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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com colapso hospitalar, famosos finalmente trocarão jatinho por vida real?

Caio Castro, Grazi e amigos em festa no barco em Noronha - Reprodução/Instagram
Caio Castro, Grazi e amigos em festa no barco em Noronha Imagem: Reprodução/Instagram
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

02/03/2021 04h00

Na manhã desta segunda (1º), ao dar uma entrevista na TV sobre a situação do coronavírus, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), teve um ataque de choro. Enquanto pedia que as pessoas não saíssem de casa, lembrou-se de uma menina de 17 anos morta por covid-19 e se desesperou. "Quantas mortes uma bebedeira vale?", questionou.

Ele tinha motivos para se desesperar. Os hospitais da Bahia estão com uma lotação de 84% — e a mesma situação se repete em outros estados do país.

Ao ver o choro do governador, me lembrei do engarrafamento de jatinhos em Trancoso (BA), praia frequentada pela elite, no Ano-Novo. Segundo especialistas, as festas fizeram com que a cidade tivesse uma nova leva de casos de covid-19 em janeiro.

Agora, cientistas dizem que um dos motivos para o pior momento da pandemia, esse de agora, foi o Carnaval.

Me desculpe, mas quem viajou para aproveitar as badaladas praias do nordeste é, sim, corresponsável pelo aumento de infectados. "Ah, mas eu não estava infectada." "Ah, mas eu fiz o teste." Bem, você era mais uma pessoa para encher avião, hotel e restaurante e a encher vilarejos sem estrutura de saúde enquanto as mortes voltavam a subir.

E quem é famoso e tem muitos seguidores falhou em dobro: e o exemplo que deveriam dar tendo tanto alcance? E a responsabilidade social?

Desde que a pandemia começou, há um ano, a maioria das celebridades falhou miseravelmente no quesito consciência social e boa influência. Mas, com as festas de fim de ano e o verão, elas perderam a noção de responsabilidade e empatia ao se exibirem nas redes sociais curtindo a vida luxuosamente enquanto milhares de brasileiros continuavam morrendo — alguns por falta de oxigênio, como em Manaus (AM).

Só para lembrar alguns casos graves: Neymar fez festão de Réveillon em Angra dos Reis (RJ), quando o mundo todo proibiu celebrações de Ano-Novo, fretando jatinhos para levar alguns de seus 150 convidados; já no fim de janeiro, Caio Castro levou 13 amigos para Fernando de Noronha, além da namorada Grazi Massafera, para uma festinha a bordo do barco "Happy Days" (Dias Felizes, em inglês) — nos registros do Instagram, a única pessoa que usava máscara era o marinheiro.

E Anitta, depois de aparecer curtindo festas nos Estados Unidos jogando dinheiro para o alto, encheu uma ilha com subcelebridades durante o Carnaval e ficou postando fotos e vídeos de festas e beijos, quando cientistas e autoridades sérias imploravam para as pessoas não participarem de qualquer celebração.

Mas e agora? O sistema hospitalar está em colapso no país e ainda não há vacina suficiente para a população. Hospitais particulares de luxo em São Paulo, como o Albert Einstein e o Sírio Libanês, preferidos pelos famosos e endinheirados, estão com fila de espera para a UTI.

Os ricos e famosos vão continuar pegando jatinhos e se exibindo em barcos privê com outros amigos tomando seus drinques como se nada estivesse acontecendo?

Não duvido. No mesmo fim de semana em que seus hospitais preferidos lotavam, a apresentadora Luciana Gimenez posava de biquíni numa pista de esqui nos EUA, e Livia Andrade arrasava em uma praia

Esses famosos ainda podem tentar se redimir e sair dessa realidade paralela? Sim. Basta fazer coisas básicas como não postar foto viajando no bem bom agora, quando o país beira o colapso e os mortos passaram de 1.500 em um único dia.

Além de ser de muito mau gosto, como você vai dizer "fiquem em casa" enquanto dá seus rolês como se não houvesse uma pandemia? E o exemplo? E a influência? Ela não pode ser boa, só para variar?

No domingo à noite, secretários de saúde pediram que o país todo fizesse um toque de recolher geral. Será que ricos e famosos vão ouvir esse aviso como um "toque de consciência"? Ou continuarão viajando para ilhas privadas e exibindo esse privilégio, assim como fizeram as fadas sensatas Bruna Marquezine, Thelma Assis, Manu Gavassi e Rafa Kalimann no Ano-Novo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL