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'Mulher corre mais risco', diz diretora de ONG que ajuda refugiados

Luciana Capobianco, diretora da ONG Estou Refugiado, que busca oportunidades de trabalho para refugiados  - Divulgação
Luciana Capobianco, diretora da ONG Estou Refugiado, que busca oportunidades de trabalho para refugiados Imagem: Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa, em São Paulo

19/03/2022 04h00Atualizada em 19/03/2022 10h13

"O mundo é masculino. Quando se vê uma mulher sozinha, em situação de extrema vulnerabilidade, sem dinheiro e desesperada, há uma interpretação de que ela pode ser alvo de abusos". Luciana Capobianco, diretora da ONG Estou Refugiado, resume assim a situação em que mulheres refugiadas por vezes são colocadas ao fugirem de guerras, perseguições ou outros fatores que desestabilizam o próprio país.

Com o conflito entre Rússia e Ucrânia em curso, aumenta a atenção sobre os riscos que as refugiadas correm. O estupro, em condições como essa, é inclusive usado como arma de guerra. Luciana afirma que para algumas das refugiadas que atende, principalmente, venezuelanas, "o desafio é chegar ao Brasil sem ter sofrido nenhum tipo de abuso sexual".

Fundada em 2017, a ONG Estou Refugiado tem base em São Paulo e uma tarefa: fazer a ponte entre empresários e empresas que queiram contratar refugiados para atuarem em postos de trabalho. A percepção de Luciana Capobianco é de que quando as pessoas que fogem do próprio país chegam ao Brasil as complicações carregam outras nuances —inclusive, conectadas às questões de gênero.

O maior fluxo de refugiados para o Brasil vem da Venezuela: até dezembro do ano passado, foram 57 mil pedidos de refúgio de venezuelanos e venezuelanas, segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Para se ter uma ideia, o número é seguido por pedidos do Senegal (3.487) e Haiti (2.848).

"Essas pessoas passam por situações de abuso ou de muito estresse. O mundo as olha como vulneráveis, mas elas não são, elas estão", pontua.

"Mas há uma falta de percepção disso. É o que aconteceu naquela coisa horrorosa do 'Mamãe Falei' [o deputado Arthur do Val foi à Ucrânia e disse, em áudios, que as mulheres de lá eram 'fáceis porque eram pobres']. É uma coisa absurda, mas que existe não só em relação à refugiada. No Brasil, também temos muitos homens que se aproveitam de meninas vulneráveis com o intuito de ter 'retorno' sexual."

Relatos e sinais de socorro

A dificuldade de comunicação por idiomas diferentes, o medo de ser violentada e de perder o apoio que tem no país em que está morando fazem com que mulheres sofram mais riscos no processo de refúgio do que homens, diz Luciana. "A gente sabe que há alguns sinais de socorro meio universais, mas há histórias preocupantes. A de uma refugiada, por exemplo, que deixou os filhos na Venezuela e só conseguiu trazê-los três anos depois, pegando caronas, para ter condições de encontrá-los".

No papel de intermediadora entre empresas e refugiados em busca de emprego, Luciana diz que o risco de assédio também está por ali.

É comum receber e-mail de homens, pessoa física, que dizem estar procurando uma refugiada, de preferência negra, para trabalhar na casa deles

"Não respondemos, porque é uma linha tênue para ela identificar se ele vai se aproveitar dela, essa mulher pode ficar com medo de reportar alguma coisa... Ela geralmente não conhece seus direitos."

Políticas públicas ajudariam no acolhimento

Para Luciana, o fortalecimento de políticas públicas para acolhimento de refugiados ajudaria a mapear as necessidades deles, dando assistência não só na inserção no mercado de trabalho, mas no reestabelecimento prático da vida. "O empresariado também precisa ter um olhar mais social, investir na capacitação das pessoas, dar treinamentos. Há ainda o poder de inclusão pela arte, o que colabora para diminuir a xenofobia, os preconceitos."

Na ONG, há o projeto "Cores do Mundo" em que artistas refugiados pintam muros em São Paulo com elementos artísticos ligados à cultura de seus países: