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Minha história

"Sou professora, pedreira, jogadora de futebol, passista e quero mais"

Chely é pedagoga, desfila em escolas de samba, joga futebol e trabalha na construção civil - Arquivo pessoal
Chely é pedagoga, desfila em escolas de samba, joga futebol e trabalha na construção civil Imagem: Arquivo pessoal

Chely Basilio, em depoimento a Ed Rodrigues

Colaboração para Universa

04/09/2021 04h00

"Ainda fico emocionada quando lembro dos meus sonhos de criança. Um dia eu queria ser médica, em outro aeromoça, depois atriz ou cantora. São muitos sonhos que a gente quer conquistar. Muitos dos meus já foram alcançados. Hoje, sou pedagoga, desfilo em escolas de samba, jogo meu futebol e bato um bolão na construção civil. E ainda tenho fôlego para mais.

Tudo que passei na vida me serviu de preparação. Minha infância não foi nada fácil. Tive que lidar com a dor da perda aos 4 anos. Perdi meu irmão mais velho muito cedo. Meu único irmão. Então, eu queria me destacar para preencher o vazio que a falta dele causava a meus pais. Meu pai trabalhava muito, mas volta e meia estava desempregado.

"Comecei a ajudar meu pai para substituir meu irmão"

Minha História Chely Basilio - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Chely perdeu o irmão mais velho aos 4 anos e foi trabalhar na construção civil para seguir seus passos
Imagem: Arquivo pessoal

Meu irmão o ajudava muito na construção civil. Quando ele morreu, fui auxiliar meu pai. Carregava tijolos, areia e fui observando o ofício. Ajudei a construir minha casa e as de vizinhos.

Para ele não se cansar, eu falava: "pai, deixa eu pegar a areia?". Até que comecei a fazer massa, colocar contrapiso etc. Atualmente, só não faço a parte elétrica por medo de choque, mas sei fazer. E por que uma mulher não pode? Pode, sim. Basta querer e acreditar.

Na infância, também me destacava nos esportes. Me dei muito bem com o futebol. Antes de o meu irmão falecer, a casa era cheia de meninos. Eu vivia sempre naquele meio brincando com eles. Tudo que vinha de brincadeira desses amigos, eu adotava.

As meninas queriam brincar de boneca, não havia problema algum nisso, mas sempre fui muito espoleta. Entrei na escolinha de futebol aos 13 anos.

Naquela época, viajamos muito para disputar campeonatos em outros estados. Depois, sem poder pagar a mensalidade, montei um time de bairro e estamos ajudando outras mulheres a se envolverem com esporte também.

Sempre arranjei tempo para realizar minhas atividades. Nunca deixei um desejo ser colocado de lado por causa de tempo. Alguns deles esbarraram na parte financeira.

A faculdade de engenharia civil é um dos poucos sonhos ainda não conquistados. Em Criciúma (SC), onde moro, tem a universidade, mas é muito cara. Como já tinha uma relação forte com meu bairro, pensei: por que não ser professora?

Fui pesquisando sobre a profissão e me apaixonei. Enveredei pela pedagogia e sou professora há mais de 15 anos. É uma área que me emociona muito. Fico realizada por poder repassar conhecimento.

"Minha paixão por Carnaval rendeu julgamentos"

Minha História Chely Basilio - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ela agora quer fazer faculdade de engenharia civil
Imagem: Arquivo pessoal

Relacionei toda minha vida ao carnaval, à arte. Minha participação como passista provocou alguns narizes torcidos, mas não me deixo intimidar. Fiz a turma do contra me respeitar. Desfilei nas cidades vizinhas também e fui mostrando meu talento.

Sofri muito preconceito por isso. Muito. Mas eu impus respeito. Sou professora, mas tenho minha vida particular e cada um que cuide da sua vida. Todos os desfiles que participei geraram custo que tirei do meu bolso. Em alguns, improvisei para mostrar o melhor de mim. E sempre ganho como rainha, princesa e tudo mais no samba.

Já conquistei tudo que eu quis dentro do samba, vencendo todos os obstáculos e as situações machistas ainda, infelizmente, corriqueiras. Os machistas estão em todas as áreas. No samba tem muito.

Mas pra quem passa do ponto, eu respondo à altura. Viro as costas e deixo falando sozinho. Carnaval é cultura, mas tem que haver respeito. Mas sempre levo meu marido e minhas filhas. Meu marido é um grande parceiro. Conheci o Jorge Marcos, que também é pedreiro, aos 15 anos e estamos juntos desde então.

"Lugar da mulher é conquistando seu espaço"

No futebol, muitos falavam que sou 'machorra'. Mulher que gosta de outra mulher. Como se isso fosse ofensa. Por que se eu gostasse de mulher seria uma ofensa? Por que quem gosta de futebol tem que ser homem? Não existe isso. Sempre fiz o que quis. Os desafios do dia a dia me motivaram a realizar todos esses feitos. Sempre estou mostrando que eu posso e que consigo.

Por que eu não posso jogar um futebol? Por que não posso eu mesma construir a minha casa? Por que eu tenho esperar pelo meu marido ou pagar alguém para trocar o piso da cozinha? Por que eu não posso praticar Muay Thai? Porque é um esporte pesado e eu tenho que ser delicada? Não, eu posso. Por que eu não posso dirigir um caminhão? Vou realizar isso ainda. Por que eu não posso ser professora, mãe de família e colocar um biquini e sambar na avenida?

Eu sempre me fiz essas perguntas frente aos desafios. Mesmo sabendo que a resposta às vezes é torta, negativa, mas eu sei que estou inspirando outras mulheres.

Trabalho o dia inteiro, à noite jogo meu futebol, no fim de semana vou para as construções. O carnaval está parado por causa da pandemia, mas quando voltar equilibro o tempo.

Eu sempre quis ser mais do que minha mãe foi. Sempre me inspirei no que ela me falava. E me inspiro em mim mesma também. Sempre vi que podia fazer e quis ir além. Me superar sempre.

Minha próxima superação vai ser a faculdade de engenharia civil. É planejar e conseguir. Porque o lugar da mulher é conquistando seu espaço, independentemente de qual espaço ela deseje. Tem que partir para cima. Parar de ter medo e enfrentar os desafios." Chely Basilio, pedagoga, de Criciúma (SC)

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