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Mulheres inspiradoras

Elas têm mais de 50 e são gamers: "falavam que eu era velha para jogar"

Lucilene Montanha, mais conhecida no universo Game como "Tia Lu in Game", faz as tramissões de seus jogos no Facebook e tem mais de trinta mil seguidores - Juliana Pesqueira
Lucilene Montanha, mais conhecida no universo Game como "Tia Lu in Game", faz as tramissões de seus jogos no Facebook e tem mais de trinta mil seguidores Imagem: Juliana Pesqueira

Rosana Pinheiro

Colaboração para Universa

01/07/2021 04h00

Maria Clarice e Sandra começaram a jogar por incentivo dos filhos. Já Lucilene pegou gosto pelos jogos online depois de abrir uma lan house. As três mulheres, todas com mais de 50 anos, participavam de campeonatos online de maneira despretensiosa, para se distrair e espantar a tristeza ou o tédio, mas hoje interagem com milhares de pessoas que assistem às transmissões que fazem.

Elas fazem parte de um grupo que está provando que videogame não é "coisa de menino", trazendo diversidade para um ambiente ainda marcado pelo machismo. Apesar de relatos sobre discriminação no ambiente das lives, as mulheres são, inclusive, maioria entre os usuários de jogos para celular e representam 62,2% do total, segundo a Pesquisa Games Brasil 2021.

Além do machismo, Lucilene, Sandra e Maria Clarice ainda enfrentaram outro preconceito ao se aventurar no mundo dos jogos online: o etarismo. É que elas se tornaram streamers de jogos - e transmitem ao vivo as próprias partidas em plataformas online - aos 50 anos. A seguir, Universa conta suas histórias:

"Falavam que ali não era lugar de mulher e que eu era muito velha para jogar"

Lucilene Montanha, mais conhecida no universo Game como "Tia Lu in Game", em sua casa no bairro Monte das Oliveiras, Manaus-AM(Foto: Juliana Pesqueira/UOL).ATENCAO: PROIBIDO PUBLICAR SEM AUTORIZACAO DO UOL - Juliana Pesqueira - Juliana Pesqueira
Lucilene era dona de uma lan house em Manaus e começou jogando com os meninos que frequentavam o local
Imagem: Juliana Pesqueira

"Eu sempre gostei de videogame. Desde a época do Mega Drive, que eu jogava com os meus filhos, os três hoje já têm mais de 20 anos. Há doze anos, abri uma lan house em Manaus, onde moro. Então passei a jogar "Point Blank" e "Lineage" com os meninos que frequentavam o local. No início da quarentena tive que fechar o estabelecimento e fiquei sem meus companheiros de jogos. Foi aí que pensei em jogar em casa e transmitir.

Nunca imaginei que as coisas iam tomar essa proporção. Até porque, no início, as pessoas falavam: 'Isso não é uma boa ideia. Ninguém vai assistir, o povo gosta de ver as gurizadas jogando, quem é profissional. Hoje tenho mais de trinta mil seguidores'.

Nas primeiras lives comecei jogando "League of Legends" e só tinha eu online. Depois foi chegando um, dois, três, até que, em abril do ano passado, eu me dei conta de que tinha muita gente participando. E foi também quando os haters me fizeram chorar pela primeira vez.

Os haters começaram a aparecer durante as transmissões. Falavam que ali não era lugar de mulher e que eu era muito velha para jogar. Eu ficava com raiva, chorava e desligava a live.

Meu marido passou a me ajudar fazendo a moderação. Ele ficava de olho pra tirar os haters antes que eu visse. Mas de uns tempos pra cá, eu tento reverter a situação. Eu falo para os haters 'o que passa no coração para a pessoa falar uma coisa assim? Quanta tristeza deve ter'. E eles repensam, analisam, pedem desculpa. Dizem que foi só uma brincadeira.

Sempre falo para os meus seguidores que, assim como eles dizem que eu os ajudo, eles também me ajudam. Porque muitas vezes pensei em desistir por causa dos haters. Eu acordava de manhã e pensava 'não vou mais streamar'. E aí na mesma hora chegava uma mensagem: "Tia Lu, você não sabe o quanto a senhora me salvou. Eu estava triste e me deparei com a sua live. Acho tão divertido as coisas que a senhora fala". Aí eu pensava 'gente, esse menino é adivinho'.

Eu vou continuar streamando. Pra mim o streaming é uma forma de entretenimento. Quando estou entediada vou lá e abro a live. Não é só sobre o jogo. É também uma maneira de falar com as pessoas. Com quem está precisando de uma palavra amiga. Você está ali para jogar, mas também para ouvir o outro". Tia Lu In Game (Lucilene da Silva), 50 anos, Gamer e streamer, de Manaus (AM).

"Tem muito profissional em atacar live, principalmente de mulher"

Kami Mãe (Sandra Bohm), 57 anos. Gamer, cosplayer e streamer. - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Sandra Bohm, conhecida como Kami Mãe, tem 21 mil seguidores no Twitch
Imagem: arquivo pessoal

"O primeiro contato que tive com jogos online foi com o meu filho. Em 2012, com 15 anos, ele participou de um campeonato de "League of Legends" e logo depois resolveu se mudar para São Paulo e ser gamer. O Gabriel, mais conhecido no meio de games como Kami ou Kamicat, venceu o Campeonato brasileiro de LOL (CBLOL) 2 vezes e participou do campeonato mundial em 2015.

Meu filho sempre me chamava pra jogar, mas eu não conseguia me concentrar muito. Se meu personagem morria, eu já saia. Quando meu filho ganhou um campeonato pela primeira vez, em 2013, eu comecei a pensar 'olha, esse negócio é sério'. No ano seguinte eu fui no primeiro Campeonato Brasileiro de League of Legends presencial para ver como funcionava e fiquei fascinada.

Mas só fui jogar mesmo na pandemia, porque sobrou mais tempo. Fui direto no "League of Legends" e comecei a fazer stream das partidas. Eu amo a história do jogo, a biografia dos personagens, os cenários. Comecei a transmitir e voltei a ter contato com o público. Porque quando eu ia nos eventos a gente tinha esse contato. E com a pandemia isso acabou.

Eu acho incrível ficar conversando e tentar entender os jovens. A maioria reclama que os pais não jogam e aí não entendem porque eles gostam tanto do jogo. Infelizmente já tiveram alguns episódios com haters. Teve uma vez que vieram aqueles "bots". Eles criam um canal e vem em grupo te ofender: 'ô vó, sua velha, sai daí, o que você quer aqui jogando?'. Tem muito profissional em atacar live, principalmente live de mulher, é muito comum.

Tem os que me chamam carinhosamente de tia, de mãe, até porque o meu nickname é Kami Mãe. Mas tem os que vêm em tom de ataque falando 'oi vó' e eu respondo 'oi meu netinho, tudo bem?'. Não tem porque eu me ofender, eu tenho idade para ser avó deles mesmo. Aí eles entendem que não conseguem me atingir e ficam de boa.

Ano que vem eu me aposento e pretendo morar fora do Brasil. Eu quero continuar a produção de conteúdo e também as transmissões na Twitch. Hoje estou fazendo aulas de inglês. E o jogo foi um grande incentivo. E tem a parte da tecnologia também, que eu quero aprender cada vez mais. Hoje os meus seguidores me ajudam a fazer tudo, configurar o meu canal na Twitch, por exemplo. É fantástico." Kami Mãe (Sandra Bohm), 57 anos. Gamer, cosplayer e streamer, de Florianópolis (Santa Catarina).

"Criticava meus filhos por jogar demais até que sentei para jogar com eles"

Vóvó Tibiana (Maria Clarice), 51 anos. Gamer, streamer, youtuber - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Com a ajuda do filho, Maria Clarice, a Vovó Tibiana, criou um canal no Youtube para falar de jogos online
Imagem: arquivo pessoal

"Eu sempre joguei baralho, desde que casei. Meus filhos trouxeram os games pra casa. Eles jogavam Tibia com os amigos. Eu criticava muito, achava que aquilo tomava muito tempo deles. Eu implicava e falava: 'não sei o que vocês acham graça nesse negócio'. Aí um dia minha filha disse 'ah, você não sabe? Então a gente vai criar um bonequinho pra senhora'. Nesse dia, eu sentei para ver o que era e comecei a brincar. Conforme eu ia matando os bichos, eu ganhava umas moedinhas. E assim foi, fiquei curiosa para o que ia acontecer no jogo. Isso foi há 13 anos.

Hoje eu ainda jogo Tibia, estou no nível 105. O meu filho teve a ideia de fazer o canal no Youtube. Eu fiquei doente e não podia mais trabalhar e estava muito triste. E ele me via jogando e achava engraçado, porque eu falo o nome dos itens tudo errado, sabe? E era algo pra eu interagir e me animar um pouco. Então gravamos um vídeo e viralizou, mais de 70 mil pessoas viram. Depois minha filha falou da Twitch e os próprios seguidores começaram a pedir "vó, vai pra Twitch", eles pediam muito. Eu demorei porque sou teimosa, sabe? Mas logo comecei as transmissões e foi um sucesso.

De vez em quando aparece um ou outro com espírito ruim e falam umas besteiras para gente. 'Uma velha se exibindo', umas coisas assim, para ofender mesmo. Eu não dou bola, tem que ignorar, infelizmente.

Mas eu te falo que na maioria dos casos o público é muito carinhoso. É muita delicadeza. Eu me considero avó deles mesmo. Me pedem receita e conselhos. Ontem mesmo um rapaz estava me perguntando como cozinhar feijão, porque ele mora sozinho. Me pedem para fazer canal de receita também. Eles têm uma carência, querem conversar comigo coisas que eles não conseguem conversar com o vovô e a vovó deles. Eu tenho minha netinha, eu sei como é amor de avó.

Meu público é bem dividido, metade menina e metade menino. Tem muito streamer que traz público pra minha live. Tem gente que nem entende nada de jogo e fica interagindo com a gente, é maravilhoso, descontrai, tira a depressão. A gente esquece que está com dor, que tem conta pra pagar, roupa pra lavar. É um momento seu." Vovó Tibiana (Maria Clarice), 51 anos. Gamer, streamer, youtuber, de Joinville (SC).

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