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"Detesto ser mãe e ajudo outras mulheres a lidar com esse sentimento"

A atriz e escritora Karla Tenório, 38, diz amar muito a filha, mas não gostar da maternidade  - Reprodução/Instagram
A atriz e escritora Karla Tenório, 38, diz amar muito a filha, mas não gostar da maternidade Imagem: Reprodução/Instagram

Karla Tenório em depoimento a Marcelle Souza

Colaboração para Universa

07/05/2021 04h00

"Eu sou Karla Tenório, tenho 38 anos, sou atriz, escritora, tenho uma filha de 10 anos e sou uma mãe arrependida.

Transformei minha angústia em um movimento para amparar mulheres como eu: que não gostam da maternidade. Sou criadora do "Mãe Arrependida" que visa à libertação da voz das mães que não são felizes como mães, que sofrem e sentem culpa por conta da maternidade.

Esse movimento visa combater a construção social, baseada na ética cristã, de que a mulher tem um amor incondicional pelo filho, de que ela é a imagem e semelhança da Virgem Maria; essa ideia de que quando a gente vira mãe perde a sexualidade, se volta integralmente para a criança, para o trabalho doméstico e para o cuidado

Quando eu me casei, eu não queria ser mãe, mas hoje vejo que cedi a uma vontade que não era minha. Um dia, durante a viagem para a Índia, em uma meditação no rio Ganges, tive a visão de que ia ter um filho. Daí passei dois anos planejando e me preparando para isso. Eu desejei, não engravidei sem querer.

O meu parto foi em casa, com uma parteira. Quando a minha filha nasceu, eu tomei uma porrada, porque eu havia me preparado durante dois anos e nada do que eu tinha lido refletia o que eu vivia.

Eu detesto ser mãe desde o momento em que a cabeça da minha filha saiu, durante o parto. Naquela hora, eu me perguntei se não tinha como voltar atrás, mas não dava. Tive uma complicação no parto, porque ela estava com a mão na cabeça e foi um processo delicado sair o resto do corpo. Foi aí que eu me arrependi.

Tive psicose pós-parto, que é algo mais grave do que a depressão pós-parto, porque eu era compulsiva por ser uma mãe perfeita

Karla Tenório - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A atriz em cena da peça online "Mãe Arrependida", que criou a partir de sua experiência
Imagem: Arquivo pessoal

Na psicose, você perde a noção do tempo, se fecha para o mundo, vira uma cuidadora excessiva. Eu tenho guardado, por exemplo, um caderno em que anotava quantos minutos a minha filha mamava em cada seio.

Eu nunca tive babá, deixei de fazer muitas coisas, de aceitar trabalhos para ser uma mãe exímia, por conta da culpa. Eu sou assim, essa mãe perfeita, uma perfeita mãe de merda.

'Parecia que eu era a única'

Os sintomas do arrependimento materno são frustração, sensação de que a vida acabou, abandono, desânimo para desenvolver novos projetos de vida.

Eu levei dez anos para sair do armário, para me assumir como mãe arrependida, porque parecia que eu era a única, que só eu sentia isso. O meu arrependimento também passa por um relacionamento abusivo com o pai da minha filha e um processo complicado de separação

Em 2017, eu entrei para um coletiva de mulheres e ali discutimos leituras sobre arrependimento materno. Naquele grupo, todas eram feministas, mas só eu era mãe. Consegui me expor, ser ouvida, mas estava só de novo, era a única.

Com o passar dos anos, comecei a ler mais sobre o assunto, a falar sobre o que sentia e percebi que havia outras mulheres como eu. Criei o espetáculo online 'Mãe Arrependida', não para causar polêmica, mas para que as mulheres sejam reconhecidas, possam falar sobre a sobrecarga e seus sofrimentos.

Hoje eu sou uma pessoa que está se curando da culpa, desse arrependimento. Hoje sei que o amor incondicional não existe, ela passa por mim como uma brisa, sou tocada poucas vezes por esse êxtase, porque eu tive que desenvolver uma relação, sou obrigada a cuidar de uma pessoa

A minha filha, a Flor Inaê, é uma pessoa incrível, um case de sucesso, porque é uma menina obediente, gente fina, que tem valores, e eu a amo

Esses dias me perguntaram se eu abortaria se soubesse que ia me arrepender no futuro. A verdade é que, infelizmente, não. Venho de uma família muito religiosa e sei que jamais teria abortado naquela época.

'Maternidade é startup de alto risco'

A maternidade envolve todo um cuidado com higiene, a formação de um cidadão, um estudo de psicologia para entender cada fase de desenvolvimento, além do dinheiro para pagar todos os custos de uma criança. É uma bola extremamente sufocante estruturada pela sociedade.

A maternidade é uma startup de alto risco, sem reconhecimento e sem retorno. Não tem nada a ver com amor incondicional, é um treinamento necessário para a sociedade, um cuidado físico para criar um ser humano, o preparo de um cidadão.

Eu sou a titular do cuidado físico da minha filha até que ela consiga se virar sozinha, mas, para a sociedade, não é só isso. A mãe é a responsável por aquela alma até o fim da vida, um arquétipo de santa, que está nos abençoando onde quer que a gente esteja. E eu não quero assumir esse papel, quero apenas ser feliz

Já recebi algumas críticas pelo movimento que criei, a maioria de homens, que diziam que eu era a única.
A minha mãe entende que não somos iguais, ela me acolhe, não me julga, sabe que sou disruptiva e entende que a minha busca é real, porque vê o meu esforço diário para fazer o melhor para a minha filha.

'As mães precisam ser reconhecidas'

Eu não quero só dizer que sou uma mãe arrependida, quero oferecer a minha dor para falar sobre algo profundo, que afeta muitas pessoas. Em nossa sociedade, somos filhos e netos de muitas mães arrependidas. E as mulheres precisam ser acolhidas em seus desabafos.

Penso também na importância de avisar as mulheres que não tiveram filhos ainda, as que estão pensando em ter, sobre o que de fato é a maternidade. É preciso acabar com o lado romantizado da maternidade, que é muito nocivo para todas nós, que causa tristeza, depressão e morte

Por isso, hoje eu faço um convite às mulheres para que possamos juntas criar um espaço de desconstrução da maternidade compulsória, recebendo e acolhendo as dores, os medos, as frustrações e a pluralidade de experiências.

Eu quero ouvir os depoimentos de outras mães, porque esse movimento é de amor, para que a minha filha, quando crescer, possa fazer uma escolha real e consciente sobre a maternidade."

*Karla Tenório, 38, é atriz, escritora e criadora da peça "Mãe Arrependida"

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