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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Após fugir da Ucrânia, refugiadas correm risco de estupro e tráfico humano

Refugiadas ucranianas mulheres guerra da Ucrânia - NurPhoto via Getty Images
Refugiadas ucranianas mulheres guerra da Ucrânia Imagem: NurPhoto via Getty Images

Colunista de Universa

15/03/2022 04h00Atualizada em 15/03/2022 11h55

Desde que a guerra na Ucrânia começou, mais de dois milhões e meio de refugiados já deixaram o país, de acordo com a ONU. A grande maioria é mulheres e crianças, já que os homens são obrigados a ficar no país para lutar. Sim, é trágico. Mas piora.

Segundo a polícia de países da Europa e entidades de apoio a refugiados, essas mulheres (e também seus filhos) estão correndo um alto risco de serem vítimas de abuso sexual e tráfico humano. Sim, depois de conseguirem escapar de bombas, elas correm o risco de serem estupradas.

Na Polônia, fronteira da Ucrânia e principal rota de fuga, casos de estupro já foram registrados. Segundo a polícia, uma mulher ucraniana de 19 anos foi estuprada por um homem que ofereceu sua casa como acomodação para refugiados na Internet. Nesse caso, pelo menos o suspeito foi preso. Mas há pelo menos mais dois relatos de outras adolescentes que teriam sido estupradas em acampamentos para refugiados no país.

Alguns desses criminosos, como o estuprador da Polônia, se aproveitam da onda de solidariedade aos refugiados que acontece na Europa no momento.

Explico: como são muitos refugiados chegando ao mesmo tempo, as cidades ainda não estão preparadas para abrigar a todos. Por isso, populares estão oferecendo as suas casas. Algumas pessoas de países próximos à Ucrânia (caso da Alemanha, onde moro) organizam comboios para trazer refugiados para o país.

Na principal estação de trem de Berlim, há todos os dias dezenas de pessoas com cartazes oferecendo suas casas para acomodar refugiadas. Há também diversos grupos na internet onde pessoas oferecem acomodação.

Nesses grupos, organizados no Telegram, todos os dias há pedidos urgentes de acomodação de famílias.

Em Berlim, a polícia divulgou um aviso implorando para que mulheres não sejam levadas para casas de homens solteiros. Segundo eles, há casos de homens tentando subornar voluntários com dinheiro para que eles deixem que eles levem mulheres para suas casas.

Nos grupos de ajuda a refugiados, a orientação é que, nesses casos, ou na suspeita de qualquer abordagem estranha, a polícia seja chamada imediatamente.

A mesma mensagem foi divulgada pela polícia no Twitter em alemão, russo e ucraniano: "algumas pessoas estão se comportando de forma suspeita ao oferecer acomodação para refugiados na estação central. Se te oferecerem dinheiro para acomodação ou você ver outra atitude suspeita, contate a polícia imediatamente."

Um oficial de polícia disse ao jornal "Tagesspiegel" que os casos registrados eram de homens de mais de 50 anos abordando mulheres jovens, muitas vezes oferecendo dinheiro.

O mesmo acontece em países que fazem fronteira com a Ucrânia e para onde milhares de refugiados escapam por dia. Na confusão da multidão na fronteira, voluntários já presenciaram, por exemplo, um homem em uma van colocando três mulheres dentro. Olha o perigo.

Não são só as ucranianas

O risco corrido pelas refugiadas da Ucrânia não é um caso isolado. Pelo contrário. Mulheres em campos de refugiados (existem vários na Europa) correm risco de abuso e muitas vezes não têm mínimas condições de proteção.

De acordo com a Agência da ONU para Refugiados, mulheres em campos sofrem com falta de privacidade e proteção, como, por exemplo, trancas para banheiro. E muitas são estupradas durante suas jornadas para escapar de guerras. Algumas delas, em troca de água e comida.

Sim, é desesperador. E é também por isso que não dá para esquecer que o deputado Arthur do Val disse que mulheres refugiadas eram "fáceis por serem pobres."