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Mulher denuncia músico da banda Bixiga 70 por violência doméstica; ele nega

O músico Mauricio Fleury, tecladista e guitarrista da banda Bixiga 70 - Reprodução
O músico Mauricio Fleury, tecladista e guitarrista da banda Bixiga 70 Imagem: Reprodução

Rute Pina

De Universa, em São Paulo

06/05/2022 16h59Atualizada em 09/05/2022 16h26

Na tarde de quinta-feira (5), a DJ e editora de vídeos Giuliana Nunez, 32 anos, enviou para uma lista de transmissão do WhatsApp um depoimento no qual denuncia Maurício Fleury, 40 anos, tecladista da banda paulistana Bixiga 70, por agressão física e abuso psicológico. O casal manteve relacionamento por seis anos, de 2015 a 2021.

Segundo conta no relato, o músico a teria agredido e estrangulado. "Ele apoiou o joelho na minha garganta. Senti falta de ar, fiquei preocupada se viveria", conta, em entrevista a Universa. As informações também constam no boletim de ocorrência registrado por Giuliana e ao qual a reportagem teve acesso.

A agressão teria acontecido no dia 21 de setembro do ano passado, após uma briga na residência do casal, na Vila Anglo Brasileira, zona oeste de São Paulo. Universa conversou com o músico, que nega ter estrangulado a ex-companheira. Segundo sua versão, ele vivia um relacionamento abusivo e teria sido agredido por Giuliana (leia mais abaixo).

Giuliana decidiu trazer o caso a público nesta semana, após o anúncio de um show da banda no Mundo Pensante, casa de shows em São Paulo em que ela também se apresenta como DJ. Pelo Instagram, o Mundo Pensante comunicou que o show da banda, programado para este sábado (7), foi cancelado "em comum acordo com o restante da banda", devido à denúncia. "Não compactuamos com nenhum tipo de violência, e isso se estende a todos que frequentam nossa casa, seja em cima do palco, ou fora dele."

DJ registrou B.O. em março

A advogada Mariana Fideles, representante legal de Giuliana, afirma que o boletim de ocorrência eletrônico foi feito com base na Lei Maria da Penha, e que a defesa aguarda "os procedimentos para encaminhamento da situação na esfera criminal". Segundo ela, também serão tomadas "as providências cabíveis na esfera cível". Giuliana foi intimada pela Polícia Civil a comparecer à Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher e prestou depoimento no dia 20 de abril.

Fideles havia requerido uma medida protetiva à DJ, mas ela foi negada por não existirem episódios de violência recentes nem aproximações indesejadas desde a separação. Agora será instaurado o inquérito para a averiguação dos fatos.

Relacionamento foi marcado por abuso psicológico, afirma a DJ

Segundo a DJ, a relação entre ela e Fleury foi marcada por abusos psicológicos e violência sexual, que se agravaram quando eles passaram a morar juntos, no final de 2015. "Qualquer coisa que eu falasse era motivo de briga, xingamento e humilhações", disse. "Depois, ele se acalmava e pedia desculpas."

"Sempre gostei muito dele porque eu tinha uma visão dele, principalmente pela banda, de como ele subia no palco e das coisas que ele falava. Eu tinha uma admiração gigantesca por ele antes de conhecê-lo. Então, isso invadiu muito a relação. Foi muito difícil cair a ficha, mesmo depois que ele me agrediu, que eu deveria descontruir a ideia que eu tinha sobre ele."

Giuliana conta que começou a ler sobre psicologia para "se consertar". "Um dia, eu li que se a pessoa sempre aciona o botão da falta de controle na outra, isso poderia ser um sinal do abuso. E eu percebi que ele fazia isso comigo", conta. "Ele falava que eu era agressiva e violenta, sendo que eu só levantava a voz para me defender. Só que eu passei a acreditar nisso e a achar que eu era abusiva", relembra. "Me sentia louca, fui me calando e fiquei isolada das pessoas."

Ápice dos abusos foi agressão, relata ex-namorada

Durante a pandemia, o músico e a DJ ficaram sem a renda dos shows e das festas —o que, diz ela, gerou dependência financeira também.

No segundo semestre de 2021, Giuliana voltou a conseguir trabalhos e uma renda extra. O que foi, segundo ela, o estopim para mais brigas entre o casal. Ela conta que, por não ter conta bancária na época, pediu para depositar um cachê na conta do companheiro e que ele teria usado parte do valor sem sua autorização.

"A briga, no entanto, não era pelo dinheiro. Era pouco o que ele tinha usado. Mas era pela reação e humilhações. Ele me chamava de ingrata, nojenta."

