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Mães e filhos

Pandemia, política, morte: quando abordar temas difíceis com os filhos

Não existe uma idade correta para começar a falar de temas difíceis com filhos, dizem especialistas - Getty Images
Não existe uma idade correta para começar a falar de temas difíceis com filhos, dizem especialistas Imagem: Getty Images

Claudia Dias

Colaboração para Universa

08/08/2020 04h00

Uma pandemia que já matou cerca de 100 mil brasileiros, sucessivos casos de feminicídio, balas perdidas, escândalos e rixas políticas que parecem não ter fim, além de fake news a rodo, crise econômica iminente, racismo escancarado, ataques virtuais e mais uma variedade de questões negativas tomaram conta de 2020.

É tanta notícia ruim que, por mais que os pais tentem blindar os filhos, chega uma hora que é difícil barrar tudo de negativo que o ano acumula. Quando isso não acontece de maneira imprevista, é comum os adultos se questionarem se já não é tempo de deixar crianças e adolescentes se informarem sobre o que está acontecendo no país e, também, no mundo. A resposta é: depende.

"Não existe uma idade correta para a introdução de temas difíceis, porque crianças da mesma idade são muito diferentes umas das outras", aponta Marjorie Rodrigues Wanderley, psicóloga mestre em Psicologia e professora da Estácio Curitiba.

Cabe aos pais tomarem essa decisão, já que eles são quem mais conhecem os próprios filhos e sabem o quanto eles estão (ou não) prontos para ter acesso a esse tipo de informação.

Fases do amadurecimento

Independentemente se ocorre mais cedo ou mais tarde, o fato é que parte do crescimento e amadurecimento das crianças diz respeito à capacidade de entrarem em contato com o que realmente vivemos - saindo, então, do mundo da fantasia.

"Por isso é importante que sejam apresentados à realidade, mas sempre respeitando suas possibilidades de compreensão", ressalta Fernanda Soutto Mayor, psicóloga e consultora pedagógica do Laboratório Inteligência de Vida - LIV.

É o que tem feito Maria Theresa Castilho Giocondo em relação ao filho Felipe, 10 anos. "Procuro sempre expor a real para ele, pois nunca fui uma mãe que tira a criança do contexto para poupá-la", argumenta.

Quando assistem juntos aos programas e noticiários na tevê, que costumam trazer notícias ruins, ela aproveita a situação para explicar sobre assuntos variados. Além disso, o garoto sempre pergunta o porquê de vários acontecimentos, inclusive políticos.

"Há alguns dias, assistimos juntos ao filme 'Adú', que fala de um menininho que sai da África e parte em busca do pai que está na Europa, com algumas cenas violentas, tristes... O que ele questionava no filme, nós conversávamos", exemplifica.

A mãe já percebe que Felipe está sendo beneficiado com tal conduta. "Vejo como positivo, pois ele está formando uma visão crítica e diferenciando o certo do errado em muitas situações", comenta.

Qual a hora de começar?

Alguns aspectos devem ser avaliados para saber se a criança está preparada para absorver esse tipo de informação. Para a psicóloga Marjorie, é importante levar em conta as condições racionais e emocionais dos filhos.

Racionais, em relação ao período de desenvolvimento e da capacidade de raciocínio de cada faixa etária. É necessário para saber de que forma o assunto será abordado, sem que fique muito difícil de compreender ou mesmo assustador demais.

Já o lado emocional precisa ser levado em conta porque as crianças são extremamente sensíveis e empáticas. "É um primeiro contato com verdades muito difíceis sobre o mundo, como a existência de violência, racismo e intolerâncias. Isso deve ser respeitado, deixando que elas demonstrem emoções, indignações e angústias. Estes sentimentos devem também ser acolhidos pelos adultos", frisa a especialista.

Perguntas são termômetro

Quando o filho traz algum questionamento, é sinal claro de que está preparado para lidar com aquele tipo de informação, segundo Fernanda. "Está em busca de respostas e, se os adultos cuidadores não oferecerem essas respostas, apoio e acolhimento, irá procurar por outras fontes que talvez não sejam tão confiáveis", opina.

"Isso significa que, se uma criança perguntar 'Por que aquele policial matou aquele homem?, como no caso do George Floyd, já tem a informação sobre o que aconteceu e está buscando uma explicação de pessoas nas quais ela confia", acrescenta Marjorie.

