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Sara Winter no ministério de Damares: "Amar mulheres não é ser feminista"

Sara Winter já foi militante  - Reprodução/Instagram
Sara Winter já foi militante Imagem: Reprodução/Instagram

Luiza Souto

Da Universa

26/04/2019 04h00

A ex-feminista Sara Winter, de 26 anos, anunciou oficialmente sua nomeação como coordenadora nacional de políticas à maternidade, convite feito pela ministra de Mulheres, Família e Direitos Humanos Damares Alves.

Com foto posada ao lado da pastora, que é sua amiga, Sara escreveu no Twitter que sua luta "por um país sem aborto, sem violência obstétrica, com mais dignidade, conforto e segurança para a gestante e o bebê só está começando".

"Vamos tratar de vida, não de morte", explicou ela à Universa. Fundadora do Femen Brasil e hoje convertida ao catolicismo, Sara disse ainda que vai propor discussão sobre educação afetiva no lugar da sexual, garantiu que a pasta formada por mulheres conservadoras fará política pública "para todas as brasileiras" e, tal qual Damares, defendeu a submissão no casamento: "Nós, cristãos, acreditamos que os homens têm que nos amar acima de tudo".

Universa: Quais serão suas propostas?

Sara Winter: Promover políticas focadas a médio e longo prazo para a mulher que quer se preparar para ter filhos, a que está gestante, a que já pariu e a que, infelizmente, perdeu o bebê em decorrência do aborto espontâneo.

Mas o que tem de concreto?

Estamos fazendo um cadastro com instituições pró-vida, sem fins lucrativos, mantidas por instituições religiosas ou de maneira independente, para resgatar mulheres que estão procurando fazer o aborto e dar a elas condições de continuar a gestação. Esses lugares vão fornecer assistência às mulheres em situação de risco, como cesta básica, acompanhamento pré-natal e atendimento psicológico.

E o que mais pretende propor?

Por conta da revolução sexual, os adolescentes estão se relacionando muito cedo. Isso causa tantos estragos, principalmente para as mulheres, que são mais emotivas, se apaixonam e são largadas, sofrem. Tenho um desejo, e pretendo propor isso, que a gente não fale mais sobre educação sexual, mas educação afetiva. Quando a gente fala de educação sexual, só cita a camisinha e a pílula. Não precisamos só falar que a masturbação é boa, mas que a família é boa também.

Haverá projetos para as mulheres que não querem dar seguimento à gravidez?

A coordenação [no ministério] é de maternidade, no executivo. Ela não legisla ou tem abertura para tratar de temas como aborto. Vamos tratar de vida, não de morte.

Você disse que já salvou mais ou menos 700 bebês do aborto com suas palestras em defesa da vida e o trabalho voluntário de convencer as mulheres a não abortarem. Como chegou a esse número?

Muitos são contabilizados nas nossas redes de atendimento. Tenho muitos depoimentos de mães que me agradecem por terem seus bebês. É um trabalho cotidiano via telefone ou presencial. E em todos os atendimentos presenciais, nunca perdi um bebê.

Continuará dando palestras e fazendo esse trabalho voluntário?

Continuo dando palestras enquanto não tomo posse, até maio. E se não estiver trabalhando, estou livre para exercer meu direito de falar.

Como é essa conversa com as mães?

Quem faz esse tipo de atendimento é preparado por meio de um curso em que aprendemos técnicas para conversar com essa mulher, mas não posso dar detalhes porque poderia atrapalhar. Somos bem discretos. Sem isso, as pessoas não teriam a confiança para se abrir.

Quando vocês não convencem a mulher a levar a gravidez adiante, encaminham para outro atendimento?

Não. Somos pró-vida e não ajudamos nenhuma mulher a fazer aborto. Quando uma mulher pensa em abortar, ela está sozinha, não tem emprego, está sofrendo, num relacionamento violento. E quando se dá alternativa e se mostra que há saída, ela desiste. Essas mulheres procuram o aborto porque não têm ideia do que é uma vida em formação. O aborto não é uma opção, é a falta dela. Nesses quatro anos, vi muitas mulheres arrependidas de terem feito o aborto, mas nunca vi as arrependidas por terem seus filhos.

Nem em casos previstos em lei, que são anencefalia, estupro e riscos para a mãe? Ou mesmo doenças graves?

Não acreditamos que o aborto da pessoa com deficiência seja uma razão. Estimulamos que a mãe tenha o filho com deficiência e, mesmo se não o quiser, encorajamos a adoção. Existem comunidades que adotam bebês com alguma deficiência ou síndrome. E quando as mulheres são diagnosticadas com algum tipo de problema durante o pré-natal, cobramos dos órgãos de saúde o atendimento necessário para ela levar a gravidez adiante. Se o estado não quiser dar, iremos buscar medicamentos para cuidar da saúde dela. Mas se quiser procurar por conta própria o aborto, a decisão é dela. Jamais vamos julgá-la.

As propostas desse grupo do qual você faz parte serão levadas para a pasta?

Sim, essa é a ideia.

Uma pasta com mulheres conservadoras e religiosas vai atender a uma população com opinião contrária as suas ideias?

Na Secretaria da Mulher existem pessoas de várias denominações. Sou católica praticante. Minha chefe é evangélica. Temos pessoas espíritas, ateus e agnósticos na equipe. Sabemos que o estado é laico e faremos política pública para todas as brasileiras.

Como você se preparou para essa etapa?

No meio do ano termino a graduação de relações internacionais na Uninter (Centro Universitário Internacional). Fiz cursos de extensão que ajudaram na minha formação, principalmente de crimes na administração pública. Agora farei mestrado em bioética na Fundação Jerome Lejeune e uma pós em políticas públicas. Ainda estou escrevendo um livro. Falta ver a escolinha do meu filho, de 4 anos, e concluir a mudança para Brasília. O casamento sai no começo do próximo ano.

Seu empenho a favor das mulheres não significa ser feminista?

Eu me considero estudiosa do tema. E acredito que amar outra mulher não é ser feminista. A primeira feminista de que se tem história, Christine de Pizan, escreveu um livro chamado "A Cidade das Mulheres", que era uma sátira ao livro "Cidade de Deus", de Santo Agostinho. Ou seja: a primeira feminista começou sua história tirando sarro da igreja. Aí tem a Mary Wollstonecraft que escreveu sobre destruir padrões de gênero. Então, se parar para ler a bibliografia feminista, elas não querem igualdade de gênero, mas destruir os padrões de gênero, e não estou de acordo com isso. Nós não somos inferiores, mas complementares.

O que é a luta feminista para você hoje?

De fato, a luta feminista hoje não ajuda a mulher. O feminismo chega a ser mal-educado com as mulheres que são vítimas de violência. Elas precisam de discussões mais profundas além do tamanho do short, dos pelos nas axilas e sair com peito para fora em protestos. Essas discussões são muito rasas. Não sou feminista, mas pró-mulher.

Você concorda quando a ministra Damares fala que a mulher tem que ser submissa ao homem no casamento?

A ministra é evangélica e, na doutrina dela, ser submissa é estar na mesma missão e confiar no seu homem, no seu marido para estar abaixo das decisões dele. E sabemos que ele ama tanto a família que vai tomar as melhores decisões. Nós, cristãos, acreditamos que os homens têm que nos amar acima de tudo. Me pergunto qual o problema de se ter uma ministra evangélica.

Com seu noivo é assim?

Sim. É pela união. Nós somos católicos. Meu noivo, várias vezes, falou que morreria por mim. Ele é muito ordenado nas ideias. Às vezes, não estou de acordo com ele quando quero tomar decisões sobre minha carreira ou nossa vida, mas o escuto e em muitas ocasiões eu o obedeço, porque ele é muito maduro. E quando o escuto, eu acerto.