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O que a minha caxumba tem a ver com o uso de máscaras e com a sua vida

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

29/09/2020 04h00

Da metade para o final da semana passada, começou. Eu, que pareço ter cafeína correndo nas veias, fiquei completamente borocoxô. Insisti nas tarefas, mas o cansaço era palpável. Ele doía nos ossos e a cabeça era puro torpor. Não, até então não tinha febre, apenas sentia a quebradeira. Daí, entreguei essa fatura ao excesso de trabalho.

Um ou dois dias depois, a filha passou pelo cantinho do home-office distraída e parou com expressão de estranheza: "O que aconteceu com o seu rosto que está inchado?". Juntei tudo no mesmo pacote e atribuí a cara de bolacha ao tal cansaço, aquele que ardia em meus ossos e que, talvez injuriado com o meu desdém, resolveu ficar na cara.

Até que no sábado, quando esqueci a dieta com uma colherada de pudim, senti a fisgada, feito uma cãibra na bochecha. Ok, não é certo eu falar em cãibra. É trismo que falam os médicos, o nome cientificamente correto de uma contração pavorosa nos músculos da mastigação. Num átimo, a mão alcançou a região torturada no pescoço e lá estava, feito uma sombra do meu brinco, uma bolinha macia e dolorida, do tamanho de uma daquelas de gude. E que não tardou a ser comparável com uma de pingue-pongue, irradiando o penar pela minha face sem dó nem piedade. Naquela mesma noite, garanto, ela já merecia promoção a bola de tênis. Avermelhada e quente.

No pronto-socorro, o ultrassom visualizou a parótida do lado direito quase três vezes maior do que a sua gêmea no lado esquerdo, que mantinha o tamanho e o formato original, que eu descreveria quase como o de uma pirâmide de cabeça para baixo, logo à frente dos ouvidos. Essa é a dupla — digo, a das parótidas — das nossas maiores glândulas salivares. E várias coisas podem inflamá-las, inchando-as daquele jeito descomunal.

O exame de sangue, porém, deu a pista da causa ao acusar uma amilase nas alturas. E essa enzima, presente na saliva para dar conta do amido dos alimentos, se altera em casos assim — foi a explicação que me deram. Mas, doutor, em casos assim do quê? Ouvi "caxumba". Não entendi. Ouvi "caxumba" de novo.

Parênteses: a informação e os fatos é que merecem as nossas linhas ou a nossa voz, por vezes regados com a nossa opinião. Jornalista, penso, não deve ser metido a celebridade para atormentar o público com o que comeu no almoço, como fiz agora — perdão! —, consumindo o seu tempo para contar do pudim, cujo sabor foi embora com a fisgada lancinante. Mas achei, sinceramente, que aqui tinha um relato em que a informação seria, como ao meu gosto, a real influenciadora.

Vale eu contar a minha experiência — longe de ser das melhores — porque estamos em época de caxumba, palavrinha engraçada cuja origem ninguém conhece direito. Mas é um termo que soa melhor do que papeira, outro nome que o povo diz por aí, traduzindo a imagem feia de doer que vejo no espelho.

Sendo honesta, a transmissão dessa doença é mais comum nos dias frios, só que ela pode ficar duas semanas incubada e, convenhamos, até praticamente anteontem era inverno. Portanto, sim, é tempo de caxumba.

E tem mais: seus registros aumentam ano a ano no país, quando já deveriam ter sumido do nosso mapa faz tempo. E não se referem apenas a crianças, mas a gente grande desavisada sobre a necessidade de adultos, muitas vezes, também tomarem a vacina. Até porque, sem cuidado, caxumba é uma encrenca que pode complicar em qualquer idade.

Outro bom motivo para este texto é que estamos em uma pandemia de covid-19, certo? Não sei você, mas eu estou fazendo tudo como manda a cartilha da prevenção. Só piso fora de casa raramente e isso se for para resolver uma emergência. Não entro no elevador para levar o lixo até a garagem sem máscara e, digo mais, ela vai direto para a máquina de lavar.

Com certeza já esfreguei mais álcool em gel nas mãos nos últimos meses do que passei hidratante nelas ao longo de toda uma vida. Então, será que alguém poderia me dizer como o Paramyxovirus, o vírus da caxumba, conseguiu me pegar? E, se ele conseguiu a proeza — cruz-credo! —, será que outros vírus, incluindo aquele da vez — bate na madeira! —, poderiam me ameaçar?

Para ter o mínimo de entendimento e, quem sabe, mostrar o que dessa história poderia ter serventia na sua vida, fui atrás do infectologista e pediatra Marcelo Otsuka, especialista em virologia, diretor técnico de saúde do Hospital Infantil Darcy Vargas, em São Paulo, e à frente do comitê de pediatria da Sociedade Brasileira de Infectologia.


