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Em livro, Tabata Amaral revela resistência interna do PDT à sua candidatura

A deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP) lança livro com dicas para mulheres que vão se candidatar a um cargo político - Pablo Saborido/Divulgação
A deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP) lança livro com dicas para mulheres que vão se candidatar a um cargo político Imagem: Pablo Saborido/Divulgação

Camila Brandalise

De Universa

10/07/2020 04h00

Com menos repasses de verba do que os colegas de partido homens e tendo que ouvir o tempo todo que seu lugar não era ali, a hoje deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP) conta no livro "Nosso Lugar: o Caminho Que Me Levou à Luta Por Mais Mulheres na Política" (ed. Companhia das Letras), que chega às livrarias nesta sexta-feira (10), as inúmeras pauladas que tomou durante sua campanha, em 2018, inclusive dentro da própria sigla.

Logo no começo, ouviu de um dirigente que as urnas mostrariam que seu lugar não era ali, foi questionada se queria mesmo entrar "para o puteiro que era a política" e teve que restringir reuniões com correligionários a lugares públicos depois que um candidato a deputado estadual começou a gritar com duas integrantes da equipe dela que disseram não haver como apoiá-lo. Além disso, mesmo com seu nome em alta nas pesquisas, só conseguiu apoio financeiro da sigla quando o então candidato a presidente pelo PDT, Ciro Gomes, interveio.

Eleita com 264 mil votos —o PDT apostava que não passaria dos 5.000—, foi a sexta pessoa mais votada para o cargo em São Paulo e a segunda mulher mais votada do país.

A despeito do partido que escolheu e de seu posicionamento político, a história de Tabata é a mesma da de várias outras mulheres que decidiram se candidatar, como ela mesma confirmou com integrantes da bancada feminina da Câmara dos Deputados. "É uma experiência constante das que tentaram ocupar um lugar na política. Os partidos, de esquerda e de direita, são machistas, e lidamos com uma série de obstáculos que os homens não enfrentam", diz, em entrevista a Universa.

No livro, ela também dá dicas às novatas de como começar uma campanha, relembra sua trajetória e fala abertamente de problemas pessoais — como um episódio de paralisia do sono que teve enquanto viajava pelo estado pedindo votos e a dependência química do pai em crack.

O que é possível aprender com a história dela? Leia mais abaixo.


Vão tentar te fazer desistir o tempo todo, inclusive o seu próprio partido

Aos 24 anos e com um diploma em astrofísica e ciência política da Universidade Harvard, Tabata foi incluída em uma planilha montada pelos dirigentes do partido como blogueira. Na mesma lista, a sigla calculava que ela teria baixíssima expressividade e atingiria no máximo 5.000 votos.

Tabata conta que, em uma conversa com um integrante do PDT, ela e sua equipe, formada em sua maioria por mulheres, chegaram a ser questionadas se queriam mesmo "entrar para o puteiro que é a política e, ainda assim, permanecer puras". "Foi uma liderança que me falou isso, alguém que, teoricamente, deveria estar inspirando mulheres a entrarem para a política", diz na entrevista.

Ela explica ter escolhido suprimir o nome da pessoa no livro, assim como o de outros autores de ataques, para poder falar abertamente sobre a resistência interna do partido e mostrar que esse não é um comportamento restrito ao PDT nem a nenhum outro partido ou pessoa. "É estrutural, esses fulanos são muitos", conta.

Sua candidatura era o tempo todo colocada em xeque, e davam "a entender que as urnas mostrariam que ali não é o meu lugar", escreve a hoje deputada. Por isso, alerta futuras candidatas de que haverá tentativas de todos os lados para fazê-las desistir.

"Eu queria muito que alguém com experiência na política tivesse me dito que iam me tratar diferente porque era mulher. Saber disso faz com que a gente consiga destruir as barreiras internas", afirma a Universa.

"Quando recebo menos recurso financeiro e tenho menos visibilidade, se souber que é machismo, já não vou mais me questionar se fiz ou disse algo errado ou se realmente não tenho capacidade, como já ouvi várias vezes."


Você terá menos dinheiro do que seus colegas homens

"Comecei a campanha sem nenhum recurso próprio e sem nenhuma garantia de que receberia qualquer apoio financeiro do partido", conta Tabata no livro, para na sequência listar alguns gastos que teria: remuneração da equipe, além de advogados e contadores, contratação de plataformas digitais, custos de materiais e deslocamentos e aluguel de um local para o comitê.

Também sobre a falta de repasses, ela conta que, mesmo depois de começar a subir nas pesquisas, foi só com a intervenção de Ciro Gomes, então candidato a presidente pelo PDT, que a sigla passou a apoiar a campanha dela financeiramente.

"Ainda assim, recebi um valor muito menor do que vários candidatos homens em São Paulo e que representou menos de 10% do financiamento total da minha campanha."

Vá atrás de doações

Ela, então, começou a pedir doações e a participar de eventos para captação de recursos —para muitos dos quais sequer havia sido convidada. "O primeiro passo é garantir doações das pessoas que te conhecem, por menores que sejam os valores", escreve no livro.

"O segundo é estudar casos de vaquinhas online que deram certo e replicar boas práticas. O terceiro é participar do maior número possível de encontros de arrecadação", explica.


Pandemia vai obrigar a encontrar novas maneiras de falar com seus eleitores

Se você fosse candidata e tivesse que ir para a rua, por onde começaria? Não há uma resposta óbvia e também não foi fácil para Tabata. "Íamos para terminais de ônibus e de metrô, para as avenidas mais movimentadas, para feiras, universidades, e praças. Fomos para 38 cidades, do litoral e do interior do estado, e para todos os cantos da capital", escreve.

"É fundamental que, durante a campanha, você esteja na rua", avisa, mas pondera, em entrevista à reportagem, sobre o atual momento de isolamento social causado pela pandemia de covid-19. "Provavelmente imporá desafios extras para quem decidir se candidatar nas próximas eleições." A sugestão é colocar as dicas que ela dá em prática por meio das ferramentas tecnológicas. "Em algumas ocasiões, ligações e chamadas de vídeo, por exemplo, podem ser uma melhor opção do que posicionamentos genéricos em redes sociais."

Divida seu tempo

A deputada passa uma fórmula de divisão de tempo que pode ajudar quem está começando. A sugestão é que seja seja dividido em três partes. O primeiro terço deve ser gasto pedindo votos, começando por familiares e amigos. "Faça uma lista para ter certeza de que não está deixando ninguém de fora e ligue para essas pessoas para pedir apoio."

No segundo terço, dedique-se aos voluntários de campanha. "O mais importante é que eles [...] recebam treinamentos, que podem ser virtuais ou presenciais, tenham acesso aos seus materiais, recebam instruções e tenham suporte durante a campanha", escreve. Por fim, o terceiro terço deve ser usado para pedir doações.

Monte uma boa equipe de voluntários

Alguns voluntários serão pessoas próximas, mas outros, diz Tabata, te ouviram falar ou gostaram das propostas que viram nas suas redes sociais. Dê atenção a todos, disponibilize material explicativo com propostas e ofereça treinamentos. Se não souber por onde começar, faça por pessoas da sua comunidade: vizinhos, conhecidos do bairro, líderes comunitários.

Uma experiência de sucesso que ela relata no livro foi pedir aos voluntários que criassem grupos de Whatsapp em suas regiões e fossem adicionando mais pessoas. É uma maneira de garantir que eles terão suporte da sua equipe e, como ela só aprendeu depois de eleita, de chegar a uma estimativa de quantos votos receberá: a conta é multiplicar o número de voluntários por 50. Tabata tinha 5.000 voluntários, o que dá um potencial de 250 mil eleitores, 14 mil a menos do que o resultado oficial das urnas.


A campanha é desgastante e seu corpo pode reagir a ela

Tabata relata dois momentos bastante tensos durante os 52 dias de campanha, em que seu corpo reagiu ao desgaste físico e emocional do período. "É muito estresse, a gente caminha e fala muito e dorme pouco", explica na entrevista. Em uma ocasião, relata um episódio de paralisia do sono, condição que causa uma paralisia momentânea do corpo assim que a pessoa acorda. Ela havia chegado a Campinas (no interior de SP) para uma conversa na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), mas estava adiantada e decidiu tirar um cochilo no carro.

"Quando acordei, comecei a ver umas sombras roxas e pretas bastante sinistras [...] comecei a respirar bem forte para que os outros me ouvissem", relata.

Uma integrante de sua campanha bateu na perna de Tabata. Ela então saiu da paralisia e começou a gritar. Depois, se recuperou e seguiu para o evento.

O segundo episódio aconteceu quatro dias antes da eleição, quando foi à 25 de Março, tradicional rua de comércio popular em São Paulo. "Eu tinha acabado de tomar uma injeção e alguns remédios porque estava com uma infecção na garganta e 11 aftas que, literalmente, me faziam babar toda vez que eu tentava falar", escreve.

"Não foi só por ser um projeto complexo que me demandava muito. Eu entreguei uma tese em Harvard, com dificuldades no idioma, fui a primeira no meu curso e não tive isso", conta à reportagem. "O que mais pesou foi ter passado por um processo tão forte de ter que me reafirmar a todo momento, ser questionada sobre minha capacidade, lidar com mentiras violentas sobre mim e com gente me colocando para baixo", afirma.


Faça da sua história uma proposta

No livro, a deputada narra o drama da família, de origem pobre e moradora da Vila Missionária, na periferia de São Paulo, contra a dependência química em crack do pai dela, Olionaldo Francisco de Pontes, conhecido com Naldo, que se suicidou aos 39 anos, em 2012. Apesar dos "sentimentos confusos" que diz ter em relação a Naldo e ao vício, afirma que até hoje o pai é uma de suas inspirações.

"Na época, não entendia que a dependência química do meu pai era uma doença. Hoje vejo tudo com mais clareza. Ele é o maior exemplo do que não se realiza por causa da desigualdade social", diz.

"Era um homem inteligente, carismático, que gostava de ler, adorava charadas de matemática e morreu aos 39 anos de idade porque o estado falhou. Se ele tivesse tido as chances que eu tive, assim como várias outras pessoas da minha comunidade, poderia ser escritor, professor. Há várias histórias como essas de pessoas brilhantes que morrem jovens", diz.

"Me esforço como poucas pessoas que conheço, mas não posso ignorar que tive muitas oportunidades que outros não tiveram, também por ser branca. Nunca caí nesse mito de 'quem quer consegue'. Tenho consciência da desigualdade, sei que tenho sorte, sou privilegiada. E, quando falo da minha realidade e da vontade de mudá-la, as pessoas acreditam em mim e na minha proposta."

Livro Nosso Lugar, de Tabata Amaral - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

"Nosso Lugar: o Caminho Que Me Levou à Luta Por Mais Mulheres na Política"
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 192
Preço: R$ 34,90
Lançamento: 10 de julho

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