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Os segredos de Fátima: quem é a 'mãe' de 350 influenciadores digitais

Fátima Pissarra é CEO da Mynd e sócia da cantora Preta Gil - Arquivo Pessoal
Fátima Pissarra é CEO da Mynd e sócia da cantora Preta Gil Imagem: Arquivo Pessoal

Carolina Camargo

Colaboração para Universa

10/02/2022 04h00

Você pode nunca ter ouvido falar na empresária Fátima Pissarra, 44 anos, mas certamente segue no Instagram um dos seus mais de 350 agenciados. Sócia da Mynd, especializada em marketing de influência e entretenimento, ela é sócia de Preta Gil e cuida da carreira de nomes como Luísa Sonza, Lucas Neto, Pabllo Vittar e Gessica Kayane (a GKay). "Temos um convívio muito positivo com os agenciados. Eu dou conselho, trato como filho. Eles se sentem muito família. A Gkay manda: "Bom dia, mamãe". A Luísa escreve "Um beijo para minha mãe!", conta Fátima, que é mãe de uma menina de 14 anos e de um casal de gêmeos de 7.

Formada em jornalismo e com pós em marketing, Fátima decidiu apostar na internet no início da carreira. "Logo que entrei na faculdade percebi que para ser uma repórter famosa, teria que matar muita gente (risos). Ia ter de matar a Fátima Bernardes, por exemplo. Escolhi uma área que estava começando para poder me destacar", fala, sempre bem-humorada. "Me especializei em internet lá nos primórdios. Eu fazia arquitetura de informação de site. Na época, ninguém sabia o que era isso", relembra.

"Para mim, nunca teve não"

Com passagens pela Coelba, Telemar, BCP, Terra, Nokia e Vevo, Fátima acreditava que para se destacar teria de aprender o máximo possível e ser multitarefas em uma época em que o termo nem existia. "Sempre fui curiosa e queria entender o todo. Sentava com TI e pedia para ele me ensinar a programar. Com o jurídico, aprendia a ler contratos. Não queria ficar na mão de ninguém", explica. "Para mim, nunca teve não! Eu era sempre a pessoa que ia atrás e que não desistia. Ia convencendo um por um", afirma.

Em 2012, montou a Music2! em parceria com Ricardo Marques, fundador da Elemidia. A empresa fazia projetos de música para marcas e era representante oficial da Vevo no Brasil. Em 2017, fundou a Mynd com Preta Gil e Carlos Scappin — ao lado deste, também virou sócia e passou a,liderar a operação do BuzzFeed no Brasil, conforme divulgado no início dessa semana.

Agora, Fátima acaba de criar um braço para cuidar de executivos. "Quando mais de dez pessoas me pedem uma coisa, eu brinco que está na hora de criar uma área. Vamos prestar essa consultoria para profissionais de como montar redes sociais, como se comportar, o que falar, como ter engajamento", conta.

A seguir, nossa conversa com a empresária.

UNIVERSA: Como você e Preta Gil ficaram sócias?
Na época da Music2!, a gente viabilizava muitos projetos de música e vendia patrocínio para o Bloco da Preta. E ela sempre dizia que eu deveria agenciar cantores para o mercado publicitário. Porque o negócio da música não é organizado. Os empresários vendem show, é de onde vem o dinheiro. Não vem de propaganda. Um dia, eu disse: "Só se você for minha sócia!". Ela topou! Na primeira reunião, apresentei o business plan, modelo de negócios, contrato, nome da empresa e logo. Preta ficou de queixo caído. Nossa primeira agenciada foi a Pabllo Vittar. E fui trazendo gente.

Mas, em geral, é difícil chegar nas pessoas, não?
Não é difícil se você vender. Muita gente fala: "Eu tenho um negócio incrível, você vende? Outra coisa é dizer: 'Vou fazer um projeto com a tia Má, vou vender e te dar R$ 100 mil'. Vou falar: "Pode vender"! Cada vez mais, as portas vão se abrindo. O negócio é ir efetivando. Brincava que gostava de fazer isso porque o famoso me via e sabia que tinha ganhado dinheiro. Eu era a chegada da alegria! Fui pegando intimidade com vários artistas.

Fátima Pissarra, CEO da Mynd - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Fátima Pissarra, CEO da Mynd
Imagem: Reprodução Instagram

E como começou sua relação com os influenciadores?
A ideia de trazermos influenciadores foi da Preta. Ampliei a empresa, de Music2! virou Mynd, uma agência de entretenimento. Neste fim de ano, a Vevo me ligou e comunicou que havia sido absorvida pelo YouTube. Eu teria seis meses para ficar vendendo e encerrar as atividades. A Vevo representava 70%, 80% do faturamento da empresa. Pensei: "Ferrou". Mas fui conversar com meus sócios e eles me deram muita força. Decidimos aumentar o foco para agenciamentos e ampliar os serviços. Vi quem eram os artistas mais tocados do Spotify e saí ligando para os empresários (risos). Começamos a crescer o agenciamento. Por exemplo, vi um vídeo da Letícia Muniz dizendo que era uma humorista, que falava palavrão, mas ninguém queria contratá-la. Liguei e falei: "Quero te contratar".

