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Sara Winter: 'Quando Lula e Dilma eram presidentes, eu podia gritar'

Luiza Souto

De Universa

27/11/2021 04h00

Sara Winter, 29, está decepcionada com o governo do presidente Bolsonaro (sem partido). Conhecida por ter ido do lado mais radical do feminismo à extrema-direita, a ativista diz que nem mesmo a ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves (que, conta, a bloqueou no WhatsApp no ano passado), representa o conservadorismo. E hoje prefere usar a seu favor a mesma energia com a qual antes defendeu o presidente da República:

"Se as pessoas que passam o dia inteiro defendendo Bolsonaro usassem esse mesmo ímpeto para o seu desenvolvimento pessoal, para o desenvolvimento da sua família, para a criação dos seus filhos, nós teríamos um Brasil muito, muito melhor", afirma, em entrevista exclusiva a Universa.

Por isso, está de mudança para o México: ela conta que foi contratada pelo Instituto de Investigación Social para o cargo de diretora de projetos. No site da instituição, Sara é anunciada como instrutora no curso 'Aborto: Implicações Bioéticas e seus Conflitos nas Relações Internacionais'. É também apresentada como uma mãe católica devota, formada em Relações Internacionais e pós-graduada em Ciência Política.

A informação sobre sua formação não é correta. Como mostrou uma reportagem do UOL, com dados obtidos por Lei de Acesso à Informação, Sara concluiu apenas o curso de assessoria em marketing pessoal e político para candidatos na Uninter (Centro Universitário Internacional), em 2017. Os demais cursos, segundo a faculdade, "estão com status ativo" e "em andamento".

Em 2020, Sara ganhou projeção nacional ao acampar na Esplanada dos Ministérios em Brasília e pedir o fechamento do Congresso Nacional e a saída de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). Foi presa em junho do ano passado pela Polícia Federal a pedido do ministro Alexandre de Moraes no inquérito que apura manifestações de rua antidemocráticas.

Solta, ela conversou com Universa por videochamada direto de São Carlos (231 quilômetros da capital paulista), onde nasceu. A entrevista foi feita no dia em que, pela primeira vez, ela iria ao cabeleireiro após tirar a tornozeleira eletrônica.

Sara voltou às manchetes na última semana após dar uma entrevista à revista IstoÉ. Nela, ela teria afirmado que recebeu orientações do ministro general Augusto Heleno, do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), para atacar o STF durante a ação do acampamento do seu movimento, o "300 do Brasil", em Brasília, no ano passado. O ministro negou as acusações e Sara diz que suas palavras foram deturpadas na conversa com a reportagem.

Falou ainda que - apesar de decepcionada com os homens de direita - "Sou corajosa e eles têm muito a aprender comigo" - não voltou a se considerar feminista já que, segundo ela, "correr atrás de direitos é democracia, não feminismo".

A seguir, leia os principais trechos da entrevista:

Líder do grupo 300 do Brasil, Sara Winter, ao centro, com membros do acampamento -  Reprodução / Instagram 300 do Brasil  -  Reprodução / Instagram 300 do Brasil
Líder do grupo 300 do Brasil, Sara Winter, ao centro, com membros do acampamento
Imagem: Reprodução / Instagram 300 do Brasil

UNIVERSA: Em entrevista recente à IstoÉ, você afirmou que o ministro general Heleno deu orientações para que seu movimento, o "300 do Brasil", em Brasília, parasse de criticar a imprensa e o então presidente da Câmara Rodrigo Maia e direcionasse todos os esforços contra o STF (Supremo Tribunal Federal), o que ele nega. O que de fato foi pedido?
SARA WINTER: Não partiu dele. O general já tinha chamado a gente para uma conversa, e essa informação já existia desde outubro do ano passado. Eu e mais duas pessoas fomos levadas por carros oficiais ao seu gabinete. Nessa conversa, que durou um pouco mais de uma hora, ele pediu para a gente largar esse negócio de bater na imprensa e no Rodrigo Maia, e nós perguntamos se podíamos bater no STF. Ele respondeu que podia subir o tom com eles. Na minha opinião, não foi uma diretriz. E quando tínhamos as nossas ações, a gente ligava para um servidor de dentro do gabinete para perguntar o que podia fazer.

Ele se mostrou ainda muito descontente com o comportamento do presidente, disse que ele supostamente não o escutava, que era uma pessoa muito difí­cil, teimosa. E elogiou nosso ato, principalmente porque nunca usamos violência.

Em nota, o GSI informa que o ministro "já respondeu em suas redes sociais" sobre o tema. No Twitter, ele escreveu:

Mas vocês não estavam armados? Há imagens sua com arma.
Ela era de um estande de tiro, do meu primeiro curso. Ali dentro do acampamento não tinha ninguém armado. Nunca. Até porque existe uma lei no Brasil que diz que você não pode ir para manifestação armada, e nós sempre seguimos muito à risca todas as leis possíveis.

Sara Winter está decepcionada com o governo Bolsonaro - Reprodução/Instagram @apropriasarawinter - Reprodução/Instagram @apropriasarawinter
Sara Winter garante que não havia armas no 'acampamento dos 300'
Imagem: Reprodução/Instagram @apropriasarawinter

Você tem dito nas redes sofrer ameaças, e que está planejando sair do Brasil. É verdade?
Já era um plano sair do Brasil antes do acampamento, mas agora é algo prioritário. Infelizmente, minha mãe se acidentou [Regina Fátima quebrou o fêmur numa queda] e preciso ficar aqui por um tempo para cuidar dela. Mas hoje entendo o Brasil como um lugar que não é mais seguro para mim, onde a liberdade de expressão foi suprimida por algumas instituições, e ela tem sido suprimida também pelos próprios movimentos, de esquerda ou direita. Sofri muitas ameaças, a casa da minha mãe foi apedrejada. Chegaram a ligar no celular dela dizendo que se eu não parasse de falar do Bolsonaro eu ia pagar caro.

Estive 5 anos na esquerda e na direita, e tomei uma decisão de que político nenhum, nenhuma ideologia vale meus esforços, minha vida. Mas não deixei de ser conservadora. Acima de tudo, sou católica. Não é pelo Bolsonaro, mas por Jesus e Nossa Senhora

Você fala de ataques a você e sua mãe, mas você já ameaçou o ministro Alexandre de Moraes, disse que queria trocar soco com ele. Essa atitude também seria liberdade de expressão?
Quando gravei o vídeo para o ministro Alexandre de Moraes, eu estava sob uma forte emoção devido ao fato de a Polícia Federal ter entrado na minha casa quase derrubando a porta.

Eu estava seminua, dormindo só de calcinha, tive meu corpo exposto e fazer minhas necessidades na frente de um agente. Meu filho de 4 anos foi exposto ao ver a casa em que morava sendo invadida por um monte de policiais. Mas eu escolhi palavra por palavra e posso repetir. Disse: 'Se eu estivesse em São Paulo, iria até seu condomínio e te convidaria para trocar socos comigo'. Dentro da língua portuguesa, a frase remete a um convite.

Você também publicou nas redes o nome de uma menina que foi estuprada e ficou grávida aos dez anos e divulgou o nome do hospital onde ela fez o procedimento do aborto. Por quê?
Na verdade, não divulguei o nome dela. Estava numa transmissão ao vivo, falando com uma pessoa, e ela pediu para divulgar uma hashtag. Perguntei se tudo que ela estava me passando era de domínio público, e ela confirmou. Então, copiei e colei a hashtag, com o primeiro nome da menina e a frase 'salvemos as duas vidas'.

O nome dela já estava sendo divulgado por outras pessoas, mas como sou a Sara Winter, sobrou pra mim. Em momento nenhum pedi que as pessoas fossem lá e agissem de maneira agressiva, mas rezassem o terço, que é uma prática pró-vida comum no mundo.

Falaram, inclusive, que foi a ministra Damares Alves quem passou os dados. Isso procede?
Não. Não tenho mais contato com a Damares, o que me machuca muito. Falei com ela pela última vez no dia 27 de maio do ano passado, quando sofri a primeira busca e apreensão. Ela me chamou para encontrá-la na casa de uma amiga nossa em comum e implorou para que eu desmontasse o acampamento. Chorou copiosamente, me abraçava e pedia pelo amor de Deus.

Eu sempre tive uma tendência de obedecer a Damares. Ela é minha grande mentora ideológica, política, e a gente tinha uma relação muito maternal.

Mas naquele dia ela disse que não queria que o acampamento fosse responsável por uma nova disseminação de covid, e não comprei essa explicação. Não sei se alguém pediu para ela me convencer a desmontar o acampamento ou se já sabia que eu seria presa. Talvez, se ela tivesse falado a verdade, eu teria obedecido. Ela deu o último suspiro dela como mãe, e acho que depois disso largou mão de mim. Me arrependo.

A reportagem procurou o MMFDH e aguarda retorno

Você considera que tudo que aconteceu com você -- as ofensas, as prisões -- foram uma violência de gênero, por ser mulher?
Não foi pelo fato de ser mulher, mas pelo fato de ser corajosa. Outras pessoas foram presas também, e a maioria homem. Considero uma vergonha para a direita. Muito se fala sobre o papel da mulher, mas eu tive que me levantar, começar um acampamento e liderar isso sem querer, porque estava com uma carreira maravilhosa.

Eu não precisava levantar acampamento para defender o governo. Mas não tinha homem o suficiente para isso. Precisou de uma mulher de 1,60 m ter coragem para fazer. Acho que, na verdade, os homens de direita têm muito a aprender comigo.

Correr atrás do seu direito, levantar acampamento, lutar pelo que você acredita não é feminismo?
Acho que não. Na verdade, o movimento feminista não tem nada a ver com direitos das mulheres. Quando você vai estudar as primeiras feministas, percebe que o movimento tem um único objetivo que é o de destruir a natureza da mulher. Mulheres e homens são diferentes, fisiologicamente falando. E o objetivo do feminismo é subverter a mulher para que ela seja cada vez mais parecida com o homem. Correr atrás de direitos é democracia, não feminismo.

Ano que vem teremos eleições estaduais e presidenciais. Pretende se candidatar, ou já tem um candidato?
Eu não sou candidata, e provavelmente não serei nunca. Não tenho a pretensão de carreira política neste sentido. Não me vejo assumindo um cargo público. Já fui candidata em 2018, e não me arrependo, porque tive um aprendizado muito grande.

Não estarei no Brasil e provavelmente não votarei. Sobre os candidatos, se for Ciro Gomes (PDT), Lula (PT), Bolsonaro (sem partido), Sergio Moro (Podemos), eu votaria no Bolsonaro de novo. Isso não significa que eu seja fã dele. Nem que defenda ele incondicionalmente. Mataram aquele Bolsonaro de 2014, o deputado federal que inspirava os conservadores: essa figura foi morta e enterrada e não existe mais.

Está decepcionada?
Não posso dizer que me decepcionei com o Bolsonaro. Com ele também, mas com o governo inteiro. O Bolsonaro se elegeu com pautas conservadoras. Um ano depois da eleição, todos os conservadores que estavam trabalhando no governo foram mandados embora. Não sei o que a Damares é hoje, sinceramente. E eu não quero usar o espaço para falar dela porque tenho muito mais a agradecer, por mais que esteja magoada pelo fato de ela ter me bloqueado no WhatsApp, não ter mais relação nenhuma comigo. Mas definitivamente o ministério da Damares não é conservador.

Hoje, acho que o governo Bolsonaro foi uma grande ilusão para os conservadores. Nada do que esperávamos foi feito, como pautas antiaborto, antigênero.

Com relação à liberdade, as coisas só pioraram. É uma ilusão muito grande achar que os conservadores estão no poder. Se estivessem não ia ter tanta gente presa. Está pior. Quando Lula e Dilma eram presidentes, eu podia ir para a rua gritar o que eu queria contra o governo. Agora não posso.

Bolsonaro não tem nenhum poder. Ao contrário. Hoje, quando a gente tenta fazer uma crítica construtiva com intuito de ajudar o governo a melhorar, os bolsonaristas acham ele um coitado por estar sozinho. Bolsonaro conseguiu ser um líder de uma nação a qual seus liderados não têm admiração por ele, mas misericórdia, dó, pena. Para mim, isso é triste porque mostra que ele não tem força para se manter no poder. Não sei se ele vai conseguir se reeleger.

Como você trabalha sua saúde mental para passar por isso tudo?
É muito complicado. Eu sofro de depressão e comecei a me automutilar aos 11 anos de idade. E a pessoa que me fez vencer isso foi a Damares. Faço terapia, vou ao psiquiatra, psicólogo, mas o que me mantém nos eixos é religião: a missa dominical, confissão semanal, eucaristia, fazer caridade e rezar o Rosário todos os dias.

Acho que as pessoas estão adoecendo mentalmente, e por questões políticas. Elas passam dia após dia em grupos de WhatsApp de política, gastam um tempo numa energia nisso.

Se as pessoas que defendem Lula focassem esses esforços no seu desenvolvimento pessoal e no de sua família, elas seriam mais felizes. Se as pessoas que passam o dia inteiro defendendo Bolsonaro usassem esse mesmo ímpeto para o seu desenvolvimento pessoal, para o desenvolvimento da sua família, para a criação dos seus filhos, nós teríamos um Brasil muito, muito melhor.

Não quero mais saber nem de lulista, nem de bolsonarista. Quero saber do meu filho, da minha família, da minha carreira. Essa é a prioridade.

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