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Secretária do governo Doria: "Me perguntavam: 'Você é assessora de quem?'"

Patrícia Ellen, secretária de Desenvolvimento Econômico de São Paulo - Daniela Toviansky/Divulgação
Patrícia Ellen, secretária de Desenvolvimento Econômico de São Paulo Imagem: Daniela Toviansky/Divulgação

Camila Brandalise

De Universa

17/07/2020 04h00

Em um longínquo 31 de janeiro, quando o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou a criação do gabinete para o enfrentamento ao coronavírus no estado de São Paulo, a secretária de Desenvolvimento Econômico Patricia Ellen, 41, foi a escolhida para coordenar o grupo de trabalho em meio à crise que já era prevista. Ex-presidente da Optum no Brasil, empresa de tecnologia em saúde, e ex-sócia da consultoria McKinsey, onde trabalhou para gestões públicas, como a prefeitura de São Paulo, Patricia viu, então, seu nome ir ainda mais longe.

Apesar de não ser filiada a nenhum partido, passou a ser cotada para cargos políticos e a figurar como possível candidata à prefeita e vice-prefeita da capital e governadora e vice-governadora do estado. Mas a paulistana, nascida e criada no bairro do Campo Limpo, na periferia de São Paulo, formada em Administração de Empresas pela USP (Universidade de São Paulo) e com mestrado em Administração Pública pela Universidade de Harvard, nega qualquer plano para ocupar um desses postos. "Sou executiva, gestora pública, me vejo onde estou hoje", desconversa.

Durante a pandemia, Patricia divide o dia entre o Palácio dos Bandeirantes, onde recebeu a reportagem de Universa, e sua casa no Alto de Pinheiros, bairro nobre da capital, onde vive com as duas filhas gêmeas de cinco anos. E é a maternidade, para ela, o grande desafio de ser mulher em uma carreira proeminente, mais do que possíveis ataques machistas. "Parece que a gente tem que banir do nosso dia a dia o papel de mãe. Para mim foi muito difícil lidar com o retorno ao trabalho, eu tinha vergonha de pedir ajuda", diz.


A senhora ocupa um cargo de grande destaque nacional como coordenadora do gabinete de enfrentamento ao coronavírus no estado de São Paulo, o primeiro a ser criado no país. O que de bom e de ruim te trouxe estar nessa posição?

O peso da responsabilidade é inegável. Estamos enfrentando a maior crise humanitária, econômica e sanitária de todos os tempos no mundo. É um nível de estresse altíssimo. As pessoas falam: 'Nossa, parece que você não se abala'. Faço ioga e meditação que, para mim, são muito importantes para manter a saúde emocional. Mas também tem uma sensação de me sentir honrada de poder contribuir em um momento em que as nossas decisões e as políticas públicas vão impactar a vida de tantas pessoas.

Seu nome já foi cotado para concorrer como prefeita e vice-prefeita da capital e governadora e vice-governadora do estado, cargos que já foram ocupados por homens que coordenaram a secretaria que você lidera hoje. Quais desses convites foram feitos e qual aceitou ou vai aceitar?

Foram muitos convites de filiação e sondagens. Mas não sou filiada a nenhum partido e não tenho intenções de cargo eletivo. Eu nunca manifestei esse interesse. Sou executiva, gestora pública, me vejo onde estou.

A senhora também está à frente do Plano São Paulo, de retomada da economia, criticado por especialistas por permitir a reabertura de estabelecimentos mesmo com índices ainda altos de contaminação e mortes pelo coronavírus. Em algum momento a senhora também questionou o plano?

Teve uma situação que me marcou muito. No começo do Plano São Paulo, há mais de um mês, um grupo de pesquisadores de uma das universidades estaduais mais respeitadas pegou os dados e fez cenários. Eles colocaram que, se o plano fosse aplicado, até final de junho ou começo de julho, os óbitos iam aumentar de 15 mil para 22 mil. Uma catástrofe. Esse foi um momento difícil. Exigiu muita resiliência, coragem e foco. Fui olhar os dados para ver o que estavam dizendo. Não é emoção. É uma gestão baseada em dados e evidências e no respeito à ciência. Vi que era o melhor caminho e tinha que confiar nisso. Fechamos o mês de junho com 15 mil óbitos.

No governo, já teve sua capacidade colocada em xeque por ser mulher e jovem?

Não. Mas sinto que estamos passando por um momento de transição no modelo de liderança, que é muito necessário. Seja no setor público ou no privado, o percentual de mulheres ocupando cargos de líderes não passa de 10%. A gente tem um problema que precisa ser resolvido e não é só no Brasil. Em janeiro, fui ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, com o governador. Duas coisas me chamaram a atenção: eu era a única mulher de gestão pública da América Latina. A gente chegava nos lugares, eu ia me apresentar e me perguntavam: 'Você é assessora de quem?'. Eu respondi a essa pergunta várias vezes. Então tem esses vieses inconscientes, que é natural, o que a gente não pode é se deixar abalar por isso. Outra coisa: das 34 reuniões que realizamos, em apenas duas havia uma mulher. Também tem as redes sociais, sou eu que mexo nas minhas. Às vezes, pego uns comentários e digo: 'Não é possível que a pessoa está dizendo isso'. Hoje mesmo um disse que sou arrogante e prepotente. Outro que adorou minha calça de couro. Às vezes, fico com raiva, começo a responder e paro. Não é meu perfil ter um tom bélico. Estou estudando a melhor maneira de falar com os homens sobre machismo.

Qual diria, então, que foi a sua maior dificuldade profissional?

Um grande desafio para mim foi a maternidade. Quando minhas filhas gêmeas nasceram, elas eram prematuras, fiquei seis meses de licença-maternidade e amamentava em livre demanda [permitir que o bebê mame quando e o quanto quiser]. Aí comecei a perceber de uma forma escancarada os desafios para a liderança feminina. Teve um dia em que eu fui dar um workshop em Brasília no Ministério da Indústria [Comércio Exterior e Serviços]. Eu conduzi o curso sozinha, era a única mulher na sala. Mas tinha acabado de voltar a trabalhar. Imagina, amamentando gêmeas. Oito horas depois de sair de casa, eu já estava precisando de qualquer forma tirar leite. Tinha levado a bombinha [de tirar leite], mas não sabia o que fazer, fiquei com vergonha. Se tivesse uma única mulher na sala, com quem eu pudesse conversar e pedir ajuda, teria feito uma diferença incrível. Comecei a sentir dor enquanto estava apresentando o workshop e pedi licença, falei que não estava bem. Depois disso, voltei para casa e disse: 'Não vou mais passar por isso. Mas como?'. A partir de então, comecei a levar a bombinha em uma bolsa térmica. As pessoas perguntavam o que era e eu respondia. Colocava em cima da mesa mesmo. Para todo mundo entender que é normal e que fazia parte do meu dia a dia.


A participação feminina em cargos de liderança é uma bandeira que a senhora costuma levantar em eventos e palestras. Como secretária, o que tem feito para estimular isso dentro da sua equipe?

Dentro do governo, a gente queria que houvesse coordenadoras mulheres. Quando entrei, começamos um processo seletivo de diretores regionais do trabalho. Eram 16 cargos em um processo que reuniu 2.000 currículos, metade era de homem e metade de mulher. Mas, por algum motivo, só apareceram homens como pré-finalistas. Perguntei o que estava acontecendo e disseram que os currículos das mulheres não eram tão bons. Tinha várias explicações: as mulheres, de fato, às vezes fazem currículo mais enxutos, muitas não se apresentam da mesma forma expansiva que os candidatos nas entrevistas. Fiz questão que tivesse um processo de reavaliação das etapas para poder garantir a equidade. No final, das 16 vagas, sete foram preenchidas por mulheres. Além disso, o governo tem quatro secretárias mulheres, é o recorde histórico. Somos 20% do secretariado. É pouco, precisa de mais. Mas é um passo importante. Aqui, tenho autonomia e confiança, essa foi a principal razão para eu aceitar o convite para ser secretária. Também há integração entre os secretários, o que é fundamental para o modelo de liderança feminino.

O que é o modelo de liderança feminino?

A mulher trata com mais naturalidade as emoções, e a gente busca uma solução para o coletivo. Não gosto de estereotipar, mas o homem acaba fazendo mais a gestão de território. Esse traço de liderança feminina está sendo muito importante na gestão da crise durante a pandemia. Nesse momento, a crise e o vírus não escolhem território. Talvez o legado [da crise] seja o fortalecimento das lideranças femininas. Veja, por exemplo, os países que têm sido usados como referência: a Alemanha, com a [chanceler] Angela Merkel; a Nova Zelândia, com a [primeira-ministra] Jacinda Arden; e a Islândia [Katrín Jakobsdóttir é a primeira-ministra]. Mulheres têm papel de agregar dados à humanidade.

A senhora é da periferia de São Paulo, fez mestrado em Harvard, foi presidente de empresa e hoje ocupa um dos cargos mais importantes no maior estado do Brasil. Acredita que foi só por seu próprio esforço?

Sinto que muito do que eu conquistei na minha vida foi fruto de esforço, mas também uma combinação de coisas muito importantes, como sorte, no sentido de ter tido acesso a oportunidades que minha família não teve. O CEP não deveria determinar tanto o destino de uma pessoa. Tenho uma família de 115 pessoas. Ao ver onde estou e onde meus primos que brincavam comigo estão, sendo que não há diferença nenhuma de esforço, porque eles também são esforçados, percebo que a gente precisa lidar com desigualdades estruturais que temos no país. Tem também um outro fator. Meu pai e minha mãe tiveram uma vida muito humilde, mas tudo o que eles puderam fazer pra me dar uma vida diferente eles deram. Muitas crianças não têm a mesma presença dos pais, isso faz muita diferença. Quando passei em três vestibulares, eles colocaram uma faixa no bairro dizendo que eu era a primeira da família a fazer faculdade. Nessa época, foi engraçado, eu ia na padaria e me davam parabéns. Todo mundo ficou sabendo. Eles celebravam cada vitória minha.

Como avalia o trabalho do governo federal na pandemia?

Eu vejo que muitas práticas poderiam ter sido implementadas no Brasil de forma integrada. Então, a falta de integração, de padronização de processos, de respeito à quarentena, essa situação dos governadores dizerem uma coisa e a mensagem federal ser outra fez muita diferença.
Acho que perdemos oportunidades, como país, de termos uma estratégia integrada e de acolher os estados que mais precisavam de ajuda.

Como tem sido a sua quarentena?

Tenho passado mais tempo com as minhas filhas. Nunca dormi no Palácio dos Bandeirantes, faço questão de voltar todo dia para casa. Meditamos juntas, elas estão aprendendo a tocar violão. Trabalho bastante, mas elas percebem minha alegria ao sair de casa e ao voltar. Um dia, a professora delas disse que elas morrem de orgulho do trabalho que eu faço, que é 'ajudar pessoas', nas palavras das duas. Quando puder, vou voltar a fazer programas na natureza. Eu estava aprendendo a surfar antes do isolamento, até levei um tombo.

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