A tendência dos pais é pouparem os filhos das dores do mundo, o que é totalmente compreensível. O problema é que tudo o que não é dito ou explicado para a turminha pequena é preenchido com fantasia e imaginação - que são, muitas vezes, piores do que a própria realidade.

"Por conta disso, é preciso responder com sinceridade e respeito tudo o que for perguntado, partindo do pressuposto de que a pergunta é um voto de confiança que a criança dá ao adulto para que este lhe forneça uma explicação", pontua.

Jeitos de começar o papo

Mesmo se a criança não levantar certos tipos de questionamentos, não significa que não está preparada para dar conta de tais questões. Nesse caso, os responsáveis, sensíveis ao desenvolvimento dos menores, devem introduzir os temas.

A maneira mais saudável será sempre por meio de diálogos dentro da família, de forma clara, direta e com muita empatia. Outro detalhe: antes de introduzir determinado assunto, é recomendado perguntar para a criança o que já sabe sobre aquilo.

"Dessa forma, além de darmos a ela um papel de protagonismo do próprio conhecimento, podemos partir das informações fornecidas para dar início à conversa", explica a professora da Estácio Curitiba. Nessas horas, vale recorrer a notícias, filmes ou livros para abordar o tema.

Se, por exemplo, o filho tenha visto o noticiário, pode ser perguntado: "Percebi que você viu tal ocorrido na televisão. O que entendeu disso?". Marjorie pontua que, a partir disso, pode-se deixá-lo guiar a conversa, de acordo com suas possibilidades.

Fernanda, por sua vez, acrescenta que também é uma oportunidade para propor atividades e ações que, de algum modo, interfiram na realidade. "Doação de roupas, brinquedos e comida ou a participação em algum projeto social podem ser saídas potentes", sugere.

Equilíbrio e ponderação

Algo a mais a se considerar é: até que ponto deve-se apresentar uma informação para a criança? Na opinião da psicoterapeuta Pollyana Esteves, só o que afeta seu dia a dia.

"O que os pais têm que saber é se realmente é necessário que a criança saiba de tudo. Tem um vírus? Precisa explicar por que não está indo para a escola. Alguém muito próximo morreu? Precisa explicar por que não vai ver mais essa pessoa. O pai perdeu o emprego? A criança não precisa ficar sabendo para ficar preocupada com a situação financeira do pai", defende.

Apesar disso, é preciso ser ponderado, ou seja, evitar ser muito otimista, mas não exceder no pessimismo. "Não podemos 'pintar o mundo de cor-de-rosa' e enfeitá-lo demais, já que essa criança, na medida em que cresce, irá de encontro a essa realidade e deverá estar preparada para lidar com o que se apresenta. E ainda que a vida seja dura, complexa e, por muitas vezes, injusta, de nada adianta colocar isso de um modo fatalista", observa Fernanda.

Pais devem estar preparados

Em boa parte das vezes, o contato dos filhos com alguma informação negativa não é programado pelos pais - ouvem adultos comentarem, veem na tevê ou na internet, escutam no rádio do carro etc. Se isso acontecer, a única regra que precisa ser seguida é que haja um diálogo, esclarecendo todas as dúvidas, dentro da capacidade de entendimento infantil.

Há outra questão importante: além de sentir se o filho está pronto, os adultos precisam fazer uma autoanálise para ter certeza se estão preparados para conduzir conversas do gênero.

"Os cuidadores já conversaram entre si para expor suas angústias e opiniões sobre o assunto? Têm clareza de que forma o assunto será abordado com a criança? Os diferentes cuidadores estão com suas opiniões

e condutas alinhadas, para que não haja divergências na educação sobre este assunto?", questiona Marjorie.

De acordo com ela, existe a tendência de se olhar muito para o momento da criança, mas as reflexões devem ser realizadas também pelos próprios adultos, previamente, para que não repassem discrepâncias, medos ou inseguranças.

Por fim, nem toda pergunta deve ter, obrigatoriamente, uma resposta, já que nem todos os assuntos têm uma explicação fácil e direta. Nesses casos, é tudo bem admitir que não tem tudo na ponta da língua.

"Responder 'desculpa, eu não sei' também é uma resposta, e está ensinando para a criança que nem os adultos possuem todas as respostas. É até uma oportunidade de que adultos, crianças e adolescentes reflitam juntos sobre um assunto e possam todos crescerem enquanto sujeitos", defende Marjorie.

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