar, ficam duas dicas finais: a absorção da substância pode ser muito irregular em idosos, quando eles tomam a versão semanal da medicação. Aí, mais vale continuar com o esquema antigo e engolir suplemento todo dia.

Mais: não tome a versão em gotinhas pingando-as no copo ou na colher. "Por ser oleosa, ela sempre vai aderir um pouco na superfície e você não estará consumindo a quantidade prescrita", ensina a doutora. A saída, se preferir as tais gotas, será usar o suplemento feito azeite, na torrada ou no pão, para não perder nadinha. Mas lembre-se que, depois disso, o melhor mesmo é sair: seu coração precisa sentir o calor do sol.

Errata: o texto foi atualizado
A versão anterior deste texto trazia a informação de que a chamada dose de ataque ocorre com 50 (UI) unidades internacionais de vitamina D para quem está à beira do nível ideal da substância. O correto é 50.000. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL