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Com 12 problemas de saúde e dores 24 h ao dia, Ana superou vício em morfina

Vanessa Centamori

Colaboração para VivaBem

18/04/2021 04h00

Se Ana Karolina Carvalho, 19, pudesse classificar em uma escala de 1 a 10 o nível de dor que já sentiu na vida, esse sofrimento iria muito além do 10. A pernambucana estudante de nutrição afirma que supera crises dolorosas praticamente 24 horas por dia.

"Há dias impossíveis, nos quais não dá para fazer nada, diria que pelo menos duas vezes na semana, mas é muito variável", descreve. "O paciente com dor crônica dorme e não faz ideia de como irá viver o amanhã", reflete.

O ano de 2017 foi especialmente imprevisível para a jovem, pois foi quando a dor se tornou uma vilã ainda mais traiçoeira. Na época, ela lutou contra um vício em morfina que se agravou na recuperação de uma cirurgia na medula, em que ficou entre a vida e a morte.

"Nem eu mesma, nem minha família ou os profissionais do hospital achavam que sairia com vida", recorda. "Muito antes da cirurgia já tomava morfina, mas era em uma quantidade controlada. Como a gente viu que não sairia dali de jeito nenhum, a morfina ficou liberada, pois queriam que eu ficasse confortável para poder partir em paz."

Nos braços de Morfeu

Ana Karolina Carvalho superou vício em morfina - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

A morfina é uma substância natural derivada do ópio, que constitui 8% a 14% do peso do ópio seco. O último, por sua vez, vem de uma planta conhecida como papoula do oriente (Papaver somniferum) e origina também uma série de substâncias como láudano, codeína, meperidina, metadona e heroína.

Tanto o ópio quanto a morfina atuam como depressores do SNC (Sistema Nervoso Central), fazendo o cérebro funcionar mais devagar. Não por acaso, o nome morfina é uma referência a Morfeu, o Deus grego dos sonhos, visto que a substância psicoativa causa sonolência, sensação de tranquilidade, lentidão e alívio da dor.

A morfina está também incluída na classe dos opioides —grupo de fármacos que atuam nos receptores opioides neuronais, que são importantes na regulação da sensação de dor.

"Os opioides agem se ligando a receptores em algumas áreas do cérebro, que quando são ativados proporcionam uma analgesia potente. São os analgésicos mais potentes que a gente tem para uso clínico", explica Hazem Ashmawi, anestesiologista e supervisor da Equipe de Controle de Dor do HC-FMUSP.

O especialista conta que o nosso corpo já libera naturalmente opioides chamados de endorfinas. Eles agem nos mesmos receptores que a morfina, mas a diferença é que a substância é bem mais poderosa em efeito analgésico.

12 problemas de saúde

Ana Karolina Carvalho superou vício em morfina - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

No caso de Carvalho, as doses de morfina começaram a ser administradas por conta de um sofrimento neuropático e que hoje se resume a um quadro complexo de pelo menos 12 problemas de saúde diferentes.

A questão que desencadeou boa parte dos diagnósticos é de nascença: um quadro de mielomeningocele, que é uma malformação da coluna vertebral em que as meninges, a medula e as raízes nervosas do bebê ficam expostas. Isso requer uma cirurgia dentro das primeiras 48 a 72 horas de vida da criança.

Porém, a jovem relata que foi alvo de negligência médica no sertão onde nasceu, em Afogados da Ingazeira, interior de Pernambuco. O problema não foi detectado no pré-natal e ela acabou passando por um procedimento cirúrgico tardio.

Ela adquiriu por consequência a Síndrome da Medula Espinhal Ancorada, uma doença neurológica na qual a medula fica "presa" e suscetível a lesões por micro-impactos. Isso gera muita dor e, em alguns casos, até pode causar disfunção urinária.

"Os pacientes têm todo um desequilíbrio biomecânico na coluna. Descompensa quadril, joelho. Você só consegue diminuir o sofrimento, pois é uma dor crônica, os cuidados são paliativos", analisa Cezar Augusto de Oliveira, chefe de neurocirurgia do Hospital Sírio-Libanês (SP).

Por conta do seu histórico médico, Carvalho possui uma curvatura anormal na coluna (escoliose), condromalacia patelar (degeneração da cartilagem da patela do joelho) e DTM (Disfunção da Articulação Temporomandibular).

Fora outros problemas: psoríase no couro cabeludo; dermatite atópica; e refluxo gastroesofágico, já que nasceu sem esfíncter no fim do esôfago.

Se não bastasse isso, a jovem possui também algumas falhas no fígado, bronquite asmática, transtorno de estresse pós-traumático e alergia severa a ácaro, por isso ela corta as unhas para evitar se coçar demais e causar cicatrizes.

Quando o problema vai além da dor

Ana Karolina Carvalho superou vício em morfina - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

No caso da estudante, o vício em morfina deu os primeiros indícios quando ela tinha 12 anos e era levada diversas vezes ao pronto-socorro, onde acabava recebendo o opioide com frequência. A primeira vez que isso ocorreu foi quando ela vomitou de dor durante um treino de basquete.

"Passei por muitas negligências médicas. Todo médico que ia explicava que nasci com mielomeningocele, mas eles nunca olhavam para a minha medula. Achavam que o problema era na perna, porque a dor era até então nela. Como nada aparecia nos exames, achavam que aquilo estava na minha cabeça e isso me fez inclusive entrar em depressão", relembra Carvalho.

Enquanto ouvia de vários profissionais que as dores físicas "eram de ansiedade ou incômodos do crescimento", a jovem suava, tinha quedas de pressão e desmaiava conforme agonizava. "Eu ia ao pronto-socorro umas três vezes na semana. Me davam tramal, não funcionava e então me davam morfina", afirma.

Depois de perder parte do equilíbrio e coordenação motora devido a lesões na medula, ela começou a ter menos sensibilidade na perna esquerda. Passou por uma cirurgia arriscada e se recuperou após passar 2 meses internada. Emagreceu 13 quilos, teve infecção bacteriana, ficou temporariamente estrábica por causa de uma fístula (ruptura de uma meninge). E, depois de tudo isso, foi finalmente diagnosticada com o vício.

Superação por toda a vida

Ana Karolina Carvalho superou vício em morfina - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

A remissão do quadro não significa que nunca mais possa haver uma recaída caso o viciado volte a utilizar a morfina anos depois, já que o vício é crônico. É por isso que, mesmo recuperada do quadro, Ana Karolina Carvalho não pode mais receber esse opioide.

Além disso, seus 12 problemas de saúde ainda a desafiam todos os dias. Em janeiro de 2020 ela passou por outras duas neurocirurgias, devido a um tumor medular benigno que não pôde ser retirado totalmente. Teve por consequência uma hemorragia que a fez perder os movimentos das pernas.

Agora, conforme "reaprende a andar", Carvalho continua a enfrentar dores e traumas psicológicos diariamente. "Se fosse para eu ligar para a minha dor, ficaria na cama todos os dias da minha vida com toda a certeza", admite a jovem, que possui pesadelos frequentes de que está no leito do hospital à beira da morte.

Mas ela afirma com coragem que aceitou já faz dois anos que o sofrimento é crônico —e isso não a impede de viver e traçar metas. A garota faz atualmente aulas de ioga, planeja se formar na faculdade de nutrição e aguenta firme as rotinas de estudo, mesmo nos dias em que seu corpo se queixa das tarefas mais simples.

"O meu corpo me gera muitos problemas, cirurgias, sofrimentos mentais, estresse e muitas coisas ruins. Mas ele é casa. E ele serve pra mim. Não precisa mudar para que eu seja feliz", reflete. "Antes eu considerava que eu estava lutando contra o meu corpo, mas percebi depois que a gente está lutando junto. Ele me mantém viva apesar de tudo", reconhece.

Vício x dependência

É muito diferente um paciente que está apenas dependente em comparação ao viciado em algum medicamento. A dependência em morfina é quando o indivíduo manifesta sintomas como agitação, irritação, ansiedade, sudorese e diarreia durante poucos dias depois que se retira a medicação.

Já o vício é crônico e nele há vontade muito grande de usar o analgésico mesmo já se estando dependente ou podendo voltar à dependência. Essa pessoa passa a utilizar, mesmo que inconscientemente, a dor como "desculpa" para que o médico prescreva mais morfina.

Na última semana de internação, por exemplo, um especialista fez um teste em Carvalho utilizando um placebo depois que ela se queixou de fortes dores na perna. "Ele fez esse teste porque já suspeitava da dependência. Me senti melhor na hora", conta a jovem, que não sentia dor física no momento, mas, sim, um sintoma da falta da morfina.

Prevenção e tratamento

Quando um paciente está internado há muito tempo sendo medicado com morfina o que se faz para evitar a dependência é a chamada terapia de substituição, na qual se usa outros opioides. A intenção depois é reduzir a dose do analgésico de substituição gradativamente.

Mas, em casos em que o paciente já está viciado, ele recebe medicações específicas para conter a compulsão, além de psicoterapia e remédios psiquiátricos.

Se a pessoa ainda tiver dor física e precisar de um analgésico, também são usados os substitutos para a morfina. Fora os tratamentos alternativos, como a injeção de lidocaína ou até mesmo cirurgias para alterar receptores da dor, além de fisioterapia, pilates e consultas ortopédicas.

Fontes: Cezar Augusto de Oliveira, neurocirurgião especialista em coluna e chefe de Neurocirurgia no Hospital Sírio-Libanês (SP); André Malbergier, psiquiatra coordenador do Programa de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo); Hazem Ashmawi, supervisor da Equipe de Controle de Dor do HC-FMUSP; e Marco Aurélio Jorge, psiquiatra e professor da Fundação Fiocruz, especialista em saúde mental, violência e drogas.

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