Sempre fui meio ativista, sempre quis mudar o mundo. Queria fazer coisas diferentes, quebrar paradigmas. Qual problema mulher que fala palavrão? É uma visão machista!

Como era sua estratégia?
Liguei "minha cabeça de Nokia". Cada artista que vendo é um aparelho de celular, com suas funcionalidades e características, e preciso levar para o mercado, preciso que as marcas conheçam para que comprem. A área de vendas é o coração da empresa! Muitas agências têm um vendedor, dois. Eu tenho 45! Decidi que para ter uma Mynd do jeito que queria, não adiantava ter uma empresa só de pessoas brancas de São Paulo. Como eu ia vender a Pabllo não tendo gays trabalhando aqui? Como ia vender a Preta Gil se não tivesse preto aqui? Estabeleci que teríamos 50% dos funcionários pretos. Contratando por skills, e não por experiência. A nossa área é nova. O negócio é ter força de vontade!

Até igualar a equipe, só podia contratar pessoas pretas. Isso em 2017, muito antes do Black Lives Matter. Mas muita gente foi contra. Essa foi uma das maiores lutas que eu tive na vida. Existe muita resistência.

Resistência de quem?
Resistência estrutural. Eu ouvia: "Não vou achar gente qualificada". É preconceito. Não necessariamente o branco é qualificado. Quando você entra em uma empresa que tem 50% de pessoas negras, é um choque porque você não está acostumado. As pessoas ficavam chocadas, mas achavam legal, positivo. Quem ia ser contratado se identificava, era entrevistado por uma pessoa preta, ia ter um par preto. Foi uma mudança muito significativa.

O Yuri Marçal entrou na minha sala e falou: "Onde assino?" Eu disse: "Espera, deixa eu te contar como funciona". Ele disse: "Não preciso saber. Olhei e já vi como funciona".

E não é uma mudança só no ambiente, é você deixar de se impressionar quando vê pessoas pretas. É uma mudança que se espalha na sua família, nos seus amigos, no seu comportamento social. Você vai quebrando o estrutural porque já está ambientado.

Como você seleciona os influencers? Muita gente pede para trabalhar com você?
No meu Instagram tem um monte de gente que pede. As pessoas dizem: "Quero ser influenciador, me ajuda". A gente não trabalha com quem quer ser. A gente pega quem já está consolidado. Não adianta só fazer um Instagram com um monte de fotos de biquíni. Tem de investir, treinar, comprar equipamentos. Não é simplesmente querer ganhar dinheiro fácil sem fazer nada. Muito pelo contrário, os influenciadores grandes acordam às 8h da manhã e gravam o dia todo. Eu falo sempre: "Alguém da Mynd tem de se apaixonar por você". Achava o Eddy Jr incrível, mandava direct e ele não respondia. Um dia, em uma festa, ele passou, fui atrás. "Pelo amor de Deus, me deixa te agenciar". Me dá uma oportunidade!"


Uma polêmica envolvendo a Banca Digital, no ano passado, apontava que muitos posts eram vendidos. A Banca Digital faz parte da sua empresa? Como funciona?
A gente agenciava a GKay, Rafa Uccman, Luisa Sonza, e começamos a agenciar perfis de notícias e memes: o Fofoquei, o Alfinetei, a Rainha Matos. Passamos a vender publicidade no perfil e demos o nome de Banca Digital porque é um monte de perfil de notícia, perfil de "revista" dentro do Instagram. Não somos nós que fazemos a notícia, não somos donos dos perfis, assim como não somos donos da GKay nem da Luisa. Vendemos publicidade e projetos, não existe interação editorial da Mynd. O que falamos para os agenciados? Foi pago? Tem que estar escrito #publi.

Mas isso ainda é um problema no Brasil. Muitas influenciadoras fazem publicidade sem falar que é e ainda dizem que é dica.
Não pode. A Banca foi a mesma coisa. Ainda tem muita gente que não tem agência e não coloca a hashtag. A gente está em um mercado novo. Quando veio a polêmica, juntei todo mundo e falei: "Não dá mais!" Precisamos dar um passo para o desenvolvimento profissional dos perfis. Se a gente descobrir que foi pago para sair uma notícia sem a hashtag #publi, é demitido. Seguimos as regras para que isso não aconteça. Está na legislação. Então, precisamos que os agenciados sigam também.

Você é workaholic?
Estava em um relacionamento e a pessoa dizia: "Vem ver uma série em vez de trabalhar!". Por que tenho de ver uma série que não gosto em vez de fazer um ppt? Amo meu trabalho. Para mim, ficar em uma planilha do Excel é desconectar. Ir na casa da Gkay e ouvir os agenciados falarem, pensar em projetos, é desconectar. Eu quero me desligar das coisas chatas, dos problemas da escola das crianças, da minha mãe reclamando que está doente, e não do trabalho, entende? Queria que o dia tivesse mais horas para poder trocar mais ideias nos grupos, conhecer mais pessoas.

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