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Há 17 anos, ela espera indenização após ficar tetraplégica em cama elástica

Numa cama há quase duas décadas e sem família, pernambucana diz só conseguir viver com a solidariedade de terceiros e enfrentar um processo de despejo - Arquivo pessoal
Numa cama há quase duas décadas e sem família, pernambucana diz só conseguir viver com a solidariedade de terceiros e enfrentar um processo de despejo Imagem: Arquivo pessoal

Yoko Farias Sugimoto em depoimento a Aliny Gama

Colaboração para Universa

03/09/2021 04h00

A pernambucana Yoko Farias Sugimoto, de 37 anos, ficou tetraplégica há 17 anos em um acidente em uma cama elástica montada em um shopping center, em Casa Forte, na zona norte de Recife. Desde então, enfrenta uma longa batalha para sobreviver.

O sonho dela é ter uma casa adaptada, sem família, hoje um de seus maiores problemas é financeiro. Yoko nunca recebeu ajuda financeira dos envolvidos no acidente e conta com a solidariedade de amigos e de doações para se manter sozinha em um apartamento, na região metropolitana da capital pernambucana. Sem renda, corre o risco de ser despejada. Conheça a história de Yoko a seguir.

"Eu tinha 20 anos e cursava relações públicas, quando sofri um grave acidente em uma cama elástica. Era monitora em um parque instalado no estacionamento do Plaza Shopping. Eles não tinham assinado a carteira de trabalho e era meu terceiro dia de serviço. Uma pessoa estava comigo no brinquedo e caiu de joelhos em cima do meu pescoço.

O impacto esmagou minha medula, fiquei consciente após o acidente, gritava de dor e não entendia por que não conseguia me mexer.

A única ajuda que tive do parque e do shopping foi eles terem acionaram o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), que me levou para o hospital da Restauração, da rede pública. Fiquei por quase dois dias aguardando atendimento lá. Meus amigos conseguiram contato com meu pai que era japonês, e morava no Japão, para que ele enviasse um cheque caução para que eu fosse transferida para um hospital da rede privada.

Sem família, mulher tetraplégica há 17 anos luta para viver e ter onde morar - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Yoko, aos 20, já tetraplégica, com amiga, durante tratamento no Sarah Kubitschek, em Brasília
Imagem: Arquivo pessoal

Eu não tinha plano de saúde, e toda assistência médica foi particular, custeada pelo meu pai. Fui submetida a cirurgias para tentar reparar a lesão. Fiquei na UTI, depois em apartamento do hospital. Fiquei em choque quando o médico me disse que eu estava tetraplégica.

Recebi alta para casa, onde fiquei por seis anos sendo cuidada pela minha avó materna, que tinha 70 anos. Meu pai mandava dinheiro do Japão para me manter. Mas, seis anos depois, em 2010, minha avó faleceu de um infarto. Eu era criada por ela desde os 14 anos, quando minha mãe morreu de câncer.

Com a morte da minha mãe, meu pai voltou para o Japão para trabalhar. Ele tinha uma empresa de recursos humanos. Lá, ele constituiu família e teve quatro filhos. Com a morte da minha avó, fui morar na casa de uma amiga, que estudou na faculdade comigo e é um anjo em minha vida.

Meu pai, após saber que eu não tinha mais ninguém da família, teve uma atitude nobre de vir embora de vez para cuidar de mim, em 2012. Ele se organizou financeiramente e, em dois anos, se mudou de vez para o Brasil. Comprou o apartamento que moro atualmente, e tínhamos plano de ele montar empresa no Recife e eu ajudá-lo na área administrativa. Mas ele morreu de infarto em pleno Natal de 2016. Desde então, eu moro sozinha no apartamento e luto para sobreviver com tantas despesas que a tetraplegia requer.

Depois que meu pai faleceu, um grupo de amigos se comprometeu em manter o pagamento do meu plano de saúde em dia para que eu possa continuar sendo assistida pelo home care. Me mantenho com ajuda de amigos.

Foram eles que me ajudaram a receber um tratamento experimental com células-tronco na China para tentar reverter a tetraplegia. Mas, não foi possível. Mesmo assim, não me arrependo. Eu ganhei um pouco de força no tronco e nos braços após esse tratamento e consigo ficar um pouco sentada.

Sem família, mulher tetraplégica há 17 anos luta para viver e ter onde morar - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Sem família, mulher tetraplégica há 17 anos luta para viver e ter onde morar
Imagem: Arquivo pessoal

Pela manhã, é meu banho; que é todo um processo demorado. O que me afetou no acidente foi meu tato. Graças a Deus, eu tenho preservado os outros quatro sentidos (visão, audição, paladar e olfato). Tenho uma técnica de enfermagem que passa 24 horas comigo e, durante o banho, eu preciso de duas pessoas para me transferir com segurança para o local do banho. Eu já levei quedas.

O cuidador arruma minhas coisas, a minha roupa e prepara a minha alimentação. Estou conseguindo pagar um, dia sim, dia não. Há um ano, uma vizinha, mesmo sendo muito ocupada, está se dispondo a me oferecer almoço todos os dias. O café da manhã e o jantar, o cuidador deixa pronto e a técnica de enfermagem me dá.

Tento quebrar a rotina procurando me ocupar, porque é difícil. Gosto de pintar, ler biografias. Amo assistir séries asiáticas, em especial as coreanas. A cada três horas a técnica de enfermagem tem de fazer o cateterismo urinário. É depois disto que aproveito para ficar sentada na cadeira. Sinto que esse tempo é precioso e eu peço para pintar garrafas, quadros. Eu fico umas quatro horas sentada.

Durante essa pandemia estou lidando com a ansiedade, pois não posso sair para passear e nem receber tantas visitas. Gosto de ir à praia. Aqui tem um projeto com cadeiras híbridas para pessoas com deficiência poderem tomar banho de mar.

Os anos estão se passando, além de problemas de saúde que enfrento devido à tetraplegia, estou angustiada porque não consigo me manter financeiramente. As dívidas estão se acumulando. Eu recebo apenas um salário mínimo do BPC [Benefício de Prestação Continuada] por mês, que mal dá para a minha alimentação.

Com o benefício que recebo, não consigo arcar com todas as despesas. Não consigo pagar condomínio, IPTU e taxa do Corpo de Bombeiros desde 2017. Ao todo, a dívida está estimada em R$ 70 mil. Na semana passada, recebi uma intimação judicial para quitar a dívida do condomínio ou o apartamento vai a leilão. Isso tem me preocupado muito.

Já tentei trabalhar, mas a falta de acessibilidade foi o maior empecilho. Eu precisava pegar dois ônibus para chegar, muitos motoristas 'queimavam' as paradas e me deparava constantemente com elevadores quebrados. Isso me prejudicava no horário.

Nem a empresa, nem o shopping me indenizaram pelo acidente. Simplesmente, deram as costas. A minha angústia hoje está sendo minha moradia. O condomínio do prédio onde moro custa R$ 1.041. Como vou arcar com um valor desse? Ou eu compro comida, ou pago o condomínio.

Meu pai comprou o apartamento que resido para mim, mas ele não imaginava que iria falecer e o imóvel não está no meu nome. A ex-mulher dele não veio para o enterro, mas, meses depois, veio dar entrada no inventário no Recife e voltou para o Japão. Desde então, a Justiça não tem notícias do paradeiro dela, pois ela deixou de responder às solicitações judiciais para continuar o andamento do processo. Sem resposta, fui nomeada a nova inventariante.

Tenho quatro irmãos e primos, que moram no Japão. Eles nunca quiseram se aproximar. Penso que tudo poderia ser diferente e menos complicado se eles tivessem contato comigo. Eles poderiam me ajudar, mas quem me ajuda são amigos e anjos que surgem em minha vida.

Vivo realizando campanhas para melhorar minha qualidade de vida. A última que realizei foi para comprar um guincho, que custou R$ 20 mil, para facilitar manobra de me retirar da cama para a cadeira de rodas e, assim, diminuir os riscos de lesões de pressão, as chamadas escaras.

Minha próxima campanha é o custeio de uma viagem para Brasília, onde vou me submeter a um procedimento na bexiga, que será realizado no hospital Sarah Kubitschek. Por ser um procedimento em hospital que não é da rede do plano, eu tenho que arcar com as despesas de transporte aéreo, as diárias do cuidador para me acompanhar na viagem, hospedagem e alimentação do meu acompanhante.

Devo ficar cinco dias em Brasília agora em setembro. Ainda não fiz o orçamento de quanto devo precisar, mas estimo que é cerca de R$ 5 mil.

A minha vida hoje é de resiliência, paciência e quem me dá forças é Deus."

O que dizem o shopping e a empresa

O UOL tentou contato com a Capibaribe Eventos por meio de ligação telefônica e WhatsApp nos números divulgados como sendo da empresa, mas as pessoas que responderam disseram não ter relação com o negócio.

A reportagem entrou em contato com o Plaza Shopping, que se limitou a perguntar qual motivo de resgatar a história tanto tempo depois. O centro de compras não se posicionou até a publicação.

Ana Paula Vasconcelos, ex-mulher do pai de Yoko, não foi localizada por nenhum meio.

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