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Jessica Ellen lança "Macumbeira" e canta sobre orgulho, família e religião

Jéssica Ellen reflete sobre ancestralidade e luta do povo preto em "Macumbeira", single que chega nesta sexta - Gabriela Maria / Divulgação
Jéssica Ellen reflete sobre ancestralidade e luta do povo preto em "Macumbeira", single que chega nesta sexta Imagem: Gabriela Maria / Divulgação

Ana Reis

Colaboração para Universa

20/11/2020 04h00

A atriz e cantora Jéssica Ellen escolheu, não por acaso, essa sexta-feira, 20 de novembro para lançar seu novo single, "Macumbeira". Na data que marca o Dia da Consciência Negra ela traz uma música em que resgata as origens das religiões de matriz africana, enaltecendo e reverenciando a Umbanda e o Candomblé.

Na última semana, a interprete de Camila, da novela "Amor de Mãe", se despediu das gravações da trama das 21h da Globo - a novela ficou em pausa durante cinco meses, por causa da pandemia. Nessa conversa com Universa, Jessica fala sobre como foi de despedir do papel que a marcou tanto e sobre a preparação para seu segundo álbum, que deve ser lançado em janeiro, falará diretamente da Umbanda, religião a qual teve seu primeiro contato devido ao avô.

Jéssica quer que as pessoas consideradas macumbeiras tenham orgulho de se auto afirmar desta maneira, pegando um termo que, muitas vezes, foi usado de forma pejorativa e então ressignificá-lo. O tema desse projeto perpassa a fé, autoafirmação, resistência e autoestima do povo preto. "Ser macumbeiro é respeitar a natureza, ter uma conexão profunda com a mata, com a cachoeira, com os animais, é o respeito aos mais velhos", diz.

Leia a entrevista:

Novo álbum de Jéssica falará da Umbanda, religião a qual teve seu primeiro contato devido do avô. - Wendy Andrade - Wendy Andrade
Novo álbum de Jéssica falará da Umbanda, religião a qual teve seu primeiro contato devido do avô.
Imagem: Wendy Andrade


As gravações para "Amor de Mãe" acabaram está semana. Você ficou feliz com o resultado final?
Eu filmei minha última cena no sábado. Foi uma loucura! O fato de a pandemia ter estourado no meio do processo fez com que a gente tivesse que manter perto o personagem. Eu chorei muito no estúdio e quando cheguei no camarim e fui tirando o anel e a roupa da Camila. Pela primeira vez eu fiquei feliz com o processo, eu amadureci muito como atriz. A Camila foi um trabalho que exigiu tanto de mim e fiz com muita entrega. Fiquei muito feliz e com uma sensação de dever comprido.

Como foi gravar durante a pandemia? Rolou um medo?
Na Globo os protocolos eram muito rígidos, a gente fazia aquele exame horroroso do nariz toda semana, umas três vezes na semana, e eu me senti muito segura. Eu tive a Covid-19 no final de julho, mas fui assintomática, não senti quase nada. Eu estava muito segura fisicamente falando, meu maior medo era a obra se perder por conta da pandemia. A pandemia teve que entrar na novela, então muitas cenas a gente fez de máscara, outras com acrílico entre dois atores e na edição vão tirar para que não apareça. Eu acho que a gente conseguiu fazer uma bela caipirinha com limonada.

O que você quer fazer agora no mundo da atuação?
Tenho muita vontade de fazer uma piriguete, porque ela se diverte! Eu gosto muito de fazer drama, tem uma função muito forte, chega e atravessa o telespectador. Mas a periguete é um pouco mais leve? Chorei tanto nessa novela que eu to querendo uma alegria.

Vamos falar sobre "Macumbeira": eu ouvi e amei, me remete bastante ao coco de roda, ijexá, e ritmos do forró e samba. É uma música muito bonita e que homenageia a ancestralidade e a umbanda. Como foi o processo de composição e o que mais te inspirou para lançá-la agora?

Essa música é uma composição de Luiz Antônio Simas e minha relação com "Macumbeira" vem muito de uma pesquisa familiar e ancestral. Meu primeiro CD, o "Sakofa", veio muito falando da relação com os orixás e com a cultura afro, que é muito rica e que muita gente não tem conhecimento, por todo o histórico de colonização do nosso país. Esse segundo projeto, o single e o CD que lançaremos em janeiro, é uma compilação dessa pesquisa, focado um pouco mais na Umbanda. Embora Umbanda e Candomblé sejam religiões de matriz africana, elas são muito diferentes uma da outra. "Sankofa" é mais um resumão de tudo e agora eu vou falar um pouco mais da Umbanda. A ideia era fazer um CD duplo, uma parte da Umbanda e outra do Candomblé. Mas é tão rico que decidi fazer uma coisa de cada vez.

Você é da Umbanda?
Não, do Candomblé, O novo projeto também é uma homenagem ao meu avô, já falecido, que era da Umbanda. E a gente tem uma relação muito diferente com a morte. Quando alguém da nossa família morre, não morre e acaba; vira um ancestral nosso que a gente continua reverenciando e agradecendo pelos feitos. Foi uma mistura de muita coisa, dessa continuação da minha pesquisa, do meu desejo de cantar sobre os orixás, sobre a natureza, para que as pessoas conheçam mais sobre isso. Essa música não fala só da religião, mas fala sobre a importância da mata, importância da relação de cuidados com a natureza. E a gente vê esse caos todos os dias. No meio da pandemia, a gente vê os políticos fazendo desvio de dinheiro.

Não dá para a gente ser só artista e famoso e não falar nada em relação ao que acontece no mundo. Os artistas que eu mais admiro sempre se colocam e se posicionam. Ser artista é viver consciente, é falar do que acontece em seu país. A arte pra mim é uma maneira muito forte de me pronunciar e colocar no mundo.

Jessica Ellen macumbeira - Gabriela Maria / Divulgação - Gabriela Maria / Divulgação
“Não dá para ser só famoso e não se posicionar", diz Jessica Ellen
Imagem: Gabriela Maria / Divulgação

O Brasil e todos os países passaram por muita coisa, desde à pandemia, a casos de racismo, mortes de pessoas pretas, manifestações; o caso de estupro "culposo" da Mari Ferrer? E agora as eleições. Como é ser uma pessoa com visibilidade e opinar sobre essas questões mais políticas? Você se sente cobrada ou com receio de ser criticada?
Eu respeito muito meus processos porque essa cobrança de sempre se posicionar sobre todos os assuntos não é real, ninguém sabe tudo sobre tudo. Eu tendo a falar de assuntos que eu sei, que eu me identifico, que acho importante como mulher, como artista. Quando falam: 'Como é ser preta e trabalhar no audiovisual, já sofreu racismo?', eu acho que é uma pergunta que não faz mais sentido ser feita. A gente já está num momento de muita consciência e de muito assunto que as pessoas têm que fazer o próprio trabalho de pesquisa, se politizar. Eu tenho interesse em vários outros assuntos, não quero só falar de racismo, sei falar de outras coisas. Mas também vejo que vivemos um momento de muita consciência ,

Não dá mais para não falar de racismo e não agir para que isso mude. Todo mundo postou aquele quadrado preto no Instagram falando "somos antirracistas", mas quais são as atitudes diárias que você tem?

Eu tenho um pouco de preguiça com essa superficialidade das redes, quando no dia a dia as ações ainda estão poucas. Eu fiz um ensaio fotográfico do próximo CD. Eu chamei só pessoas pretas: a fotógrafa, a stylist, o maquiador é meu amigo. Com essas ações que as coisas mudam, não dá para ser uma equipe toda branca.

Voltando à "Macumbeira", queria falar que não cresci na Umbanda nem no Candomblé mas senti muito em mim, já que também sou uma mulher racializada, negra de pele clara. Qual a mensagem principal que você quer que as pessoas tirem dessa música?

Sabe quando as pessoas usam algo de forma pejorativa e você usa aquilo a seu favor? Uma amiga lésbica fala muito dessa coisa de 'sapatão', que era algo visto como ruim. E em "Macumbeira" eu faço essa comparação porque acontece isso. Quando as pessoas veem uma oferenda na rua, existe muita ignorância ainda sobre isso, então usam a frase "chuta que é macumba" ou "fulana é macumbeira" como se fosse algo ruim.

As pessoas de religião de matriz africana têm que se sentir orgulhosas. Ser macumbeiro significa respeitar a natureza, ter uma conexão profunda com a mata, com a cachoeira, com os animais, com a ancestralidade, é o respeito aos mais velhos.

Pra fechar, o que você espera trazer com "Macumbeira"?
Eu não quero criar muita expectativa sobre a crítica, realmente tô fazendo com todo meu amor e coração. Acho que as pessoas que são macumbeiras se sentirem felizes, falarem que são macumbeiras e se reafirmar cada vez mais, já será muito bom. O desejo alvo estará sendo cumprido.

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