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Edmo Atique Gabriel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Tenho hipertensão: vou ter que tomar remédio para sempre?

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

07/08/2021 04h00

Não tenho dúvidas em afirmar que esta questão é a dúvida mais crucial nos consultórios de cardiologia. Até mais do que saber qual medicamento tomar, as pessoas questionam se a necessidade dos medicamentos será para sempre. E esta dúvida não é privilégio dos mais jovens, os mais idosos também querem saber como proceder acerca dos medicamentos que passam a fazer parte de suas rotinas.

O cenário realmente é curioso, pois sabemos que a hipertensão arterial pode ser primária (genética) ou secundária a fatores sobre os quais irei discutir adiante. Muitas vezes as pessoas sabem que estão adotando hábitos alimentares inapropriados e um estilo de vida no mínimo questionável e, mesmo assim, não aceitam que os medicamentos tornam-se prioridade e exigem saber precisamente qual o prazo deste tratamento.

Para responder a esta questão controversa, acerca do tratamento anti-hipertensivo afinal ser ou não para sempre, preciso contextualizar melhor os dois tipos principais de hipertensão.

A hipertensão classificada como primária é aquela que se fundamenta na herança de nossos pais e avós, ou seja, ocorre uma transferência hereditária desta tendência de desenvolver hipertensão arterial. Não sabemos precisar em qual fase da vida que a hipertensão primária irá se manifestar.

Há casos impressionantes de crianças manifestando sinais de hipertensão arterial primária, como também notamos que os adultos podem iniciar este quadro hipertensivo em faixas etárias muito diversas. Seja como for, nos casos de hipertensão primária as pessoas costumam literalmente descobrir que são hipertensas em exames de rotina ou em situações muito aleatórias, como quando pedem para mensurar sua pressão arterial sem estar sentindo qualquer tipo de sintoma.

Aí vem o susto: "Sou hipertenso(a), não sabia e não sinto nada!" Os números assustam —pressão de 20 por 12 (tecnicamente seria 200 por 120). Um caos! Medo de morrer, de ter uma infarto do coração ou um derrame cerebral.

A conduta racional e mais imediata será procurar orientação cardiológica e, nesse sentido, além de orientações alimentares e a solicitação de exames complementares, medicamentos terão de ser introduzidos para controle adequado destes níveis pressóricos que estão ostensivamente descontrolados.

Nesta etapa, podemos dizer que o tempo de uso dos medicamentos irá depender dos seguintes fatores:

1) Normalização e controle efetivo dos níveis pressóricos com aquele ou aqueles princípios ativos dos medicamentos. Neste caso, a ideia é que o cardiologista realmente seja feliz na escolha do medicamento e consiga "acertar" na dose e periodicidade do tratamento.

2) Mudança importante do estilo de vida e correção dos erros alimentares. As pessoas portadoras da hipertensão primária podem ser estar acima do peso adequado, podem estar abusando de alimentos ricos em sódio e condimentos, podem estar sedentárias e podem estar seguindo uma rotina de estresse intenso e desproporcional.

Conseguem perceber que muitas vezes a tendência genética para hipertensão torna-se "pequena" diante de tantos erros de conduta e que, se estes erros não forem devidamente abordados, não tem sentido discutir por quanto tempo os medicamentos anti-hipertensivos terão de ser usados?

3) Resultado dos exames complementares, os quais poderão apontar para mais fatores causais, além da questão genética em si. Alterações metabólicas como o acúmulo de ácido úrico no sangue e alguns achados no ecocardiograma, como a calcificação e estenose ("obstrução") de uma valva cardíaca, podem ser plenamente responsáveis pelos picos de pressão, ainda que a pessoa tenha tendência hereditária para tal.

Enquanto não houver o devido enfrentamento destes fatores apontados nos exames, não há como prever o tempo do uso da medicação anti-hipertensiva.

Em relação a hipertensão primária, posso dizer que o tempo de uso dos medicamentos vai depender diretamente dos hábitos de vida e padrão alimentar. Não posso afirmar que, fazendo tudo certo em termos da escolha dos alimentos e combate ao sedentarismo, seja possível ficar totalmente sem medicação —isto deverá ser muito individualizado.

Hipertensão em jovem - iStock - iStock
Imagem: iStock

Mas certamente será possível reduzir a necessidade dos medicamentos, diminuir doses e periodicidade dos mesmos e até pensar em controlar os níveis pressóricos experimentando períodos sem medicação alguma.

Sendo possível isto, as pessoas ficariam menos expostas aos efeitos colaterais indesejáveis, os quais são inevitavelmente inerentes aos medicamentos anti-hipertensivos.

A hipertensão arterial secundária deriva, nas pessoas mais jovens, de fatores passíveis de reversão ou tratamento, como o abuso de bebidas alcoólicas, alimentos condimentados, abuso de bebidas estimulantes e o uso de drogas ilícitas.

Também devemos considerar, nos mais jovens, a possibilidade de encontrar obstrução nas artérias dos rins , prejudicando o fluxo da diurese e causando retenção líquida significativa. Neste caso específico, existe tratamento cirúrgico para desobstrução destas artérias e correção deste problema.

Dessa forma, posso dizer que estas pessoas mais jovens, portadoras de hipertensão secundária, caso mudem seu estilo de vida, reavaliem seus hábitos e procurem o tratamento para eventual obstrução de artérias renais, poderão ficar livres dos medicamentos anti-hipertensivos.

No caso das pessoas mais idosas, com quadro de hipertensão arterial secundária, sabemos que os hábitos alimentares e estilo de vida são determinantes, mas o processo natural de envelhecimento gera enrijecimento dos vasos sanguíneos, maior grau de calcificação dos mesmos e maior acúmulo de gorduras dentro dos vasos —estes fatores dificultam o controle efetivo dos níveis pressóricos e podem dificultar qualquer tentativa de ficar livre dos medicamentos anti-hipertensivos.

No entanto, faço questão de ressaltar novamente que estas análises devem obrigatoriamente ser individualizadas para melhor tomada de decisão, quanto a suspensão ou não das medicações.

Por fim, quero destacar que existe um fator desencadeador do descontrole pressórico e que não escolhe idade, sexo ou raça: o estresse.

Mais do que um estado de irritabilidade ou tensão, o estresse implica em desequilíbrio hormonal e comprometimento das principais funções orgânicas. Crianças, adolescentes e adultos estão sujeitos ao estresse e seu consequente impacto no descontrole da pressão arterial.

Pessoas com nível de estresse desproporcional e constante precisam receber tratamento para ansiedade e depressão, pois somente assim será possível pensar em reduzir ou eliminar os medicamentos anti-hipertensivos.

Quem descuidar do controle de sua pressão arterial, seja esta primária ou secundária, poderá ter complicações orgânicas e encurtar seu tempo de vida.

Quanto a poder parar de tomar os medicamentos anti-hipertensivos, primeiramente será fundamental fazer uma autocrítica quanto a hábitos e estilo de vida. Na sequência, fazer um acompanhamento cardiológico com abordagem individualizada, com a ponderação apropriada das particularidades e antecedentes de cada pessoa.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL