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'Vivi situações humilhantes': ela criou campanha contra machismo nos games

Gabriela Scheffer compete como atleta de e-sports  - arquivo pessoal
Gabriela Scheffer compete como atleta de e-sports Imagem: arquivo pessoal

Gabriela Scheffer em depoimento a Fernando Barros

Colaboração para Universa

13/08/2021 04h00

"Tenho 21 anos e minha relação com o mundo gamer começou aos 7, influenciada por meu pai, que também joga. Ele me mostrou alguns games e me apaixonei por esse universo ao ver o quanto aquilo podia ser algo legal e divertido. Hoje em dia, jogo profissionalmente e já disputei várias competições de "Rainbow Six Siege", ganhando três delas. No campeonato de 2020, por exemplo, fui a melhor do ranking no circuito feminino desse jogo.

Por outro lado, sendo mulher nesse meio sei que o machismo no mundo gamer é algo muito comum, infelizmente. Vivi situações horríveis e humilhantes. Em trocas com outras jogadoras percebi o quanto isso é comum e percebi, então, a necessidade de criar algo contra esse tipo de situação que fazia a gente sentir como se ali não fosse nosso lugar. Foi daí que nasceu a ideia da campanha "Game Sem Preconceito".

"Durante os jogos, percebi que não é fácil ser mulher nesse meio"

Ser uma atleta de e-sports não é tão fácil, como muitos costumam pensar. É preciso se dedicar, treinar bastante e ter muito pulso firme e força de vontade para seguir fazendo o que ama. Eu acordo cedo, faço umas oito horas de treino todos os dias e sou totalmente focada na minha carreira como jogadora. Diferentemente de outras meninas que estudam e trabalham em paralelo, eu me dedico de forma integral ao universo gamer.

Aos 17, conheci o "Rainbow Six Siege", meu segundo contato com jogos FPS [em que a visão do jogador é a visão do personagem], e passei a me especializar nesse tipo de game. Minha intenção era fazer pequenos vídeos na internet mostrando os pontos altos dos jogos e, assim, me tornar conhecida pela comunidade online de "R6", como chamamos.

Com essa visibilidade, um dia, me convidaram para participar de um teste que estava selecionando jogadoras para compor uma equipe feminina de e-sports. Fui aprovada e, desse modo, minha grande paixão virou também uma carreira. Hoje, posso dizer que sou uma gamer atleta. Jogo profissionalmente e já disputei várias competições de "Rainbow Six Siege", ganhando três delas. No campeonato de 2020, por exemplo, fui a melhor do ranking no circuito feminino desse jogo.

Junto com os treinos diários, faço também muito streaming, com transmissão dos jogos, e uso as redes sociais para compartilhar meu dia a dia. Atualmente, além do meu canal no YouTube, sou ativa também no Twitch, no Twitter, no Facebook e no Instagram. Nessas mídias, falo sobre o mundo dos games, lançamentos, projetos, mostro vídeos e também interajo com a galera. E são nessas interações que vivi e presenciei muitas situações machistas.

"No Twitter, li outras que postavam sobre xingamentos"

Gabriela Scheffer compete como atleta de e-sports e lançou uma campanha virtual (#gamesempreconceito) para chamar atenção para o assédio e discriminação sofridos por ela e outras meninas no mundo dos games. - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Gabriela lançou uma campanha #gamesempreconceito para chamar atenção para o assédio e discriminação sofridos no mundo dos games.
Imagem: arquivo pessoal

O machismo no mundo gamer é algo muito comum, infelizmente. Assim como o preconceito contra as mulheres está nas ruas, no trabalho, em diferentes áreas da vida, ele aparece também nos jogos. Às vezes, passamos por situações horríveis e humilhantes só por sermos mulher. A gente vira alvo dos outros jogadores e tentam nos desqualificar o tempo todo. Eu já me vi em diversas situações desse tipo.

Numa das primeiras vezes em que fui agredida online, eu estava jogando com meu pai e um outro jogador, ao perceber que eu era mulher, começou a dizer coisas terríveis - me chamou de vagabunda e disse que eu deveria ir lavar louça em vez de jogar. Eu fiquei muito nervosa e abalada.

Mesmo meu pai tendo me defendido na hora e me confortado, aquela foi uma situação muito constrangedora e eu me senti extremamente mal.

Em outra ocasião, estava jogando junto com outras meninas na equipe e resolvi me comunicar com elas por voz. Quando um rapaz que também estava no jogo me escutou falando, ele começou a me xingar gratuitamente. Isso pelo simples fato de eu não ser homem. Fui, novamente, chamada de vagabunda, p*ta e ouvi que, por ser mulher, não poderia estar ali.

Acompanhando o Twitter, vi que outras meninas também tinham experiências semelhantes e postavam sobre os xingamentos que recebiam frequentemente nos jogos. Percebi, então, a necessidade de criar algo contra esse tipo de situação que fazia a gente sentir como se ali não fosse nosso lugar. Foi daí que nasceu a ideia da campanha Game Sem Preconceito.

No início deste ano, lancei a hashtag #gamesempreconceito para a galera usar na internet e fiz um vídeo compartilhando situações vividas tanto por mim como por outras mulheres dentro dos jogos. A ideia foi trazer depoimentos, prints dos xingamentos e das agressões sofridas online.

O projeto mostra a nossa realidade e o que enfrentamos por gostar de games. Expõe também a quantidade de mulheres que jogam e que muitas vezes precisam se esconder atrás de nicknames masculinos para poderem jogar sossegadas.

A receptividade em relação ao projeto foi boa. Muitas pessoas abraçaram essa iniciativa e vivenciaram o projeto comigo, tanto homens como mulheres.

Irei continuar com o #gamesempreconceito e espero chamar cada vez mais atenção para essa realidade daqui para frente. O machismo só vai cessar se não desistirmos de lutar por nosso espaço. Por isso, é importante a articulação conjunta das mulheres e o apoio de cada uma nesse objetivo. A união faz a força!" Gabriela Scheffer tem 21 anos e vive em Curitiba (PR).

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