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Edmo Atique Gabriel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A melatonina em tempos de ômicron e influenza H3N2

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

15/01/2022 04h00

Os tempos atuais são de pandemia da variante ômicron e da influenza H3N2. Ainda que a letalidade dos casos não esteja tão acentuada, o potencial de transmissão tem aumentado significativamente. Dependendo da magnitude dos sintomas e de uma eventual coinfecção (ômicron + influenza), o estado de saúde fica extremamente debilitado, limitando a realização das atividades profissionais.

Desta forma, todas as medidas preventivas quanto à preservação da imunidade de nosso corpo, como também medidas restritivas quanto à ocorrência de aglomerações, tornam-se prioritárias diante deste cenário atual.

No tocante à imunidade orgânica, um dos pontos mais essenciais é a qualidade de nosso sono noturno. Neste contexto, a melatonina ocupa um papel importante por ser um hormônio produzido pelo nosso cérebro (especialmente pela glândula pineal), tendo como função exatamente "dizer" para nós que é hora de dormir.

No entanto, precisamos deixar muito explícito um conceito que tem frequentemente confundido as pessoas. A melatonina é um "hormônio da noite" ou "hormônio vampiro", ou seja, quando nosso cérebro produz melatonina, ainda que em pequenas quantidades, ele está sinalizando para nosso corpo que estamos nos aproximando do ciclo noturno do sono.

Isto é um fenômeno biológico que geralmente segue um ritmo organizado. A melatonina, por outro lado, não deve ser encarada como uma causa única dos distúrbios do sono e simplesmente adotar o hábito de todos nós tomarmos melatonina de forma autônoma, sem a devida orientação médica especializada.

A melatonina exerce uma espécie de preparação de nosso cérebro para o período noturno do sono. Ela não é um produto simples e corriqueiro, como se fosse um chá de ervas que muitas vezes usamos para relaxar e dormir melhor.

Ao contrário, a melatonina consegue inibir os efeitos de hormônios naturais de estresse, como o cortisol, acelerando o condicionamento cerebral para o sono e provendo uma boa qualidade de sono noturno. Em tempos de ômicron e influenza H3N2, um sono noturno reparador consiste num poderoso mecanismo de defesa orgânica e de recarga contra tantos agentes que estão atacando nosso corpo.

Entretanto, como pontuado anteriormente, a melatonina não é um tratamento direto para distúrbios de sono; sempre precisamos buscar ajuda especializada para entender por que estamos vivenciando dias de privação de um sono reparador.

Mais do que isto, mesmo quando a melatonina é usada para fins de melhor regulação do ciclo dia-noite, algumas pessoas podem não conseguir obter os resultados promissores que se espera. Será que a metabolização da melatonina pode ser variável em cada pessoa e desta forma nem sempre o resultado final é satisfatório?

Será que existe a necessidade de constantemente rever e reajustar as dosagens? Todas estas questões são cabíveis e absolutamente pertinentes, confirmando realmente a necessidade de uma recomendação e acompanhamento por parte de profissionais habilitados.

Um dos pontos mais intrigantes quanto a esta questão da dosagem da melatonina foi debatido recentemente pela doutora Ilene Rosen, renomada especialista em medicina do sono e professora na Universidade da Pensilvânia.

Ela levantou uma polêmica: nosso cérebro geralmente produz doses baixas de melatonina para regulação de nosso ciclo dia-noite e os suplementos de melatonina, disponíveis comercialmente, apresentam doses bem mais elevadas. Qual o impacto desta diferença quanto à qualidade de nosso sono e, consequentemente, nossa imunidade em tempos de ômicron e influenza H3N2?

Muitos especialistas têm recomendado o uso de uma dose mais baixa, como 0,5 mg a 1 mg, cerca de 30-60 minutos antes de ir para cama. O propósito desta dose efetivamente mais baixa seria avaliar como nosso corpo reage e como acordamos no dia seguinte.

Como existem relatos de pessoas acordando completamente "grogues" no dia seguinte, esta informação pode ser relevante na definição da melhor dosagem. A questão é que se alguém pretende usar melatonina para melhor regulação do sono e o resultado tem sido este estado de cansaço, sensação de sono incompleto e cabeça "grogue", os benefícios estão sendo superados por efeitos colaterais, os quais prejudicam progressivamente nosso estado de imunidade orgânica.

Além destes eventuais efeitos negativos em nossa imunidade, precisamos entender que este estado de inoperância física e mental no dia seguinte pode favorecer outras ocorrências como acidentes domésticos e acidentes automobilísticos.

Você já deve estar pensando: 'se for para tomar melatonina e acabar batendo meu carro no dia seguinte, prefiro não tomar'. Mais um motivo para não usar melatonina por modismo, como uma automedicação, sem uma orientação especializada acerca da aplicabilidade clínica e dos ajustes de dose para cada pessoa.

Outra situação que tem levado muitas pessoas a tomar melatonina de forma inadvertida tem sido as longas viagens, devido a questão do jet lag (fuso horário). Realmente não é fácil para nosso cérebro se ajustar a uma grande diferença de horas entre um país e outro e isto pode necessitar de auxílio medicamentoso. Não seria proibitivo inserir a melatonina como uma aliada nesta circunstância, desde que o tema tenha sido discutido com seu médico previamente a viagem.

Em tempos de ômicron e influenza H3N2, ainda temos motivos para vivenciar estados de ansiedade. E, se tivermos de apontar gatilhos para um distúrbio de sono, jamais poderíamos omitir o destacado papel exercido pela ansiedade, seja na forma de angústia, pânico e crise generalizada.

Além disso, não podemos esquecer que alguns hábitos, como o consumo de bebidas estimulantes e a ingestão de alimentos muito gordurosos, podem ser extremamente prejudiciais para nossa capacidade plena de repouso ao longo da noite.

Os tempos de ômicron e influenza H3N2 não são tempos de aventura nem de modismo. A melatonina pode ser uma importante aliada de nossa qualidade de vida e de nossa imunidade orgânica, mas o manuseio da mesma exige responsabilidade, conhecimento e experiência.

A melatonina é um hormônio natural e sua suplementação pode ser necessária, a partir de alguns critérios muito bem ponderados por parte de um profissional especializado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL