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Dadá Coelho: "Ser mulher, nordestina e comediante é se provar o tempo todo"

Dadá Coelho - Carol Mendonça/Divulgação
Dadá Coelho Imagem: Carol Mendonça/Divulgação

Camila Brandalise

De Universa

10/12/2020 10h01Atualizada em 11/12/2020 10h22

A história da comediante e roteirista Dadá Coelho é atravessada por dificuldades —da família pobre de 11 irmãos, no interior do Piauí, a assédios sexuais e morais na carreira. Como ela mesma diz: "comeu o croissant que o Diabo amassou". Mas também há vitórias. Várias.

Desde 2009, após uma entrevista no Programa do Jô e com o sucesso de um espetáculo em que vivia uma vendedora de vibradores usados, Dadá acumula trabalhos em shows de comédia e em programas da TV Globo, como atriz, roteirista e apresentadora. Atualmente, faz parte do elenco do programa "A Culpa é da Carlota", do Comedy Central, o primeiro show de humor comandado só por mulheres brasileiras. Também será coprotagonista de uma série com previsão de estreia em abril e está gravando um filme com a atriz Paolla Oliveira, mas ainda não pode dar detalhes sobre os projetos.

Mas foi um relato de bastidores que fez Dadá viralizar nos últimos dias. Na esteira das denúncias sobre assédio sexual e moral contra o ator e diretor Marcius Melhem relatadas na revista Piauí, ela contou, em uma rede social, que foi demitida de um quadro que apresentava no Fantástico, da Globo, porque, segundo um chefe do canal, era "nordestina demais". "Passei mal, meu couro ainda não estava grosso. Tive depressão, síndrome do pânico. Mas é cair e se levantar", diz, em conversa com Universa.

"Acho que a própria condição de nordestina ajuda. Dizem que a gente toma 20 facadas no bucho e, quando o médico pergunta se dói, a gente diz: 'Não, só quando eu dou risada'. Temos essa resiliência", diz a piauiense. E cita o poeta Torquato Neto para definir a atual fase da sua vida: "Eu só quero saber do que pode dar certo."

Recentemente, você contou, numa rede social, que uma das piores situações que viveu na carreira foi quando um chefe da Globo te demitiu de um quadro do Fantástico dizendo que você era "nordestina demais". Como você recebeu isso?

Foi uma violência descomunal, quem sofre isso não consegue se distanciar da situação. Tive síndrome do pânico, depressão. Decidi viajar com uma amiga e não conseguia entrar no avião. Não foi fácil, a terapia me salvou. Não devemos nos intimidar, é cair sete vezes e levantar oito. Essas situações sempre vão existir. Já passei por muita coisa de não ser aceita, de a pessoa falar: "Prefiro trabalhar com homem do que com você". Ouvi isso de uma apresentadora. Chorei lágrimas velhas, coisas da minha infância. Ser mulher, nordestina e comediante é quase uma contravenção. Tenho que me provar o tempo todo. Mas vejo um momento importante que estamos vivendo, isso está mudando.

Já sofreu assédio sexual?

P***! Sofri, sim. Já me escondi debaixo da mesa quando um chefe começou a vir para cima de mim. Pensei: "Meu Deus do Céu, como eu saio daqui?". Já usei o humor para me salvar. Faz muito tempo. Na época, não denunciei, fiquei emudecida. Também vivi situações de machismo. Eu era roteirista de um programa junto com 11 homens, era a única mulher. Um dia, quando minha piada não era aprovada, passei um bilhete por debaixo da mesa para um colega, e aí foi. Fiquei triste, mas pensei: "Sou boa, acredito em mim, vou pensar para frente". Hoje sou atriz e roteirisa do "A Culpa É da Carlota".

O que mais te ajudou a seguir mesmo com tanta situação te dizendo para parar?

É preciso muita terapia e uma rede de apoio com outras mulheres. Você não é fruto do que te acontece, mas o resultado de como reage. Na época, fiquei em silêncio, sofri, mas fui adiantar o meu lado. Não se pode paralisar pelo medo, você não pode deixar essas coisas te dominarem. Tem uma frase do autor uruguaio Eduardo Galeano que eu amo: "O machismo é o medo dos homens das mulheres sem medo".

dadá coelho - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
"Já usei o humor para me salvar de assédio", diz Dadá
Imagem: Reprodução/Instagram

Acredita que a repercussão do caso de Dani Calabresa, que denunciou Marcius Melhem na Globo, pode fazer o assédio diminuir?

Sim. Acho que, hoje, o cara não vai chegar como antes. Tem a internet, está se falando mais sobre os casos. Que bom que vem uma Calabresa e abre esse caminho para falar, eu não tive essa coragem. Quando uma mulher faz isso, outras se espelham nela. Acho que os homens estão revendo essa postura, mesmo debaixo de vara. Temos que ir para cima deles. É a faxina do mundo, estamos fazendo um revisionismo nos comportamentos.

Você já fez piadas machistas que, hoje, não faria?

Nessa quarentena, eu estava arrumando minhas coisas e vi um texto antigo. Pensei: 'Caramba, isso eu não falaria mais'. Deveria ser um gesto de todo mundo. Eu estou me vigiando com o "filho da p**". Outro dia, estava fazendo um trabalho e tinha que falar essa expressão, aí eu disse: "Mas a mãe sou eu". Tirei a expressão do texto na hora.

dadá coelho - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Ao lado de Paolla Oliveira, na gravação de um filme em São Paulo
Imagem: Reprodução/Instagram

A comédia é uma área majoritariamente masculina, e o espaço para mulheres ainda é limitado. Isso gera competição ou sororidade?

Acho que a competição não é uma questão de gênero. O que se sobrepõe, para mim, é minha rede de apoio. Tenho um grupo no WhatsApp, chamado Um Bonde Chamado Desejo, em que somos nove mulheres, entre elas a Suzana Pires e a Thalita Rebouças. Ter essa rede é muito importante. Nós nos ajudamos. Meu fechamento é com essas mulheres. O princípio do feminismo é a sororidade.

Há um senso comum que fala também da rivalidade feminina causada por um homem. E você prova o contrário, já que é próxima das ex-mulheres do seu atual companheiro, o ator Paulo Betti. Já passamos da hora de superar essa ideia?

Acho isso uma cafonice intelectual. Tenho ótima relação com as ex do Paulo, a Eliane Giardini, a Maria Ribeiro. Óbvio que tem perrengues, tem questões, mas o que prevalece é a harmonia. E, quando eu namorava e o cara falava mal da ex, já dizia: "Ih, deu ruim". Esse negócio de mulher brigando por homem é de cena de novela, mas hoje não sei se teria mais audiência. Acho que seria cancelamento.

Nas suas falas, você cita questões relacionadas ao feminismo e a ser mulher. Quando essa consciência de gênero ficou mais evidente pra você?

Vi que era legal ser mulher quando observava minhas irmãs e eu, somos em nove, nos organizando com o que tinha em casa. Não passei fome, mas éramos pobres. Só que elas queriam casar, eu não. Não era confortável para mim: casar, trabalhar no Armazém Paraíba, a loja de departamentos famosa do Piauí, ser secretária de vereador. Comecei a ler muito, e aí fui indo mais longe. Foi na leitura que eu fui me formando. Eu queria ser a mulher que escrevia. Fui a primeira das nove a me formar na faculdade, na UFMA (Universidade Federal do Maranhão), em jornalismo. Fiz o vestibular escondida, mas, quando passei, pensa no orgulho da minha mãe. Ela era uma mulher que não tinha formação, mal escrevia o nome. Perdi minha mãe há quatro meses, e sua força sempre foi um espelho para mim.

Como leitora assídua, que livros sobre mulheres indicaria?

Tenho lido sobre nomes femininos apagados da história. Tem o "Nós, Mulheres", da Rosa Montero. A Simone de Beauvoir, por exemplo, foi achatada pelo Sartre, era uma mulher que pregou o feminismo, tem toda uma obra. Outra é a artista francesa Camille Claudel, que ou era citada como a amante do Auguste Rodin, ou como irmã do Paul Claudel. Era uma mulher mágica. A própria mulher do Albert Einstein, Mileva, que criou a Teoria da Relatividade com ele. Como a gente não sabe quem é? A nossa luta é essa: não podemos deixar o machismo nos apagar.

Seu começo no humor, em 2009, foi com o espetáculo "Vendem-se usados, proibido para menores de 18 cm", em que interpretou uma vendedora de vibradores usados. Ali, você falava de masturbação feminina, tema que, até hoje, é tabu. Acha que evoluímos pouco no que diz respeito ao prazer da mulher?

Fico chocada que, até hoje, não se pode falar sobre masturbação feminina. Na minha casa, sexo sempre foi uma realidade. Minha mãe, que teve 13 filhos, ou estava com um menino enganchado na perna ou era meu pai comendo ela. Na época que fiz o espetáculo, estava saindo de um relacionamento abusivo. Meu namorado me dava muito vibrador, eu era muito danada, mas eu estava iludida, vivendo uma ficção na vida real. Então, eu fiz a performance para falar de um assunto da minha vida. Mas tenho pavor desse tabu. A mulher tem que conhecer seu corpo. Vai dar esse poder para o homem de saber o que lhe dá prazer? Ela tem que saber, já tem que chegar no cara "empauderada". Eu ainda quero criar a hashtag "siriricaço".

O que diz a rede Globo

Procura por Universa, a Globo diz que admira e sempre admirou o trabalho de Dadá Coelho. Somente essa semana tomamos conhecimento do relato da humorista segundo o qual alguém, que já não trabalha na empresa, teria usado essa justificativa, odiosa e sem sentido. A relevância da Globo se deve ao fato de que ela fala para todos os públicos, regiões e culturas. Essa crença sempre foi compartilhada pelos antigos líderes do Fantástico, pessoas que prezam o respeito ao próximo e à diversidade. A Globo lamenta profundamente não ter tido a oportunidade de esclarecer isso à Dadá Coelho à época dos fatos relatados. E se desculpa pelo sofrimento que ela relata. Quadros no Fantástico entram e saem do ar por diversas razões, mas jamais por discriminação. A Globo não tolera comportamentos discriminatórios em suas equipes em nenhuma hipótese e, desde 2015, com a implantação do Compliance, mantém um canal aberto para denúncias desta natureza, como previsto no Código de Ética do Grupo Globo.

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