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Edmo Atique Gabriel

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sabia que as variações da pressão são diferentes na dor aguda e na crônica?

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), palestrante, especialista em cirurgia cardiovascular com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic e pós-graduado em nutrologia médica pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

Colunista do UOL

01/05/2021 04h00

Nesta semana, no dia 26 de abril, celebrou-se o Dia Nacional da Prevenção e Combate a Hipertensão Arterial. Trata-se de uma data para renovar anualmente a necessidade de conscientização acerca de um dos principais fatores de risco para os agravos cardiovasculares, como infarto do coração e AVC (acidente vascular cerebral).

A hipertensão arterial representa mais do que uma simples comorbidade; consiste em uma síndrome e, como tal, abarca um conjunto de sinais e sintomas clínicos que irão gradativamente se manifestar ao longo da vida, podendo culminar com a falência de órgãos vitais como coração e rins.

O aspecto mais peculiar da hipertensão arterial e, ao mesmo tempo muito perigoso, é seu comportamento silencioso em mais de 90% das pessoas, ou seja, os sintomas são frequentemente escassos ou ausentes, podendo dificultar o diagnóstico e a implementação de medidas preventivas.

No tocante a estas medidas preventivas, destacam-se a realização de exames cardiológicos de forma periódica, maior controle sobre os hábitos alimentares, evitar excessos como álcool e bebidas estimulantes e praticar atividades físicas de forma regular.

No entanto, existe um fator de risco que acomete todas as pessoas de forma muito variável, em algum momento da vida, às vezes até de forma imprevisível e súbita: a dor.

Quem nunca sentou algum tipo de dor? Dor abdominal, cólicas menstruais, cólicas renais, dor muscular, dor de cabeça, dor de dente, dor nas articulações. São tantas possibilidades de dor que o diferencial entre cada tipo acaba sendo se a dor é aguda, quando dura alguns minutos ou horas, estendendo-se a poucos dias, ou dor crônica, aquela que permanece por mais tempo, muitas vezes de forma indeterminada.

Uma cólica renal ou menstrual representa um tipo de dor aguda; por outro lado, dor muscular ou articular pode apresentar tendência crônica.

Quero apresentar a vocês um dado muito curioso acerca desta correlação entre dor e pressão arterial. As variações e o comportamento de nossa pressão arterial, mediante uma dor aguda e uma dor crônica, podem não ser iguais!

Nos casos de dor aguda, ocorre importante ativação de nosso sistema neurohormonal, por meio da liberação de grande quantidade de substâncias em nossa circulação, tais como a noradrenalina, que favorece aumento da pressão arterial e dos batimentos cardíacos.

Como a dor aguda, embora claramente desconfortável, tem a função instintiva de promover a sobrevida diante do perigo ou de uma ameaça, ela estimula, em maior escala, nossos níveis pressóricos, visando garantir um estado de atenção, tensão e vigília para o enfrentamento de algo que possa ser ameaçador.

Uma crise de hipertensão arterial, logo após um estímulo doloroso agudo, pode, com o passar das horas e dias, acarretar um fenômeno fisiológico muito intrigante —as pessoas hipertensas, após estímulo de uma dor aguda, começam a sentir menos dor.

Ainda não está bem claro este mecanismo, mas tudo indica que uma dor aguda promove aumento da pressão arterial por estímulo hormonal e este estímulo acaba se sobrepondo ao estímulo doloroso e inibe a dor.

Em resumo, uma dor aguda pode elevar a pressão arterial e esta elevação pressórica pode inibir a dor a causar analgesia. Este fato é tão interessante que o uso de medicamentos anti-hipertensivos poderia controlar os níveis pressóricos por um lado, mas reativar a sensação dolorosa por outro lado.

Diferentemente da dor aguda, que pode ser considerada como uma situação adaptativa frente a um risco iminente, a dor crônica representa uma situação de desequilíbrio fisiológico.

Nas pessoas com dor crônica, ocorre estímulo do sistema neuro-hormonal, com liberação de noradrenalina também e elevação dos níveis pressóricos. No entanto, a sensação dolorosa crônica produz uma redução gradativa da tolerância a dor e, mesmo com o aumento da pressão arterial, as pessoas continuam sentindo muita dor.

Em outras palavras, nos casos de dor crônica, como numa dor muscular, articular e nas dores produzidas por um câncer, a pressão arterial sobe e a sensação dolorosa permanece e pode ser acentuada.

De forma objetiva, pode-se dizer que, em situações de dor aguda, ocorre elevação da pressão arterial e esta elevação "induz" um maior grau de analgesia. Desta forma, o uso de medicamentos anti-hipertensivos poderia ser mais moderado nestes casos, visando controlar os níveis pressóricos com um pouco mais de lentidão, para também preservar este fenômeno de analgesia associado com a crise hipertensiva.

Nas dores crônicas, o risco de hipertensão arterial tende a ser maior, pois um círculo de ações se processa da seguinte forma: primeiramente, uma sensação dolorosa crônica seguida de picos de pressão arterial e baixa tolerância a dor; depois, uma contínua liberação de noradrenalina devido a baixa tolerância a dor; por último, níveis pressóricos permanentemente elevados pela presença constante da noradrenalina na circulação.

Nas dores crônicas, a importância dos medicamentos anti-hipertensivos pode se tornar muito maior.

Assim sendo, após esta compreensão sobre as diferenças de impacto da dor aguda e crônica, em relação ao níveis de nossa pressão arterial, devemos primeiramente evitar todos os fatores que contribuem para elevação pressórica, uma vez que a hipertensão arterial pode ser um caminho mais curto para ocorrência de um infarto do coração e acidente vascular cerebral.

Em segundo lugar, precisamos, sob orientação de um especialista, manter os exames cardiológicos periódicos e saber como usar os medicamentos anti-hipertensivos em cada situação.

Para saber mais sobre a saúde do coração, me acompanhe no Instagram: @edmoagabriel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL