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Kelly Key: "Meus filhos têm bonecas e são treinados a serem bons pais"

Kelly Key lança álbum "Do Jeito Delas" com novas versões de seus sucessos e participações especiais - Divulgação
Kelly Key lança álbum "Do Jeito Delas" com novas versões de seus sucessos e participações especiais Imagem: Divulgação

Lucas Pasin

Colaboração para Universa

12/07/2020 04h00

No melhor estilo "girl power", Kelly Key reuniu um time de mulheres cantoras em seu novo álbum, "Do Jeito Delas", lançado na última sexta-feira (10). O projeto tem participações de Preta Gil, Luísa Sonza, MC Rebecca e Pocah, entre outras, todas cantando hits que marcaram os 20 anos de carreira da dona do 'Baba, baby'. A escolha das convidadas, segundo a artista, foi motivada pela história de cada uma delas: "São fortes, de opinião, e juntas fizeram o movimento pop se tornar real no Brasil. Algumas delas vieram do funk e enfrentaram ainda mais preconceito. Juntas nós podemos mais".

O lado empoderado de Kelly Key é uma marca não só em suas músicas, mas também em sua vida pessoal, onde vira e mexe dá a cara a tapa nas redes sociais ou na mídia para falar sobre preconceito, criação dos filhos, vida sexual, boa forma, alimentação e saúde. Aliás, ela tem chamado a atenção especialmente no TikTok onde mais de 4 milhões de seguidores acompanham seu conteúdo que vai de dicas de sexo a palhaçadas.

A cantora, de 37 anos, não quer ser 'referência', mas sim 'inspiração' para as outras mulheres, e entrega que foi com a maturidade que passou a cuidar melhor de si, inclusive fugindo de dietas loucas e remédios para emagrecer, algo que Kelly Key assume ter recorrido por 'preguiça' de fazer uma reeducação alimentar.

Após ser criticada recentemente por uma foto tomando banho com o filho mais novo, Artur, de 3 anos, a cantora - que é também mãe de Jayme, de 15 anos, e Suzanna, de 19 - diz que só buscou normalizar a maternidade e que toma banho com o filho toda semana. Além disso, ela conta reforçar também dentro de casa questões como machismo e preconceito: "Meus filhos têm bonecas e brincam com elas, isso pode torná-los melhores pais. Meu irmão brincou de casinha comigo, de boneca. Vemos as mulheres sempre treinadas para ser uma boa mãe, os meninos não. Tenho dois filhos homens e tento treiná-los para serem melhores adultos."

Seu novo álbum, 'Do Jeito Delas', vem com toda uma pegada 'girl power'. É mais um trabalho seu feito para empoderar a mulher?

Chamei várias meninas que me identifico para este novo álbum, principalmente por serem fortes e de opinião. Juntas, elas fizeram o movimento pop real e isso é uma felicidade muito grande. Tenho 20 anos de carreira, senti o preconceito lá atrás, e essas meninas também, ainda mais algumas delas, que vieram do funk. Sinto que juntas, neste álbum, nós podemos mais.

As suas letras sempre falaram muito sobre a mulher. É para reforçar uma luta contra o machismo?

De forma geral todos os meus trabalhos tendem a ser vistos como 'empoderados'. As minhas letras falam mesmo sobre a mulher e sobre relacionamentos onde nós nos colocamos, nos posicionamos. Faço questão de passar essa ideia. É muito importante evidenciar o empoderamento da mulher não só na música mas em tudo que a gente vê. Estamos lutando por espaço há muito tempo. Temos visto melhora sim, mas sabemos que ainda há muito o que lutar. Quanto mais as mulheres tiverem uma representatividade, melhor.

Você é uma das precursoras do pop feminino no Brasil. O preconceito por ser uma 'mulher rebolando' já te machucou?

Todas nós mulheres somos vítimas de preconceito, não só por rebolar, mas por tudo. Pela forma que falamos, nos colocamos, que andamos. Pensam que não podemos nos expor porque 'é vulgar, é ruim'. O 'ruim' deveria estar muito mais em como conduzem a vida do que em como dançamos ou nos vestimos. Venho lutando muito pela liberdade de todas as mulheres. Temos que criar homens com mais qualidade para o nosso futuro. Temos que criar melhores pais. A criação precisa ser diferenciada. Meu irmão brincava de boneca comigo, de casinha, e se tornou um grande homem, que admiro, e muito disso é porque tinham mulheres criando ali. Isso eu também tento passar para os meus filhos, para que eles cresçam livres de preconceito e sejam a minha melhor versão.

Por falar em filhos, você foi criticada recentemente por tomar banho pelada com seu filho Artur, de 3 anos. Como você vê esse episódio?

Fiz uma postagem deste momento, algo natural pra mim, com uma foto carinhosa, fofa, que faz parte da minha rotina, que é a minha realidade. Aquilo ali acontece toda semana. Infelizmente um grupo pequeno de pessoas criticou e gerou toda essa polêmica. A maternidade tem disso, não existe receita de bolo. Eu passo aos meus filhos várias questões para que sejam bem resolvidos, e isso vai além da minha foto tomando banho com meu filho. Meus filhos têm boneca e brincam com bonecas para que sejam melhores pais no futuro. A gente vê que a mulher é sempre treinada para ser uma ótima mãe. E os pais não recebem treinamento? Eu tenho dois filhos homens e tento sim treiná-los para que sejam os melhores adultos possíveis. Isso pra mim é o mais importante.

Criar filhos num país machista aumenta a sua responsabilidade?

Criar uma mulher num país machista é tão difícil quanto criar um homem num país machista. Temos que olhar para os dois lados com a mesma atenção para que ninguém atropele ninguém e que todos se respeitem acima de tudo. Meus filhos têm valores muito bons. O Artur, mesmo pequeno, se coloca em situações que já me enche de orgulho. A Suzanna nem se fala. É uma mulher que tem a opinião dela e que apresenta assuntos interessantes e com valores de uma criação. Trabalhei em equipe com a família para essa criação. O Vitor tem 15 anos e é um adolescente genial. É muito lindo ver meus filhos amadurecendo dessa maneira.

E ser uma referência para outras mulheres, tem um peso?

Ser referência para a mulher é uma honra pra mim, mas prefiro a palavra 'inspiração'. Referência tem mesmo um peso, parece cópia. Inspiração faz com que a gente construa uma melhor versão de nós mesmas. O lado positivo de ser inspiração é saber que conduzi bem a vida e que de certa forma inspiro outras pessoas por conta das minhas escolhas. E o lado negativo disso é exatamente quando as pessoas confundem um pouco tudo e querem apenas copiar, recriminar ou invejar. Nunca, de forma alguma, quando compartilho algo é para fazer com que o outro copie. É inspiração, assim como eu já fui inspirada por outras mulheres nessa vida.

A relação de quase 20 anos com o Mico Freitas, seu marido, tem alguma receita para o sucesso? Vocês sempre falam sobre sexo e essa 'chama acesa'.

Tenho uma relação longa com o Mico e, dentro de um quadro que tenho no meu canal [no Youtube] sempre falamos de relacionamento. Quando abordamos sobre sexo o assunto viraliza. Então, de uma certa forma, voltamos a falar sobre inspiração. Tento inspirar casais a acreditar no relacionamento e no amor. Tentamos incentivar que casais encontrem a melhor forma de conviver junto. O que mantém a nossa chama acesa vai muito além da cama, é claro, mas é também importante. A grande mentira que as pessoas falam, brincam, é que quando estamos solteiros temos uma vida sexual mais ativa do que quando casamos. Atividade sexual está ligada ao bem-estar. Se você se sente relaxado, se sente mais aberto. É natural que o casamento tenha mais tensões pelo dia a dia, mas temos que nos manter próximos ao nosso parceiro. Esse pode ser o segredo. Conversar e resolver tudo é o que nos une.

Outro assunto sempre em pauta é a sua boa forma e beleza. Você sempre se achou bonita?

Não tinha uma boa relação com o meu corpo antes. O suposto 'corpo ideal' sempre foi muito imposto para mim pela sociedade e pelo meu trabalho. E isso sempre gerou uma briga com a balança. Demorei para ter a relação que eu tenho hoje, de harmonia e aceitação. Já fiz todas as dietas malucas que você pode imaginar para emagrecer. A verdade é que eu não tinha paciência de parar de comer mesmo, ou de comer menos. Só a maturidade me trouxe isso. Achava um saco quando me falavam 'você precisa de reeducação alimentar'. Que saco! Parecia uma frase pronta. Mas, de fato, eu volto aqui para citar a frase que eu tanto odiei: todo mundo precisa fazer uma reeducação alimentar. É importante.

Aos 37 anos, envelhecer já virou uma preocupação?

Não tenho problema algum em envelhecer. É um processo natural, acho maravilhoso. Envelhecer vem com o processo de amadurecer, de se autoconhecer, e isso é muito libertador. Não tem preço. Posso chegar na maturidade muito bem e é isso que eu pretendo. Quero continuar me sentindo bonita, viva, para que eu construa muitas coisas ainda. Quero ver meus filhos crescer e poder viajar tranquila com meu marido, ou sozinha. Quero sempre ter muita vitalidade. Meu foco é amadurecer da melhor forma possível.

O TikTok mostra essa Kelly Key 'bonita e livre'. É por isso que você faz tanto sucesso por lá?

Antigamente as pessoas tinham um conhecimento superficial sobre nós artistas, mas a rede social permite que todos nos conheçam um pouco melhor. O TikTok surgiu neste momento em que queremos muito extravasar, rir, se jogar. Me sinto completamente transparente lá. Tá tudo muito pesado o que estamos vivendo e eu me joguei de cara nesta rede social. Durante a quarentena acumulei mais de 4 milhões de seguidores. E mostro a Kelly Key boba, brincalhona, bem eu mesmo. Por isso fluiu tão bem, por conta dessa naturalidade.

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