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Elânia Francisca

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Esperançar uma escola que seja espaço para aprender a amar

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Elânia Francisca

Elânia Francisca é psicóloga, especialista em gênero e sexualidade e mestra em educação sexual. Realiza atividades educativas, consultoria e supervisão nas temáticas de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos.

Colunista do UOL

29/04/2022 04h00

Você provavelmente já deve saber disso, mas preciso começar esse texto recordando que a escola é um dos maiores espaços de socialização de crianças e adolescentes.

Repare em sua própria história de vida e perceba que, provavelmente, foi na escola que você teceu seus primeiros vínculos de amizade, primeiros conflitos, amores, desamores. Você pode até recordar que também foi na escola que viveu seus primeiros momentos de violência, por meio de brigas, bullying (que talvez tivesse outro nome na sua época).

A escola é esse ambiente permeado por muitas histórias de vida que parecem retalhos de uma grande colcha, que vai se costurando com linhas que expressam as questões sociais. Quando somos estudantes, não temos a dimensão do quanto a escola é um local de entrelaçamento de intensas vivências e trocas que vão moldando o olhar que temos sobre a sociedade e nós mesmos.

Em meu trabalho como psicóloga e educadora em sexualidade, observo as interações de crianças e adolescentes no ambiente escolar e consigo perceber as construções que estão acontecendo naquele instante, e também a reprodução de violências estruturais como racismo, machismo e LGBTfobias.

Meninos que se recusam a guardar os brinquedos porque acreditam que somente as meninas devem fazer esse exercício de organização. Meninas que tiram sarro de meninos por gostarem de bonecas. Crianças dizendo que namoram outras crianças, adolescentes odiando os próprios corpos por não estarem dentro dos padrões de beleza, namoros em que a violência e controle estão fortemente presentes, xingamentos racistas e homofóbicos? Tudo isso sendo reproduzido por crianças e adolescentes nas salas de aula, pátios e, infelizmente, por alguns educadores.

Contudo também existem educadoras e educadores que se dedicam a trazer reflexões incríveis a cada atitude preconceituosa no ambiente escolar. Trata-se da professora que informa aos meninos que eles também brincam e, por isso, também são responsáveis pelo cuidado com os brinquedos. Trata-se da merendeira que conta para as meninas que brincar de bonecas é uma atividade de cuidado que pode ser feita por todos, e isso inclui os meninos. É também a educadora que se dedica a explicar os motivos de uma criança não namorar, ou aquela que trabalha arduamente para apresentar outros modelos de estética para além do padrão. São as equipes que trabalham educação emocional e criam campanhas antirracistas dentro do ambiente escolar. Enfim, são pessoas que, cotidianamente, insistem em esperançar uma escola que seja espaço de garantia de direitos humanos, equidade de gênero, tornando a educação um processo de aprender a amar.