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"É de bom tom?": Ilana Kaplan é a mestre de etiqueta necessária da pandemia

A atriz Ilana Kaplan, que interpreta a consultora de etiqueta Keila Mellman em seu Instagram - Reprodução/Instagram
A atriz Ilana Kaplan, que interpreta a consultora de etiqueta Keila Mellman em seu Instagram Imagem: Reprodução/Instagram

Isabella Marinelli

De Universa

16/04/2021 04h00

Entre as habilidades da gaúcha Ilana Kaplan não fazem parte da lista aquelas dedicadas ao ambiente digital, como gerenciamento de aplicativos ou outros artifícios on-line. O traço cômico que delineia a carreira de atriz aparece até aí: foi justamente na pele de uma consultora de etiqueta virtual que ela viralizou nas redes sociais.

Ao responder a dúvidas de mentira sobre como se comportar em tempos de covid-19, a personagem Keila Mellman, criada pela atriz, questiona a cultura da ostentação nesses tempos pandêmicos. "Keila, estou num jatinho com oito amigos indo para Noronha, todos devidamente testados, e eu gostaria de saber se eu posso postar nós, juntos, tomando uma 'champanhota' e com uma blusa escrito 'Eu mereço'. Quer postar? Posta. É de bom tom? Não é de bom tom", recomenda a expert sobre o que exibir ou não nas redes.

O bordão virou meme e já dá nome até a grupos no WhatsApp. Ilana, que tinha 6 mil seguidores no Instagram, agora tem 112 mil. "Keila Mellman se tornou porta-voz de uma catarse coletiva. Estava todo mundo olhando para as redes sociais meio indignado e acabei falando por essas pessoas", diz Ilana a Universa."Precisamos refletir antes de compartilhar alguns tipos de registro, porque há pessoas morrendo nos hospitais, passando fome. Estamos com infinitos problemas enquanto país."

Ilana ganhou o Prêmio Shell de melhor atriz por sua atuação na peça "Baixa Terapia", em 2018 - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Ilana ganhou o Prêmio Shell de melhor atriz por sua atuação na peça "Baixa Terapia", em 2018
Imagem: Reprodução/Instagram

Engana-se, porém, quem acha que Ilana é rosto novo no humor. Ela se dedica à dramaturgia há 36 anos — já integrou o elenco do "Terça Insana", da série "A Vila" (Multishow), ao lado de Paulo Gustavo, e das novelas "I Love Paraisópolis" (Globo) e "Carrossel" (SBT), entre outras produções. Em 2018, ganhou o Prêmio Shell por sua atuação na comédia "Baixa Terapia", em que contracena com Antônio Fagundes. Ela espera que a peça volte em cartaz quando a população estiver vacinada.

UNIVERSA - Esperava que o vídeo viralizasse e que a expressão "É de bom tom?" virasse meme?

ILANA KAPLAN - Nunca esperei isso. Na verdade, creio que a Keila Mellman se tornou porta-voz de uma catarse coletiva. Estava todo mundo olhando para as redes sociais meio indignado e acabei falando por essas pessoas, que foram encaminhando umas para as outras até que a expressão virasse bordão. Acredito que tenha viralizado, porque faz pensar.

A personagem provoca uma reflexão sobre o que postamos diante do cenário em que vivemos no Brasil. Não é uma regra, imposição ou cancelamento, é claro, pois não gosto disso. O bordão existe como uma ironia, mas longe de ser um dedo na cara

Para muitos jovens que não conheciam sua trajetória no teatro e também na TV, você virou a atriz do "É de bom tom?". É um incômodo ser chamada assim?

Não! Eu acho que a internet tem uma característica curiosa que é abrir espaço para o desconhecido. Como o teatro é uma arte que, às vezes, as pessoas não têm acesso ou hábito de consumir, a web serviu como outra plataforma para o meu trabalho. Ainda que eu já tenha participado de projetos de comédia com bastante público, o barato dela é o alcance infinitamente maior. Acho muito legal que estejam entrando em contato comigo pela primeira vez agora, mesmo após 36 anos de carreira na dramaturgia.

Qual é a sua inspiração para Keila? Por que decidiu criar essa personagem?

No ano passado, eu já havia feito uma live com uma personagem chamada Sheila, que era só decoradora de lives. Fiquei fermentando a ideia até chegar nessa mulher que também compartilha dicas de etiqueta virtual. Junto com a minha irmã, Ana Kaplan, que já escrevia comigo no "Terça Insana", desenvolvemos a Keila. Acho que ela ainda tem uma estrada pela frente.

Keila Mellman se tornou porta-voz de uma catarse coletiva. Estava todo mundo olhando para as redes sociais meio indignado e acabei falando por essas pessoas

Ilana Kaplan (à esq) com Leticia Spiller em cena da novela I Love Paraisópolis (Globo) - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
A atriz ao lado de Leticia Spiller (à dir.) em cena da novela "I Love Paraisópolis" (Globo)
Imagem: Reprodução/Instagram

Por que decidiu falar sobre o comportamento das pessoas nas redes sociais neste momento da pandemia? Viu algo que te assustou?

Eu gravei e postei no Instagram, porque eu estava navegando por lá. Achei que era uma personagem que tinha a ver com as redes. Como o teatro foi um dos primeiros negócios a fechar e deve estar entre os últimos a voltar, eu estava parada e quis criar uma personagem para brincar. Acabou virando esse sucesso inesperado.

Você acredita que pessoas públicas, famosas, têm que dar exemplo e evitar ostentar num momento assim? Acha que o que é visto nas redes sociais tem impacto no comportamento da população?

Creio que elas têm impacto e importância.

A maior palavra da pandemia é empatia. Por que usamos a máscara? Para que nos cuidemos coletivamente. Isso vale para tudo. Quando temos um olhar para o outro, é bom para todo mundo.

Antes da Keila, logo no início da pandemia, você atuou em outros vídeos com humor e ironia. Em que momento entendeu que as redes sociais poderiam ser plataformas de trabalho?

Nunca usei a rede com esse intuito. Poderia ter entrado e impulsionado a minha presença on-line em dois momentos fortes da minha carreira, que foram as participações na novela "Carrossel" (SBT) e "I Love Paraisópolis" (Globo), anos atrás. Entretanto, a minha conta no Instagram estava reservada aos conhecidos e à bolha do teatro até a semana passada. Eu tinha pouco mais de seis mil seguidores. Hoje, esse número já passa dos 110 mil.

O humor tem esse poder. Ele cutuca, incomoda e diz grandes verdades, mas de um jeito leve

A passagem pelo "Terça Insana" contribui para essa atuação on-line?

O "Terça Insana" foi um grande exercício autoral, porque cada um escrevia seu próprio texto. Inclusive, a minha irmã também criava comigo. Tem tudo a ver com a Keila Mellman, porque são esquetes, um formato em que eu já estava habituada a trabalhar.

Enquanto aposta no lado cômico, você também atrai a atenção para problemas reais, como a fome e a insegurança alimentar. Acredita na arte como oportunidade de crítica social?

O humor tem esse poder. Ele cutuca, incomoda e diz grandes verdades, mas de um jeito leve.

Não à toa, nas obras de Shakespeare, as falas mais honestas eram do bobo da corte. Ele era o porta-voz da realidade. Quando a gente faz graça, sai da camada básica e pode fazer pensar por novos vieses.

Pensa em encarnar mais personas no ambiente digital?

Por enquanto, ainda estou na Keila. Quero estudar e me aprofundar no texto dela com foco total.

Já tem algum trabalho já encaminhado para TV ou cinema?

Estou esperando a pandemia acabar para voltar à temporada da peça "Baixa Terapia" ao lado do Antônio Fagundes. A quarentena nos pegou em março do ano passado, pouco antes do fim da temporada paulista. Havia ainda uma estreia programada no Rio de Janeiro, em maio. Cancelamos tudo e agora esperamos que todos se vacinem para voltarmos aos teatros em segurança. É o que eu mais desejo.

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