Giuliana conta que pediu a Maurício que se retirasse do quarto, mas ele permaneceu no local. "Eu perdi o controle psicológico e joguei um balde de água nele. Na sequência, fui até o estúdio dele, que ficava na nossa casa. Ele foi atrás. Em menos de um segundo, eu já estava caída no chão. Ele me jogou tão forte e tão rápido que não conseguir reagir."

"Fiquei com feridas nas costas e hematomas. Ele, então, apoiou o joelho na minha garganta e me estrangulou."

O casal ainda permaneceu junto, por mais três meses, até nova briga em dezembro, quando se separou.

Em fevereiro, quatro meses após o episódio, ela conta que percebeu, durante terapia, que se sentia injustiçada. "Foi aí que virei a página. Decidi que iria começar a falar sobre o assunto e contar sobre a agressão. Eu achava que as pessoas iriam me deixar sozinha, mas elas foram me apoiando. Amigas começaram a me apresentar a outras mulheres que passaram por violência doméstica e encontrei uma rede maravilhosa."

"Ele sobe no palco e fala discursos como 'Marielle Vive', 'Justiça para Moïse [Kabagambe, congolês de 24 anos assassinado em janeiro deste ano no Rio de Janeiro]'. A pessoa que diz isso é a mesma que me enforcou e me tirou o ar até eu me preocupar se eu ia passar por aquilo viva."

O que diz o músico

Universa conversou com o músico Maurício Fleury por videoconferência, no dia 19 de abril. O instrumentista nega a agressão e não confirma os fatos narrados por Giuliana no boletim de ocorrência. Segundo o músico, ele teria sofrido com agressões físicas, ciúme e abusos psicológicos.

Fleury afirma que as brigas, que começaram por questões financeiras, teriam se agravado e que ele sofreu violência física. "Ela começou a me bater, começou a me botar para fora do quarto, e eu pedi calma. A gente conversou, e me desculpei. Mas, de repente, ela começou a gritar muito e a se exaltar. Ela pegou um balde de água, que estava suja de poeira e desinfetante, e jogou em cima de mim."

"E começou a derrubar os instrumentos, me xingou e começou a me bater, com socos e chutes. Eu a abracei e segurei até o lado de fora do estúdio. Quando soltei, ela me deu vários murros. Foi nessa hora que a segurei. Mas ela torceu meus dedos. Eles doem até hoje, eu fiquei bem machucado", contou o músico, seis meses após o episódio.

Ele afirma que não registrou boletim de ocorrência das agressões pois queria preservar Giuliana. Além disso, afirma que demorou a perceber que era vítima na situação. "Fiz muita terapia para entender."

O que diz a banda Bixiga 70

À reportagem, a banda Bixiga 70 —que tem nove integrantes, todos homens— enviou uma nota, no dia 20 de abril, dizendo que "apoia a posição de Maurício Fleury, seja pela nossa amizade de mais de 15 anos como pela sua trajetória de 12 anos como componente do nosso grupo, sempre demonstrando postura respeitosa, ponderada e, acima de tudo, conciliadora, pacífica e antimachista com todas as pessoas que cruzaram nosso caminho ao longo de nossa jornada profissional."

A nota afirma ainda que os integrantes da banda torcem "para que tudo se esclareça o mais breve possível" e que, como instituição, "acredita na idoneidade de Mauricio Fleury".

Após a denúncia de Giuliana e o cancelamento do show, a banda soltou um comunicado público dizendo que o músico decidiu se afastar da banda "para lidar com o foco e o tempo que a situação exige" e que a banda "reconhece e apoia o direito de toda e qualquer vítima de violência, sobretudo mulheres, de se sentir segura e protegida para fazer as denúncias que julgar pertinentes".


Banda já teve outro integrante afastado por denúncia de assédio

Em 2014, o percussionista Gustávo Cek, cofundador da Bixiga 70, foi alvo de denúncias de abuso sexual por mulheres que teriam se relacionado com ele. A banda Bixiga 70 afastou o músico três anos depois, em 2017, quando as denúncias ganharam corpo no blog "Bandas brasileiras com denúncias de atitudes machistas", que na época fazia exposição de casos envolvendo músicos e que, hoje, está fora do ar.

Universa pediu um posicionamento da Bixiga 70 também sobre o caso de Cek, mas a assessoria respondeu apenas que "a banda não quer se manifestar a respeito". Apesar das denúncias nas redes sociais, não houve inquérito para apurar as alegações contra o percussionista, que não foi alvo de nenhum processo judicial sobre o episódio.