Por que a ameaça aumenta

"Hoje, a má cobertura de vacinas no país é uma dura realidade. E ouso dizer que a situação da tríplice viral é uma das piores", lamenta o médico, ao saber do episódio. A tríplice viral é a vacina que, em uma só picada, imuniza contra a terrível rubéola, o sarampo e, claro, a caxumba, usando os vírus atenuados dessas três infecções. A primeira dose idealmente seria aos 12 meses e a segunda, aos 15 meses.

No entanto, desde 2015 se observa uma franca derrocada no número de crianças que tomaram a tríplice viral. No ano passado, em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, não chegava a 75% da população infantil — quando o objetivo seria vacinar pelo menos 95% da meninada. E, neste ano, em boa parte por causa da pandemia, a queda de vacinados se mostrou ainda mais brusca: "Pelos dados, a cobertura dessa vacina específica caiu quase pela metade em relação ao ano passado", diz Otsuka. Isso significará um problemaço logo mais.

Do trio de infecções que a tríplice viral afasta, a caxumba até que seria o menor dos males. Mas devemos acrescentar moléstias graves prevenidas por outros imunizantes, como é o caso da coqueluche, que também ameaçam voltar com tudo por conta de movimentos contra as vacinas e por uma falsa sensação de segurança, já que os pais não ouvem mais a respeito dessas doenças. Acham, iludidos, que pertencem ao passado. Sinto o calombo doloroso e febril no papo e penso: só que não.

Antes que me pergunte, ninguém sabe precisar o quanto os casos de caxumba estão crescendo, já que essa não é uma infecção de notificação compulsória. Mas a quantidade de surtos nas cidades brasileiras visivelmente vem aumentando.

A segunda dose e a questão da idade

Um problema é que a tríplice viral, surgida ainda nos anos 1970, era aplicada em dose única até o ano de 2003. Mas então os médicos notaram que muita gente imunizada continuava contraindo as infecções. Foi quando passaram a recomendar um reforço. Pois bem: quem nasceu antes desse ano pode ter recebido uma dose só, então? "Então a imunidade ficou incompleta", decreta Marcelo Otsuka.

Segundo o infectologista, na dúvida sobre quantas vezes alguém tomou ou deixou de tomar a tríplice viral, qualquer pessoa de até 29 anos pode chegar em um posto de saúde do SUS e receber, por segurança, duas doses com um intervalo mínimo de trinta dias entre elas. Existem casos esporádicos— quando há surtos de sarampo ou de caxumba — em que as autoridades de saúde chegam a indicar uma terceira dose.

E quem já passou dos 30 anos? Até os 49 anos, o governo oferece uma dose. "O raciocínio é que o vírus da caxumba é tão contagioso que, nessa faixa de idade, provavelmente a pessoa já teve contato com ele em algum momento e desenvolveu uma imunidade parcial", conta o médico. A dose única, então, completaria o serviço, por assim dizer.

Nessa mesma linha de pensamento, quem já passou dos 50 anos não recebe a vacina de graça, porque se pressupõe que essa criatura já esteja imune, tendo esbarrado com um ou outro sujeito infectado por aí.
Além do mais, são indivíduos de gerações que tiveram muitos colegas de escola com caxumba, por exemplo, de uma época anterior à chegada da tríplice viral.

Mesmo assim, pessoas acima dos 50 sempre podem procurar uma clínica particular atrás da vacina — "não há limite de idade para essa imunização", garante o doutor Otsuka. No meu caso, só tomei uma dose e a imunidade incompleta não durou para sempre. Além disso, contrariando a lógica, o tempo bem vivido não tinha me dado o desprazer de conhecer de perto o Paramyxovirus. Eu não estava imune, fato. Deu zebra.

Falsas caxumbas

Pegou caxumba uma vez e a imunidade do seu organismo será para sempre, não importa se inchou a parótida só de um lado ou as duas ao mesmo tempo — é pura verdade se for caxumba pra valer, mas pode residir aí outra espécie de confusão.

"Algumas pessoas acham que tiveram caxumba na infância e não tiveram, podendo contrair o Paramyxovirus já adultas", diz Marcelo Otsuka. É que outros vírus, como certos enterovírus, também atacam as glândulas salivares e imitam uma legítima caxumba. Cá entre nós, isso é bem mais raro.

Diagnóstico certeiro, só um teste sorológico pode dar. "Mas ele não sai no mesmo dia, de maneira que pelo sim, pelo não, todos esses casos costumam ser tratados como caxumba, com o isolamento da pessoa doente e a adoção de cuidados para evitar complicações."

Como acontece a transmissão

Sem ter a menor desconfiança da situação, antes de qualquer sintoma, quem está infectado passa uma ou duas semanas despejando milhares de cópias do vírus da caxumba no ar, por meio de gotículas da saliva a cada vez que abre a boca para falar ou expirar.

Por um tempo, uma nuvem de Paramyxovirus ficará pairando ao redor de sua cabeça, pronta para ser tragada pela próxima vítima — aquela pessoa com quem conversava, o estranho ao seu lado na fila, a outra criança no parquinho, o vizinho que entrou no elevador logo depois. Fácil assim.

Também é possível se infectar compartilhando pratos, copos e talheres — os meus, por um tempo, têm de ficar separados —, beijando, abraçando, tocando as mãos em objetos contaminados por essas gotículas e levando-as à boca, ao nariz e aos olhos.

Quando surgem os sintomas

"Assim como existem aqueles que pensam que tiveram caxumba e nunca a pegaram de verdade, há o contrário: muitos dos infectados não apresentam qualquer sintoma e mesmo assim transmitiram o vírus", avisa o doutor Otsuka. De acordo com levantamentos, os assintomáticos representam uns 40% dos casos.

Quando a caxumba é sintomática, como a minha, as primeiras pistas um ou dois dias antes de as parótidas incharem são sorrateiras — "um mal-estar, alguns têm febre e outros sentem a garganta raspar, algo diferente com a saliva ou essa fadiga excessiva ", enumera o médico. Sei bem. "No entanto, também acontece o inverso. O primeiríssimo sintoma às vezes é o próprio inchaço das parótidas e depois é que aparecem outros."

O mito do vírus que desce

Ao entrar no organismo, a primeira parada do vírus da caxumba é a região da nasofaringe, atrás do nariz, o mesmo local de pouso do famigerado coronavírus. Mas o Paramyxovirus não fica muito tempo por lá e cai na corrente sanguínea, viajando pelo corpo da cabeça aos pés — "é o que chamamos de viremia", diz Otsuka. "Só que, como todos os agentes que causam infecção em nosso corpo, esse vírus tem predileção por determinadas células e logo vai parar nelas."

As favoritas entre todas, disparado, são as das parótidas. "Mas ele também tem afinidade com os testículos dos rapazes, que ficam inflamados e, em casos bem raros, o quadro é capaz de levar à infertilidade", exemplifica o doutor. "Esse vírus é capaz ainda de atacar o pâncreas, provocando uma pancreatite, que sempre é delicada e perigosa. Ou inflama as membranas que protegem o cérebro, causando as dores de cabeça de uma meningite viral, que costuma ser branda perto das bacterianas".

Sim, complicação atrás de complicação. Mas fique certo: nada disso acontece porque o vírus da caxumba desce das parótidas até o saco escrotal dos homens ou porque sobe dessas glândulas para a cabeça. Na realidade, ele faz de cara um circuito completo pelo corpo na tal viremia e, conforme a resposta do indivíduo, estaciona onde consegue. O jeito é se cuidar sem dar bobeira, para o invasor ser debelado antes de ganhar terreno por todos esses órgãos. Daí a prescrição de repouso. O doutor Otsuka é enfático: "ela é para ser levada a sério".

Os cuidados para não complicar

Não é preciso ficar deitado na cama o tempo inteiro, mas se movimentar o mínimo e nunca fazer muita força, segundo o infectologista. Nem precisa pedir duas vezes, porque tudo dói. "O princípio é destinar toda a energia do corpo para a resposta imunológica, para que ela seja mais rápida e eficaz", diz ele. "Essa é uma infecção que nos faz lembrar dos conselhos dos mais velhos diante de alguém adoentado, na linha do 'saco vazio não para em pé'. Porque, apesar de comer ser difícil, até por conta da dor na hora de mastigar ou de engolir, o ideal nunca pular refeições leves. De novo, para não faltar energia para a reação imunológica."

Ora, não há remédio específico contra o vírus. Cada um, então, que lute com suas próprias defesas, tolerando a dor com a ajuda de analgésicos e anti-inflamatórios. A recuperação total pode levar quinze dias, mas em geral as pessoas melhoram bastante e deixam de transmitir a caxumba uma semana depois do início do inchaço das parótidas, quando há sintomas. E por falar em transmissão...

Por fim: não usar máscara é um desrespeito ao próximo

Mas por que peguei, peguei por quê? A pergunta me inquietava e, no entanto, Marcelo Otsuka aparentava zero surpresa: "Imagine uma pessoa respirando em um dia muito frio, quando você consegue enxergar aquele vapor saindo de sua boca", me disse. "Essa nuvem densa logo se dispersa. Aquelas gotículas de água e saliva da expiração se espalham e se dividem em partículas ainda menores", continua. "O que a máscara de pano comum faz é conter esse vapor. Mas não impede ninguém de tragar o que uma pessoa sem máscara jogou no ar."

Por isso, para o médico, até crianças circulando por áreas comuns de condomínios deveriam estar de máscaras em tempos de coronavírus. Vesti-las não protege tanto o próprio usuário, mirim ou adulto, mas protege bastante os outros. É, em última instância, símbolo de boa educação e respeito ao próximo. Não há coragem em dispensá-la — ou falta de medo de pegar covid-19, no caso. Há, ao contrário, uma covardia cruel, dando golpes invisíveis em todos.

Provavelmente, acreditam os médicos, cruzei com alguém ou entrei no elevador depois de alguém que pensava que estava cuidando (ou descuidando) somente do próprio nariz ao abrir mão do acessório. Eu peguei "apenas" caxumba. Nestes tempos, que sorte a minha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL