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Mãe relata sequelas de abuso na filha de oito anos: "Ela não sabe mais ler"

Desenho feito por criança após ser estuprada por conhecido da família, de 23 anos: "Pais, fiquem atentos aos sinais", diz mãe - Arquivo pessoal
Desenho feito por criança após ser estuprada por conhecido da família, de 23 anos: "Pais, fiquem atentos aos sinais", diz mãe Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brandalise

De Universa

20/10/2020 04h00

Ao ver o desenho na boneca na foto acima, feito pela filha de oito anos e relacionado à violência sexual que a criança sofreu em 2019, a dona de casa paranaense Maria*, 29, ficou sem chão. Ela já sabia o que tinha acontecido: em julho do ano passado, a garota foi abusada pelo enteado do avô, ao passar alguns dias na casa do familiar durante as férias. Ver a maneira que a filha encontrou para se expressar a deixou ainda mais revoltada.

Quando voltou da casa do avô, a menina se abriu com a irmã por parte de pai, de 20 anos, que contou o acontecido para Maria. Mas, na época, a garota só dizia que seu agressor era um "tio". Em setembro, revelou para a diretora da escola a identidade do homem que abusou dela. Logo depois, começou um tratamento psicológico. Mas as sequelas são angustiantes, diz Maria. "Ela mudou muito, passou a ter pesadelos, voltou a fazer xixi na cama, começou a desenhar nos brinquedos, como fez com a boneca, não sabe mais ler", conta a Universa.

"São marcas dolorosas, que aos poucos sei que ela vai superar. Mas são desnecessárias, surgidas por causa da maldade de um indivíduo que se mostrava amigável", afirma. A dona de casa fez um boletim de ocorrência em outubro do ano passado e, até agora, aguarda a abertura de um processo. "Esperamos que a justiça seja feita."

Leia o relato dela:

"Em julho de 2019, minha filha foi passar uma semana de férias na casa do avô, meu pai, em uma cidade vizinha. Não víamos problema nenhum nisso, os dois sempre tiveram um carinho imenso um pelo outro. Na mesma casa, morava o enteado dele, que tem 23 anos. Para a gente, ele sempre foi um bom rapaz.

Quando minha filha voltou para a nossa casa, recomeçou um tratamento para crescimento em que aplicamos uma injeção por noite. Ela começou a mudar de comportamento, estava bem sensível, irritada, distante. Relacionamos a mudança do comportamento dela com as aplicações de hormônio.

Na escola, em cada avaliação mensal, era destacado que ela estava diferente. Em setembro, ela disse para a irmã: 'Ele brincou de namorado comigo, mas pediu para eu não contar porque a mãe vai me bater'. Só falou isso.

A irmã me contou e foi quando começamos a falar com ela para tentar descobrir o que tinha acontecido, para tomar uma atitude. Mas ela não falava mais nada.

Vivi vários dias de angústia. Até o dia em que ela levou um celular para a escola, a diretora estranhou e foi falar com ela. Ela só dizia: 'Meu tio. Minha mãe vai ficar muito brava'.

No outro dia fui até a escola conversar com a diretora, contei o que minha filha já tinha dito e falei que precisava de ajuda, que não sabia o que fazer. Logo, a diretora me chamou pra conversar. Estava em choque. Minha filha se abriu com ela e contou o que tinha acontecido nas férias.

O homem que se nomeou tio, mesmo não sendo nada dela, manipulou a minha filha a cada vez que ia encostar nela. Os detalhes são dolorosos.

Ela contou que ele colocava o dedo na sua parte íntima, e quando ela falava que estava doendo, ele abaixava mais a calça dela e colocava a boca. Como ele fez isso? Com uma criança de oito anos? E mesmo tendo mais gente na casa?

Quando ouvi isso, eu perdi o chão. Daí para frente começou uma batalha, fiz boletim de ocorrência, exame no IML [Instituto Médico Legal] e conseguimos com um psicólogo a confirmação de estupro.

Ela começou um tratamento psicológico. Minha filha mudou muito. Voltou a fazer xixi na cama, começou a ter pesadelos, não quer mais dormir no quarto, só comigo. Também passou a chorar por não querer fazer coisas que sempre fez, como ir à escola e comer. Perdeu o interesse em brincar com coisas de que gostava, como bonecas. Começou a desenhar nos brinquedos.

Ela também não sabe mais ler. Do nada, não consegue mais ler palavras básicas que já sabia ler antes. É como se nunca tivesse aprendido. Só vai ao banheiro com alguém junto ou com a porta aberta. Quando pode brincar com os amigos, não quer. Na maioria das vezes, quer ficar sozinha, sentada nos cantos.

São marcas dolorosas que, aos poucos, sei que ela vai superar, mas são marcas desnecessárias causadas por uma maldade. Esse indivíduo era o mais amigável. E, na verdade, só queria esconder como é sujo.

O meu sentimento como mãe é indescritível, fico ouvindo repetidamente o que ela relatou na minha cabeça. E não, não é mentira. Uma criança jamais fantasia uma coisa desse nível. Recentemente, vi em uma boneca um desenho que ela fez, talvez na época, e passou despercebido, mas é um desenho que demonstra o que ela viveu e que, por ser criança, não sabe expor em palavras.

Depois que fiz o boletim de ocorrência, chamaram o meu pai e a diretora da escola para depor. Mas o processo parou. Da última vez que liguei para saber, me disseram que o caso já estava no Ministério Público. Mas até agora não tive novidades. Esperamos que a justiça seja feita.

Se pudesse dizer algumas coisas para pais e mães, diria para repararem em cada mudança dos seus filhos. Converse, pergunte mesmo. Eles sentem muito medo de se abrir porque acham que vão apanhar, sentem culpa. Se necessário, peça ajuda a alguém em quem a criança confie mais.

Um dia, minha filha foi grossa com o pai quando ele disse para ela ir almoçar. Começou a gritar. Hoje eu vejo que ela queria que a gente notasse o que estava acontecendo. Nenhuma criança que está bem muda o comportamento à toa. Eles não sabem chegar e falar abertamente, eles pedem socorro só com o olhar.

Acho que, nos dias de hoje, não tem mais idade mínima para conversar sobre sexo. Precisamos falar sobre sexualidade e sobre consentimento o quanto antes. Um abusador não espera para atacar, ele simplesmente age.

*Nome alterado a pedido da entrevistada, para proteger a vítima.