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Ioga, dança, canto e artesanato para driblar o câncer: 'Autoestima é tudo'

Maria Eleni Bezerra, finalista do Prêmio Inspiradoras 2022 na categoria Informação para vida - Julia Rodrigues/UOL
Maria Eleni Bezerra, finalista do Prêmio Inspiradoras 2022 na categoria Informação para vida Imagem: Julia Rodrigues/UOL

Colaboração para Universa

03/08/2022 04h00

Quando descobriu que estava com câncer de mama, em 2005, Maria Eleni Bezerra, 60, teve que deixar a profissão de lado. Ela confeccionava decorações de festa, passava o dia carregando painéis, enfeites e forminhas. Subia e descia escadas para instalar tudo. Durante o tratamento, no entanto, não podia carregar peso ou fazer algo tão trabalhoso.

Achei que ia enlouquecer. Mas uma artesã nunca deixa de ser artesã.
Maria Eleni Bezerra

Maria Eleni começou a estudar: o que poderia fazer em casa? "Providenciei caixinhas de MDF e continhas. Comecei a fazer colares, brincos. Aí eu, careca, colocava a minha arte e me achava o máximo. E aí divulgava esse meu trabalho e o vendia". A arte ajudou a artesã a passar pelo tratamento. "Foi o que me levantou mesmo. Às vezes esquecia que estava doente, ficava até as duas da madrugada trabalhando", ri.

A experiência foi tão positiva que ela decidiu proporcionar algo parecido a outras mulheres em situação semelhante à dela. Em 2009, assumiu a coordenação do Grupo Despertar da Liga Contra o Câncer do RN. Formado por voluntárias que estão no fim do tratamento ou já passaram por ele, a iniciativa tem como objetivo fortalecer outras pacientes, oferecendo ajuda emocional. Na liderança, decidiu incrementar a dinâmica da iniciativa, que, até então, consistia basicamente em encontros e conversas de incentivo.

Finalista do Prêmio Inspiradoras 2022 na categoria Informação para a vida, Maria Eleni criou, então, uma programação de atividades voltadas para as voluntárias. São aulas de dança, artesanato, coral e ioga. Deu tão certo que o número de mulheres participantes do grupo saltou de 40 para 90.

"A arte desenvolve a nossa capacidade. Todo mundo sabe costurar, cozinhar. Basta tentar. Nós levamos isso para o grupo, essa possibilidade de tentar algo novo. E uma coisa leva a outra: as pessoas se animam, começam a conversar. Você ocupa a sua mente com algo que lhe dá prazer, além de ser uma forma de se expressar durante o tratamento", diz Maria Eleni.

Prova de amor

Em 2005, a filha de Maria Eleni, que cursava medicina, estava estudando mamas quando resolveu perguntar à mãe há quanto tempo ela não realizava exames. "Respondi que não lembrava e ela disse que, então, me examinaria", conta. Depois do almoço, Maria Eleni deitou no sofá e deixou a filha fazer o trabalho dela. Foi assim que a artesã descobriu que tinha um nódulo. Achou que era cuidado exagerado, mas ainda assim, marcou uma consulta com o mastologista. O diagnóstico de câncer de mama veio muito rápido. "Minha filha ficou muito mais abalada do que eu".

O baque chegou depois, quando descobriu que perderia o cabelo. Ficou tristíssima, começou a chorar. A filha, então, teve uma ideia carinhosa. Dona de um cabelão, a moça disse que ele, agora, seria da mãe. Cortaria e faria uma peruca para ela. "Foi a maior prova de amor que já recebi", conta Maria Eleni.

Na mesma época, ela conheceu o Grupo Despertar. Criado há 29 anos, o projeto presta apoio emocional e físico para mulheres que estejam começando o tratamento. Quando uma mulher recebe o diagnóstico de câncer de mama, integrantes do grupo vão encontrá-la para conversar e oferecer um suporte e fortalecê-la emocionalmente para o processo que vem pela frente. "O grupo foi muito importante para mim e percebi que gostaria de ser voluntária quando terminasse meu tratamento", diz a artesã.

O carinho da família e as conversas com as integrantes do Grupo Despertar foram cruciais para que, há 16 anos, Maria Eleni recebesse alta. "Com tanto amor, me fortaleci. Percebi que tinha que ficar boa para retribuir". Assim, logo que terminou a quimioterapia, foi participar de um dos encontros do Grupo Despertar. "Percebi que estava no meu lugar quando vi aquelas mulheres felizes, sorrindo. Entendi que eu também poderia sorrir", fala.

A revolução

Em dia de consulta oncológica, o corredor do Hospital da Liga contra o Câncer, em Natal (RN), fica cheio de pacientes que vieram de longe para fazer o acompanhamento do tratamento. O clima, então, mistura um pouco de cansaço e pessimismo. "Nesses dias nós passamos com uma caixa de som tocando música, tentando animá-las. Começamos a dançar. Fazemos uma festa", ri Maria Eleni, que garante que, depois das atividades, as pacientes ficam mais relaxadas para as consultas.

"Primeiro, começamos a ter aulas de canto. Chamávamos um professor e ele ensinava a gente. Isso deu certíssimo", diz a finalista. Tão certo que, atualmente, as integrantes do Grupo Despertar têm uma agenda cheia: às segundas, aulas de dança; às terças e quarta-feiras, uma reunião com as integrantes; às quinta-feiras, artesanato; e, às sextas, aula de coral. "E ioga nós fazemos pela manhã", fala.

A abordagem mais humanizada dentro do Grupo Despertar foi possível porque Maria Eleni trouxe um frescor. "O diagnóstico de câncer não retirou dela a alegria que lhe é peculiar", diz Karla Emerenciano, médica-oncologista clínica, coordenadora de Experiência do Paciente da Liga Contra o Câncer. "Ela foi uma espécie de ponte entre gerações, uma vez que muitas pacientes já estão no grupo há muitos anos e não tinham muita afinidade com redes sociais, por exemplo."

Assim, além dos encontros semanais, as voluntárias do Grupo Despertar também participam de atividades online, como um grupo de WhatsApp agitadíssimo. Segundo Maria Eleni, tudo isso contribui para a autoestima das pacientes de câncer de mama e as fortalece.

"Quando você tem uma posição mais positiva sobre as coisas, elas fluem. Se você abaixa a cabeça, não funciona. Vem a tristeza, a vontade de ficar trancada. Quando você está alegre, tem vontade de enfrentar o tratamento."

Sobre o Prêmio Inspiradoras

O Prêmio Inspiradoras é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. São 21 finalistas, divididas em sete categorias: Conscientização e acolhimento, Acesso à justiça, Inovação, Informação para a vida, Igualdade e autonomia, Influenciadoras, Representantes Avon.

Para escolher suas favoritas, basta clicar na votação a seguir. Está difícil se decidir? Não tem problema: você pode votar quantas vezes quiser. Também vale fazer campanha, enviando este e os outros conteúdos da premiação para quem você quiser. Para saber mais detalhes sobre a votação, basta consultar o Regulamento.

O Prêmio Inspiradoras é uma iniciativa de Universa e Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. O foco está nas seguintes causas: enfrentamento às violências contra mulheres e meninas e ao câncer de mama, incentivo ao avanço científico e à promoção da equidade de gênero, do empoderamento econômico e da cidadania feminina.